Por Aluísio Azevedo (1897)
A lavadeira, deitada sobre uma velha cama de ferro, tinha um aspecto hediondo. A doença comeralhe a gordura, e caíamlhe agora tristemente do pescoço, dos ombros e dos braços, as peles vazias e engelhadas. Seus olhos desapareciam engolidas pelas pálpebras empapadas, sua boca era uma fístula, a febre levaralhe os cabelos, e o crânio, mórbido pelo molho de luz que vinha do postigo, desenhavase, como o da velhinha Benedita, através do transparente rede das farripas secas e grisalhas.
— Já tenho ali a tinta e o papel, disse ela, sem atentar para a preocupação de Gustavo.
Este olhava em torno de si, oprimido pelo aspecto cru e nojento de tudo aquilo. Nas paredes, entre manchas de umidade, havia várias litografias de santos, nelas pregadas sem moldura; no chão, sapatos velhos, cestos de roupa suja e uma gaiola quebrada; a um canto, uma bacia de folha transbordava água sebosa. E uma galinha, cercada de pintos, cacarejava pelo quarto, a mariscar nuns pratos engordurados, que teriam servido naturalmente à última refeição.
— Quando quiser, estou às ordens... observou Gustavo, impaciente por livrarse daquele espetáculo.
— Fecheme primeiro a porta, pediu a velha; não quero que ouçam a nossa conversa. Esta gente de cá é muito amiga da vida alheia... Bem! agora puxe aquela mesinha para junto de mim! assim... Pode assentar. E antes de escrever, escute... escute com toda a atenção...
Gustavo percebeu que hálito da lavadeira transpirava aguardente.
XLI
ESTELA
Um tanto vergado na cadeira, o antebraço direito firmado sobre a perna, o olhar fito, tinha Gustavo a expressão concentrada de quem ouve com muito interesse.
A lavadeira disselhe francamente toda a sua vida; relatou como fora recolhida à casa do seu protetor, a morte deste e o imediato casamento dela com Moscoso; depois falou a respeito das questões de seu marido com o pai do Médico Misterioso, do aparecimento de Gabriel, do casamento de sua filha Ambrosina com Leonardo, da loucura do noivo, da morte do comendador, da intervenção de Gabriel, que se amasiou com Ambrosina, e, finalmente, das complicações que surgiram como conseqüência de tais desordens, dando em resultado a fugida de Ambrobina com Laura para a Europa, cujo verdadeiro alcance à pobre mulher estava bem longe de calcular.
— Mas, depois da união de sua filha com o Gabriel, como viveu a senhora?
— Ah! é justamente para chegar a esse ponto que lhe contei tudo mais...
E, depois de descansar um pouco, continuou, com a voz sempre arrastada:
— Calcule o senhor que um dia encontrei sobre a cama de Ambrosina um bilhete, na qual me comunicava ela haverse mudado para a companhia de Gabriel. Fui lá; minha filha convidoume para ficar, eu não quis, e isoleime na minha casinha do Engenho Novo. Foi então que me apareceu o Alfredo Bessa. o Alfredo mostrou interesse por mim, ia fazerme companhia, conversar, encarregarse de meus negócios. Era um bom amigo; um dia propôsme ficar com ele, e eu aceitei...
E, como Gustavo acabava de preparar um cigarro, ela tirou uma caixa de fósforos debaixo do travesseiro, passoulhe em silêncio, e continuou:
— Depois da morte do Alfredo, e como fosse escasseando o trabalho, mudeime para cá, onde com o aluguel da casa do Engenho Novo e o resultado de meu trabalho, tratava da vida e da educação de uma órfã, que eu havia tomado à minha conta.
— Digame uma cousa, interrompeu Gustavo; esse Alfredo, de que fala a senhora, não foi retratado depois de morto?...
— Foi, porém muito mal; por um moço, que um freguês nosso nos levou à casa. Ficou uma borracheira...
— Bem; mas o que é feito daquela menina de olhos vivos, que por essa ocasião estava em sua companhia!... Aquela, a quem o moço do retrato prometeu retratar igualmente?...
— Estela! Pois essa é que é a minha pupila; mas como sabe o senhor disso?...
— É cá por uma cousa... Vamos adiante.
— Essa menina ia verme de vez em quando, mas era interna no colégio das irmãs de caridade em Botafogo. Eu davalhe uma pensão com o aluguel da casinha do Engenho Novo, porém há quatro meses que as cousas mudaram inteiramente de figura, há quatro meses que não pago a pensão; a diretora escreveume várias cartas, prevenindo que me ia remeter a pequena; eu não tenho onde a receber, nem posso tampouco ir lá entenderme com ela. É um inferno!
— E por que não a recebe na sua casa do Engenho Novo?...
— Aí é que bate o ponto! Depois que Ambrosina partiu para Europa, nunca mais me deram novas dessa ingrata, e, como tinha, eu a minha filha adotiva, fazia por esquecerme da outra; mas, eis o demo, mando uma vez receber o aluguel da casinha do Engenho Novo, e o que recebo, em vez de dinheiro, é a notícia de que a casa fora vendida e que era agora o novo dono quem nela morava. Indago, procuro descobrir o que queria tudo isso dizer, e chego afinal à conclusão de que a casa fora vendida por Ambrosina, que havia chegado do estrangeiro com o nome de condessa não sei de quê! — Mas, a casa não era sua?
— Sim; havia, porém, sido comprada em nome de minha filha... para escapar aos credores de meu marido...
— Sua filha! Condessa! Ah! exclamou Gustavo; compreendo! É a Condessa Vésper?
— Justamente! é isso!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.