Por Aluísio Azevedo (1895)
Preferia o último. Mas desde então terrível sobressalto apoderou-se dela e começou a crescer à proporção que os dias se passavam; afinal era já um martírio de todo o instante urna agonia sem tréguas, que lhe não deixava um momento de repouso.
Nesta conjuntura lembrou-se de André e resolveu contar-lhe tudo.
E tal idéia lhe chamou logo aos lábios um suspiro, como se ela, só por si, fora já uma consolação completa. Entretanto, não podia a pobre senhora explicar qual era o estranho motivo dessa confiança que lhe inspirava o Coruja.
- Que mais podia esperar dele, além de conselho ou algumas palavras de animação? O fato, porém, é que Branca só com a idéia de lhe confiar aquilo que ela não quis confiar ao marido, sentiu-se menos oprimida e mais sobranceira ao perigo.
Uma inexplicável esperança, uma espécie de fé a arrastava para junto daquele homem honrado, daquele anjo de bondade que sempre encontrava meios de proteger todo o infeliz que ia procurar abrigo à sombra das suas asas.
Havia um quer que seja de religioso naquela confiança de Branca por André; ela esperava dele a proteção como os crentes quando se dirigem a Deus, sem mesmo indagar quais os meios que este empregará para isso.
E, nesta ilusão, tinha de si para si que chegaria ao Coruja tão facilmente como uma devota supõe chegar ao objeto de sua crença; mas, uma vez ao lado dele, sentiu-se vazia, sem encontrar o que dizer, sem uma palavra para principiar.
André estranhou-a e quedou-se igualmente mudo.
Houve um silêncio, durante o qual Branca de olhos baixos; torcia e destorcia o debrum de seu casaquinho de musselina preta, ao passo que ele, sem se animar a encará-la, olhava para os lados, meneando o corpo da direita para a esquerda.
- A senhora, se não me engano, balbuciou afinal o pobre André, creio que disse ter alguma coisa a comunicar-me. Não é exato?
É exato... fez Branca, tornando-se ainda mais pálida.
- Pois então...
- Mas é que..
- Tenha a bondade de falar com franqueza...
- Sim, eu, ouça-me... eu...
E ela não achava ânimo.
- Então!
- Vai ouvir tudo. Aguiar, sabe?...
- Seu primo?
- Sim; o Aguiar tem procurado todos os meios de me seduzir.
André sorriu lividamente. Ela acrescentou:
- Não me deixa há muito tempo, e, se bem que nenhum perigo houvesse nisso até agora, porque sou bastante honesta e virtuosa para não temê-lo... receio todavia quê...
- Quê?...
- Que ele, aproveitando-se das nossas circunstâncias atuais, se lembre de fazer-nos alguma maldade...
- Mas como?
- Ora! ele é credor de Teobaldo.
- Oh! é impossível, porém, que aquele rapaz leve a esse ponto semelhante perseguição.
Não creio que haja no mundo um homem capaz disso!
- É porque supõe os outros por si.
- E Teobaldo? Que diz ele a respeito disto?
- Nada, porque nada sabe.
- Pois a senhora não lhe contou tudo?
- Não.
- Por quê?
- Receando um escândalo.
- Ah! E o que tenciona fazer agora?
- Não sei, e é isso justamente que eu desejo ouvir de sua boca. O senhor, como o modelo dos homens honestos, deve saber aconselhar-me, dirigir os meus passos. Quero evitar um escândalo e quero conservar-me imaculada; diga-me: o que compete fazer?
- Mas...
- Oh! não hesite por amor de Deus! É impossível que o senhor não tenha uma boa resposta para me dar. É impossível que o senhor, tão bom, tão amigo dos outros, não encontre meio de me valer, quando eu venho pedir o seu auxílio.
Coruja não respondeu e pôs-se a coçar a cabeça.
- Então? disse ela. Vamos, fale. Diga-me alguma coisa!
E Branca sacudiu-lhe o braço.
Ele ia responder afinal, quando foram interrompidos por um criado, que vinha anunciar o Aguiar.
- Ainda?! exclamou Branca, deveras surpreendida. Pois meu primo tem ainda o atrevimento de voltar?
- Receba-o, disse o Coruja enfim.
E acrescentou, encaminhando-se para uma porta que havia na sala:
- Eu fico aqui escondido por detrás desta cortina. Receba-o sem o menor escrúpulo, porque a senhora não está só.
- Faça entrar meu primo, ordenou Branca ao criado.
Daí a pouco Aguiar estava defronte dela.
- Que deseja? perguntou a senhora, vendo que a visita não se resolvia a falar.
- Venho receber a confirmação do que há dias a senhora me disse.
- Ora essa! De que espécie de confirmação fala o senhor?
- Da confirmação das suas últimas palavras. Não quero que me pese na consciência a menor sombra de remorso pelo que vou fazer...
- Contra quem?
- Contra a senhora e contra seu marido.
Branca, por única resposta, apontou-lhe a porta, como da primeira vez. - Pense um instante! disse ele ainda. Veja bem o que faz!...
- Rua!
- Branca!
- Saia! Já lhe disse!
- Mas repare que a senhora me obriga a ser pior do que sou!
- Se não sair, mando-o despejar lá fora pelo criado!
- Sim?! Pois não sairei!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.