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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

A 20 de julho de 1777, o Bispo D. José Joaquim Justiniano Castelo Branco determinou que o seminário de S. Joaquim recebesse gratuitamente meninos órfãos pobres até o número de vinte e seis. Esse número, porém, foi elevado a vinte e nove no ano de 1795, em conseqüência de três legados de 1:200$000 cada um, feitos por Domingos de Sousa Guimarães, sob a condição de se criarem no seminário mais três lugares perpétuos para meninos pobres.

Mas o seminário contava três classes de alunos. A primeira era a dos meninos ricos chamados pensionistas, que pagavam oitenta mil-réis anuais. A segunda a dos menos ricos chamados meio-pensionistas, que contribuíam com quarenta mil-réis anuais. E a terceira dos pobres, que eram gratuitos, ou antes, que pagavam tanto ou mais que os outros. Graças ao concurso da caridade pública, e graças também ao seu trabalho, como daqui a pouco terei de mostrar.

Nos primeiros tempos, as duas classes de ricos e menos ricos contribuíam com sessenta mil-réis anuais a primeira, e com trinta mil-réis a segunda.

Até aqui nada há que notar. Chamavam-se alunos gratuitos no seminário de S. Joaquim os seminaristas que não tinham pais ou protetores que pagassem imediatamente a sua anuidade. Embora com o seu patrimônio e com as esmolas que eles próprios obtinham, fizessem igual ou maior pagamento, isso pouco importa.

Daqui por diante, porém, encontraremos diferenças e distinções que estão em completa desarmonia com os sentimentos de uma verdadeira caridade.

Vou principiar pelo princípio. Façam de conta que batia à porta do seminário de S. Joaquim um menino que queria entrar para ali. Havia lugares vagos em qualquer das três classes de seminaristas. Abria-se a porta.

O menino devia ser admitido com certas formalidades e eis aqui o que se praticava.

Se o menino era rico, o reitor o conduzia à igreja, cujas portas se abriam ao público, e depois de benzer os hábitos de seminarista, que o novo aluno trocava pelos seus vestidos seculares, fazia-o escolher e tomar o nome de algum santo, como se praticava nas casas professas, e enfim entoava um Te-Deum com toda a solenidade.

Mas se o menino era pobre, arranjavam-se todas essas cerimônias à capucha, no coro da igreja, e dispensava-se o Te-Deum.

Por conseqüência, os louvores a Deus eram rendidos pelo dinheiro que o menino rico vinha pagar e não pelo novo aluno que o seminário recebia, e que ia educar de modo conveniente ao Estado.

Passo a dizer-vos como se vestiam os seminaristas de S. Joaquim.

No interior do seminário traziam uma túnica de linho branco apertada com um cinto preto e calçavam meias brancas e sapatos pretos. Os pobres, porém, usavam a princípio sapatos de couro branco e traziam cinto de couro preto, em vez de cadarço dessa cor, com que se cingiam os ricos.

Nas solenidades dentro e fora do seminário os hábitos eram os seguintes: túnica, murça e barrete de baetilha branca, cinta de cadarço preto, uma cruz vermelha ao lado esquerdo da murça.

Dessas vestes brancas proveio aos seminaristas a alcunha de carneiros, por que eram conhecidos na cidade, e que provavelmente lhe foi posta pelos estudantes dos outros seminários, que, aliás, também foram alcunhados, como oportunamente direi.

O Padre Plácido Mendes Carneiro, sendo reitor do seminário de S. Joaquim, fez desaparecer completamente as diferenças que se notavam nos hábitos dos seminaristas ricos e pobres, bem como veremos que pôs termo a outras distinções e usos inconvenientes.

Este mesmo reitor obteve do Bispo D. José Caetano da Silva Coutinho, por despacho de 17 de agosto de 1811, a mudança dos hábitos dos seminaristas, que ficaram usando de túnica preta, barrete e meias da mesma cor, cinto roxo com uma pequena faixa, murça também roxa com uma cruz vermelha ao lado esquerdo e sapato com fivela.

Quando os seminaristas saíam em comunidade para alguma função ou cerimônia religiosa, iam assim trajados e levavam cruz alçada, cruz que se chamava pontifical, por isso que sustentava a tiara pontifícia e as chaves de São Pedro. Aos lados da cruz mostravam-se os competentes ciriais, e os seminaristas que levavam estas insígnias trajavam sobrepelizes que o seminário lhes fornecia.

Passados alguns anos, e tendo sucedido no reitorado ao Padre Plácido Mendes Carneiro, que fora nomeado cônego da capela real, o abade de Alverca, José dos Santos Salgueiro, o Bispo S. José Caetano permitiu, a pedido deste, que os seminaristas usassem de sobrepeliz, trazendo sobre esta a murça roxa e cabeção encarnado, com o que exultaram os jovens alunos por se acharem mais bonitos e vistosos que dantes.

O mesmo reitor conseguiu também do Sr. D. João VI para os seminaristas a concessão de uma medalha de honra, que eles traziam pendente de uma fita de seda preta, quando usavam hábito, e presa ao lado esquerdo do peito, quando se apresentavam de casaca.

A medalha era dourada e de figura oval. Em uma de suas faces via-se em relevo um livro atravessado por um cajado, lendo-se na circunferência pouco mais ou menos a seguinte inscrição: Pulitamum orphanotrophium divo Joachinodicatum. E na outra face estava a efígie do rei com esta outra inscrição:

(continua...)

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