Por José de Alencar (1875)
Enganavam-se. Apenas tinham êles voltado s costas, Arnaldo com uma agilidade, que em outro seria para admirar, mas era nele comezinha, de um salto suspendera-se a um ramo da Oiticica, e sumira-se por entre a espêssa folhagem.
Ganhando o tronco, despiu a roupa, que estendeu pelos galhos, e resvalou pela broca da árvore até a cava subterrânea, e gatinhando às vezes como um cão, ou rojando como um réptil, foi sair na bôca do fôsso.
Daí em diante corria uma levada cheia pelo inverno e que atravessava a linha de cêrco estendida pelo inimigo. O sertnaejo aproveitou-se do córrego, como de um caminho coberto, para transpor o acampamento.
Seguiu por dentro sutilmente, com água até os olhos. Quando chegou perto das barracas e tendas, os cães latiram, e acudiu logo uma das rondas ligeiras que os capitães das bandeiras tinham estabelecido para melhor guardar os passos entre os postos, e mais apertar o cêrco.
Arnaldo, porém, mergulhara, e caminhando por baixo d’água como a lontra ou a capivara, foi surdir muito além, já na floresta. Aplicou então o ouvido e distinguiu o mesmo tremor que pouco antes percebera confusamente, quando estava sentado embaixo da oiticica, e de que serviu-se para distrair a atenção do Manuel Abreu e sua gente.
Continuou no rumo dessa repercussão da terra, que lhe indicava a marcha de uma multidão. A certa distância êle soltou o berro da jibóia que era o grito de guerra de Anhamum. Outro berro lhe respondeu e o tropel dos passos cessou.
Momentos depois os dois amigos encontravam-se na espessura da floresta.
— Anhamum recebeu sua flecha que tu lhe mandaste, chefe dos tapijaras; e soprou o boré para convocar os seus guerreiros. Êle veio pelo rasto dos inimigos.
— Tu és um amigo fiel, chefe dos Jucás; teus guerreiros terão muitos inimigos a combater, e muitas armas e roupas para levar à sua taba.
Arnaldo sabia quanto os índios eram ávidos daqueles objetos, principalmente dos veludos e sêdas de côres vivas, com que se enfeitavam; porisso, embora tivesse confiança na dedicação do chefe, quis por êsse modo estimular a gana dos selvagens.
Combinou o sertanejo com o chefe um plano de ataque.
Os selvagens ficariam ocultos na mata, de espreita ao inimigo. No momento de assalto à casa, e a um sinal convencionado, Anhamum cairia sôbre as bandeiras do Fragoso, e as meteria entre dois fogos.
Despachou-se também imediatamente um guerreiro para ir ao encontro do Agrela, que Arnaldo supunha já estar àquela hora de volta da Barbalha; pois não era muito que, avisado como fôra, desse conta da expedição em oito dias, tanto mais quanto ao chegar a seu destino conheceria a mentira da suposta viúva.
O mensageiro devia prevenir o ajudante do cêrco pôsto à Oiticica; e recomendar-lhe da parte de Arnaldo que aguardasse a ocasião do assalto para dar também sôbre o inimigo, e cortar-lhe a retirada.
Tomadas estas disposições, tornou o sertanejo pelo mesmo caminho.
Tinha a sorte do Fragoso em sua mão; e ia oferecer ao capitão-mór a maior satisfação que êle podia experimentar nesse momento: a de castigar a insolência do rapazola que se atrevera a afrontar seu poder.
Maior, porém, era o seu júbilo de arredar para sempre daquele sítio o homem que tinha ousado erguer os olhos para D. Flor e cobiçar a sua beleza.
Imagine-se, pois, do golpe que o trespassou quando, entrendo pressuroso no camarim do capitão-mór, ouviu aquelas palavras em que a donzela, conformando-se ao desejo do pai, dava-se por espôsa a Leandro Barbalho.
Fugindo, seu primeiro ímpeto foi correr ao terreiro, apanhar as armas que alí estavam de prontidão, dispará-las umas após outras contra a gente do Fragoso, empenhar o combate, e assim provocar a morte.
Mas terminada a luta, ou o capitão-mór vencia, como era de esperar depois das providências tomadas, e Flor se casaria do mesmo modo com o primo, ou o Fragosos lograria seu intento e levaria a espôsa que viera tomar à mão armada.
— Não; eu não posso morrer. O capitão-mór vencerá; mas Leandro Barbalho não há de ser
marido de Flor.
XIX – A resposta
Ia alta a noite.
Na casa da Oiticica reinava o silêncio. A família recolhera-se a tomar algum repouso e o capitão-mór acompanhou a mulher para mais sossegá-la, contando voltar depois para seu pôsto.
No terreiro também os homens da escolta e mais gente acomodaram-se por baixo da oiticica, ao longo da calçada; e dormiam ao relento, com a cabeça encostada ao braço, e a espingarda segura entre os joelhos.
Os vigias, colocados ao correr do muro, investigavam os corredores, para dar rebate ao menor movimento suspeito do inimigo; e Leandro Barbalho embalançava-se na rede que mandara armar nos ramos da oiticica.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.