Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Não, D. Lucrécia, fugir de meu pai, não, não!...
— Oh! pensa bem no que vais fazer, minha querida amiga; lembra-te que, com a inconstância deste mundo, podem em pouco tempo estar mudadas todas as cenas que hoje tão tristes se apresentam; é possível, é mesmo provável que o Sr. Hugo de Mendonça se reabilite no comércio; não seria nenhum milagre vermos esse moço loiro aparecer inopinadamente rico, feliz e alegre; a fortuna é assim, inesperada, imprevista sempre!... vê, pois, o que te cumpre, D. Honorina: pensa que para esperar a fortuna se faz preciso fugir desta casa; aqui há perigo... aqui tu não terás força para resistir às lágrimas de teu pai!
O veneno ia pouco a pouco escoando pelos ouvidos de Honorina; a pobre moça escondeu o rosto entre as mãos, e, derramando torrentes de lágrimas, exclamou por entre soluços:
— Não! D. Lucrécia; fugir de meu pai, não!... não!...
— Pois bem, faze o que te convier, D. Honorina; sacrifica-te... com teu sacrifício imola... mata esse pobre moço que te salvou; porque é preciso dizer que um homem que ama como ele, não sobrevive à morte de seu amor!
— Oh!... D. Lucrécia!...
— No entretanto, eu cumprirei o dever de amiga: se te resolveres a seguir os meus conselhos, escreve-me esta simples palavra — sim! — eu farei o resto; às dez horas da noite em ponto esperar-te-ei em uma carruagem a vinte passos do portão desta casa, e do lado da minha; conduzir-te-ei ao convento, para cuja entrada darei com o maior segredo todos os passos, esta tarde; se me não responderes até às duas horas, voltarei a ver-te. Adeus!... pensa e resolve-te!
Lucrécia levantou-se e despediu-se de Honorina, que, ao vê-la sair do quarto, exclamou ainda:
— Não!... D. Lucrécia, fugir de meu pai, não!... não!...
Às duas horas da tarde uma escrava de Lucrécia entregou-lhe um pequeno bilhete, que fora trazido por um pajem, que para logo se retirara sem cuidado de resposta.
A viúva abriu com impaciência o bilhete, e sem poder ocultar infernal prazer que lhe transluzia no semblante, murmurou arrastando-se por cada uma sílaba das frases:
— Vingo-me!... venci!...
No bilhete estava escrita uma única palavra:
— Sim.
XXXIII
Félix
Enquanto aflita e gemebunda a inocência lá se achava exposta aos laços da perfídia e chorava sobre seu amor e sua piedade, o crime não espremia essas lágrimas impunemente.
É falso! não há impunidade para o crime. Deus, sábio e providente, preveniu a ignorância e a fraqueza dos homens; quando estes não condenam, aí está a consciência do criminoso que o tortura. A consciência é a voz de Deus, que brada dentro do homem: o eco de seus brados vai soar na eternidade.
O malvado que se avezou ao crime, que o perpetra como por hábito, não passa ainda assim impune: isso que vós chamais hábito, é já o desespero da salvação; é a prévia condenação eterna, que o punge, que o dilacera tanto, que o faz desafiar a cada instante a cólera do Juiz Supremo, desejoso de ir sofrer a pena terrível, não podendo mais esperar por ela; porque se esperar o bem é um prazer que se frui de longe; esperar o inferno é já estar no inferno. A consciência nunca se caleja; no celerado, o que às vezes se apaga é a esperança de salvação; a nímia malvadeza é como uma loucura, pela qual o homem chega a julgar mais elevada a enormidade de seus crimes do que a misericórdia de Deus.
E aquele, cuja alma se ressente ainda de sua origem celeste, aquele que cometeu pela vez primeira um delito, recua, cora diante de sua consciência, como o mancebo enamorado aos olhos de sua bela, por quem foi convencido de um momento de infidelidade. É cruel estar o homem convicto de que praticou uma ação torpe; desde o instante da convicção, nunca ele está só, nem no solitário leito; aí mesmo, e em toda a parte tem diante de seus olhos, dentro de seu crânio, e sobre seu coração... a consciência do crime.
Esta pena terrível e sublime, que é conhecida do menino e do velho, a estava sofrendo Félix. Ele tinha sido condenado diante do tribunal infalível: seu processo, seu juiz, seu castigo, e o executor desse castigo, era somente a voz de Deus, que falava dentro dele. Não havia aí dizer — sou inocente! — a convicção estava com ele: a convicção era a pena.
Félix havia, pois, cometido um crime, que ainda não está para nós bem patente; mas que o estava para Otávio, que dele se serviu a fim de levá-lo à perpetração de outro.
O guarda-livros se transia, portanto, com a consciência de que era um falsário, um infame, um ladrão! — E não é tudo ainda: o homem, a quem ele tinha deixado roubar, era um de seus benfeitores; por conseqüência, havia um outro crime: a ingratidão.
E os resultados?... se Otávio levar a efeito seu indigno plano, quem sacrifica o coração da pobre moça?... quem reduz à miséria e é a causa dos horrores que ela fará sofrer a Hugo de Mendonça?...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.