Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– Pensa bem, mancebo: daqui a uma hora nada poderá salvar-te... pensa...
– Estou decidido, senhor.
– Então toda a esperança de conciliação está perdida?
– Toda.
– E as conseqüências?...
– Embora.
– Fiz quanto pude, disse o velho com voz lúgubre; agora nada mais há que esperar.
Salustiano sorriu.
Rodrigues ergueu o braço direito como apontando para o céu, e saiu dizendo: – Justiça será feita.
CAPÍTULO XXXIX
NO ALPENDRE
LOGO QUE Rodrigues saiu, João entrou para o quarto deste, cerrou a porta e esperou a volta de seu irmão, meditando sobre os meios de realizar um projeto que desde muitos dias, e então mais que nunca, o ocupava.
Chegou Rodrigues, e adivinhando onde se recolhera o irmão, abriu a porta e entrou.
O velho guarda-portão estava triste e abatido.
– Então?... perguntou João.
– Nada.
– Não te havia eu prevenido de que serão inúteis todos os teus esforços?
– Paciência, mas fiz o que devia.
– E agora ainda quererás suspender-me?
– Não; convém que aquele moço seja abatido.
– Bem: tomo isso à minha conta.
Ficaram os dois velhos pensando durante algum tempo, e depois João perguntou:
– E a respeito do outro, que novidades há?
– Ontem à noite fez ele vinte e um anos.
– Eu o sei.
– À meia-noite bateu à porta do “Purgatório-trigueiro” uma mulher de mantilha, que o foi procurar.
– E essa mulher...
– Era Mariana.
– O que queria dele?
– Não sei bem, mas parece que conseguiu muito, porque ao romper do dia de hoje cheguei ao “Purgatório-trigueiro” muito a tempo...
– A tempo de quê?
– De desmanchar um projeto de viagem a mais extravagante do mundo. Cândido ia partir.
– Para onde?
– Ele mesmo não sabia dizer.
– Rodrigues, aquela mulher é o diabo em pessoa.
– É muito desgraçada, João.
– Por culpa dela: tu foste sempre mais piedoso do que eu.
– Não, tu és que te finges mau.
– Está bem; e então não conseguiste saber o motivo dessa viagem?
– O nosso pequeno teimou em ocultá-lo.
– Mas por fim, cedeu e ficou.
– Sim; porém custou-me muito. Foi-me preciso tocar-lhe na corda mais sonora de seu coração.
– Ah! já sei, falaste-lhe em sua mãe.
– É verdade.
– Pobre rapaz!... e como vai ele de amores?
– Olha, João, eu não o entendo. Até ontem à meia-noite era todo ardor, paixão e esperança.
– E hoje?
– Não quer ouvir o nome da “Bela Órfã”.
– E esta!...
– A mulher da mantilha dobrou muito à sua vontade aquele coração.
– Quando eu digo que ela é o diabo!
– Infeliz! treme diante do mundo. Salustiano é um espectro que a assombra; obedece-lhe como a um senhor.
– Cedo eu a livrarei desse fantasma.
– Como?
João ficou olhando por algum tempo para Rodrigues, e depois disse:
– Está bem... era um segredo que eu queria guardar para mim só, mas vou dizer-to.
Rodrigues escutou curioso.
– Tens um belo vizinho ali defronte, disse João.
– Sim, é o celebre Jacó... aquele nosso escrivão do processo.
– Pois sabe que é muito meu amigo.
– Teu amigo?... e tu apertas a mão de semelhante homem?
– Aperto.
– João!
– Nada de repreensões. Escuta: observei que o tal Jacó ia de vez em quando ter com Salustiano; ficavam a sós por algum tempo, e depois o escrivão retirava-se muito alegrezinho, e o outro ficava por algumas horas de mau humor.
– E a razão?
– Um dia consegui ficar em posição de ouvi-los, e apanhei-lhes o segredo. O escrivão é duas vezes infame.
– Como?... explica-te.
– Infame, porque recebeu dinheiro para queimar um processo, e por isso perdeu o ofício, e infame outra vez, porque o processo não está queimado.
– E então?...
– Ele o guarda.
– Oh! mas isso é o diabo.
– Pelo contrário, eu julgo que é excelente. Já te disse que tenho estreita amizade com Jacó.
– E que pretendes fazer?
– Ir morar com ele.
– E esperas conseguir isso?
– Com dinheiro tudo se consegue daquele homem. Vou alugar-lhe um quarto em sua própria casa.
– E depois?
– Depois os papéis estão lá, e hão de ser meus, custe o que custar.
– Falar-lhe-ás nisso?
– Deus me defenda. Salustiano deve tê-los pago bem, para que ele mos quisesse ceder!
– Olha, João, se te vás meter nalguma...
– Deixa o caso por minha conta; mas que é isto?...
Ouviu-se uma voz terna e melancólica, que começava a cantar o romance do “Sonho da Virgem”.
“Era um dia um mancebo, que ardente, “Pobre vida esquecido vivia; “E uma virgem...
O velho Rodrigues sorriu.
– De que te ris?... perguntou João.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.