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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

Quase sempre nas minhas excursões pelas casas dos políticos, ia tomar uma garrafa de cerveja a uma pequena confeitaria situada num arrabalde. Desde a segunda vez que lá fui, o caixeiro, à falta do que fazer, pôs-se de conversa comigo. Não deixei de dar-lhe atenção e a todas as suas perguntas respondia com o máximo desenvolvimento. Gostou ele muito da minha prosa e apreciou sobremodo a minha erudição. Passei a tomar duas garrafas em vez de uma e fui estreitando a amizade que tinha com ele.

Certo dia, estava eu conversando com a minha recente amizade, quando fiz reparo que, defronte à confeitaria, havia uma chapelaria. Notei ainda que os chapéus não eram maus e, não sei bem por que, veio-me a idéia de que aquele era o estabelecimento destinado a fornecer-me o chapéu. Eu queria um chapéu bom e os meus cobres não chegavam para isso. Pensei e achei um excelente plano para obter um.

Creio que a coisa se passou numa sexta feira. Cheguei muito cedo à confeitaria e disse ao caixeiro, meu amigo:

— Tenho que dar uma festa lá em casa e preciso de doces. Fui a diversas confeitarias e não puderam aceitar-me a encomenda, pelo simples motivo de que já têm muitas. Você podia servir-me? — Pois não, Dr.

Tinha com jeito dado a entender ao caixeiro que era doutor, mas não lhe disse o meu verdadeiro nome.

— Bem. Então você me manda preparar isso e mais cinqüenta pastéis.

O caixeiro já ia correr aos fundos para fazer a encomenda, mas eu o detive e intimei:

— E mais cinqüenta pastéis! Não se esqueça!

O amigo foi à cozinha. voltou e eu disse-lhe então:

— E mais cinqüenta pastéis! Veja bem!

— Estão encomendados.

— Logo mais, quando vier buscá-los, pagarei. — Não há dúvida, Doutor.

Saí muito contente e entrei na chapelaria como um rei. Pedi um chapéu e o caixeiro não tardou em servir-me. Escolhi com todo o vagar, mirei-o no espelho e disse com todo o garbo:

— Quanto custa?

— Vinte e cinco mil réis.

Aprumei-me todo e disse com toda ênfase:

— Não tenho aqui o dinheiro bastante; mas não há dúvida. Deixei ali, na confeitaria, cinqüenta mil, para pagar uma conta e vou ordenar que lhe dêem vinte e cinco. Venha cá!

O caixeiro seguiu-me e, ao chegarmos à porta, apontava um bonde.

— Que diabo! — disse eu. — Lá vem o bonde... Não há dúvida. Falo daqui mesmo.

E gritei para a confeitaria, chamando o caixeiro:

— Chico! Chico!

Não tardou que o meu espontâneo amigo aparecesse na porta. Eu lhe disse:

— Daqueles cinqüenta, manda vinte e cinco para o senhor, ouviu?

E apontei o empregado da chapelaria, que estava ao meu lado.

— Sim, senhor! — respondeu o Chico

O bonde chegava, despedi-me do caixeiro da chapelaria, que muito contente me oferecia o chapéu embrulhado.

Tomei o lugar no bonde e não sei do seguimento a aventura, porque nunca mais voltei por aquelas bandas, mas fiquei com o chapéu e não fui perseguido nem pelo confeiteiro nem pelo chapeleiro.

Animado com o sucesso da aventura, planejei logo obter os sapatos, tanto mais que queria procurar o Bonifácio e não me convinha ir com os sapatos cambaios.

Acontecia comigo uma coisa que se dá com todos. Desde que se tem uma idéia feliz, a tendência de nosso espírito é respeitá-la. Por isso, levei alguns dias, pensando em obter os sapatos da mesma forma que o chapéu. Ora, unicamente o acaso me havia protegido, pondo uma confeitaria em frente de uma chapelaria e, ainda por cima, fazendo o caixeiro simpatizar comigo.

Para o caso das botinas, podia não acontecer a mesma coisa, e eu sair-me mal. Resolvi, então, tentar outro caminho. De resto, era ele necessário, pois não tinha nem dez tostões de meu e dos últimos que me restavam, doía-me muito desfazer-me.

Conhecia vagamente um sujeito que tinha numa rua central da cidade um escritório de advogado, creio eu, onde fora duas vezes ver se ele me pagava uma conta que me deram para cobrar.

(continua...)

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