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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

Conhecia Peri e não podia compreender como o índio, sempre tão inteligente e tão perspicaz, se deixara levar por uma louca esperança a ponto de ir ele só atacar os selvagens. 

A extrema dedicação do índio por sua senhora, o desespero da posição em que se achavam, podia explicar essa alucinação, se o fidalgo não soubesse quanto Peri tinha a calma, a força e o sangue-frio que tornam o homem superior a todos os perigos. O resultado de suas reflexões foi que havia no procedimento de Peri alguma coisa que não estava clara e que devia explicar-se mais tarde. 

Ao passo que ele se entregava a esses pensamentos, Álvaro tinha feito uma volta, e favorecido pela festa dos selvagens se aproximara sem ser percebido. 

Quando avistou Peri a algumas braças de distancia, o velho cacique levantava a tangapema sobre a sua cabeça. 

O moço levou a clavina ao rosto; e a bala sibilando foi atravessar o crânio do selvagem. 


IV 

REVELAÇÃO 

 

Apenas Álvaro, com a chegada dos seus companheiros, viu-se livre dos inimigos que o atacavam, voltou a Peri, que assistia imóvel a toda esta cena. 

— Vinde! disse o moço com autoridade. 

— Não! respondeu o índio friamente. 

— Tua senhora te chama! 

Peri abaixou a cabeça com uma profunda tristeza. 

— Dize à senhora que Peri deve morrer; que vai morrer por ela. E tu parte, porque senão seria tarde. 

Álvaro olhou a fisionomia inteligente do índio para ver se descobria nela algum sinal de perturbação de espírito; porque o moço não compreendia, nem podia compreender a causa dessa obstinação insensata. 

O rosto de Peri, calmo e sereno, não lhe deixou ver senão uma resolução firme, inabalável, tanto mais profunda quanto se mostrava sob uma aparência de sossego e tranqüilidade.

— Assim, tu não obedeces à tua senhora? 

Peri custou a arrancar a palavra dos lábios. 

— A ninguém. 

Quando pronunciava esta palavra, um grito fraco soou ao lado dele; voltando-se viu a índia que lhe haviam destinado por esposa caindo atravessada por uma flecha. O tiro fora destinado a Peri por um dos selvagens; e a menina lançando-se para cobrir o corpo daquele que amara uma hora, recebera a seta no peito. 

Seus olhos negros, desmaiados pelas sombras da morte, volveram a Peri um último olhar; e cerrando tornaram a abrir-se já sem vida e sem brilho. Peri sentiu um movimento de piedade e simpatia vendo essa vitima de sua dedicação, que como ele sacrificava sem hesitar a sua existência para salvar aquele a quem amava. 

Álvaro nem se apercebeu do que acabava de passar; lançando um olhar para seus homens que batiam-se valentemente com os Aimorés fez um aceno a Aires Gomes. 

— Escuta, Peri; tu sabes se costumo cumprir a minha palavra; jurei a Cecília levar-te; e ou tu me acompanhas, ou morreremos todos neste lagar. 

— Faze o que quiseres! Peri não sairá daqui. 

— Vês estes homens?... são os únicos defensores que restam à tua senhora; se todos eles morrem, bem sabes que é impossível que ela se salve. 

Peri estremeceu. Ficou um momento pensativo; depois sem dar tempo a que o seguissem, lançou-se entre as árvores. 

D. Antônio de Mariz e sua família, tendo ouvido os tiros de arcabuzes, esperavam com ansiedade o resultado da expedição. 

Dez minutos haviam decorrido na maior impaciência, quando sentiram tocar na porta e ouviram a voz de Peri; Cecília correu, e o índio ajoelhou-se a seus pés pedindo-lhe perdão.  

O fidalgo, livre do pesar de perder um amigo, assumira a sua costumada severidade, como sempre que se tratava de uma falta grave. 

— Cometeste uma grande imprudência, disse ele ao índio; fizeste sofrer teus amigos; expuseste a vida daqueles que te amam; não precisas de outra punição além desta. 

— Peri ia salvar-te! 

— Entregando-te nas mãos do inimigo? 

— Sim! 

— Fazendo-te matar por eles? 

— Matar e... 

— Mas qual era o resultado dessa loucura? 

O índio calou-se. 

— É preciso explicares-te, para que não julguemos que o amigo inteligente e dedicado de outrora tornou-se um louco e um rebelde. 

A palavra era dura; e o tom em que foi dita ainda agravava mais a repreensão severa que ela encerrava. 

Peri sentiu uma lágrima umedecer-lhe as pálpebras: 

— Obrigas Peri a dizer tudo! 

— Deves fazê-lo, se desejas reabilitar-te na estima que te votava, e que sinto perder. 

— Peri vai falar. 

Álvaro entrava nesse momento tendo deixado no alto da esplanada os seus companheiros já livres de perigo, e quites por algumas feridas que não eram felizmente muito graves. 

Cecília apertou as mãos do moço com reconhecimento; Isabel enviou-lhe num olhar toda a sua alma. 

(continua...)

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