Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Apesar da insuficiência da casa, aí ficaram os órfãos de S. Pedro durante 27 anos, e por conseqüência, é claro que muito limitado devia ser o número dos meninos que então se aproveitavam da instituição.
Também é claro que a instrução que nesse colégio se oferecia aos pobres órfãos era demasiadamente limitada, e parecia tendente a dispô-los e prepará-los para a vida eclesiástica.
Fracos eram os recursos do estabelecimento, e quase que provinham todos de uma única fonte, a caridade pública, que provavelmente começou desde o princípio a ser despertada pelos próprios colegiais, que saíam a pedir esmolas.
Diz-se que não tendo o colégio nessa época patrimônio algum, e não chegando para sua sustentação a colheita de esmolas, concorriam os estudantes às festividades religiosas e aos enterros para que eram convidados, percebendo por isso espórtulas que revertiam em benefício do estabelecimento. Este uso iremos encontrá-lo durante algum tempo ainda no seminário de S. Joaquim.
Diz-se também que já nessa mesma época recebia o colégio alunos contribuintes; e se assim era, não sei como se acomodavam os colegiais naquele sobradinho contíguo à igreja de S. Pedro.
A 12 de maio de 1742 o Bispo D. Frei João da Cruz reformou os estatutos que tinham sido dados ao colégio pelo seu antecessor D. Frei Antônio de Guadalupe e procurou abrandar um pouco algumas disposições mais rigorosas desse regulamento, que era quase todo copiado de outro observado em um colégio semelhante que havia na cidade do Porto.
A infância da importante instituição dos órfãos de S. Pedro durou vinte e sete anos, cuja história é hoje quase toda tradicional e em muitos pontos obscura. Não há nem documentos, nem livros em que ela possa ser estudada, e somente é lícito afirmar que o colégio marchava embaraçadamente e lutando com todas as dificuldades do noviciado e da pobreza.
Entretanto, a instituição estava fundada. A árvore muito nova ainda não estendia em torno grandes e vigorosos ramos, a cuja sombra pudesse vir acolher-se um elevado número de órfãos. O solo, porém, era fértil, e o que mais faltava devia pouco a pouco ser conseguido.
Um velho de nome Manuel de Campos Dias, tinha levantado no ano de 1758 uma capela consagrada a S. Joaquim, no sítio em que principiava a Rua do Valongo, e notando as proporções acanhadas da casa do colégio dos órfãos de S. Pedro, ofereceu para estes a capela que fizera erigir.
Secundando esta ação piedosa, um homem cujo nome não chegou até nós, mas que se sabe ter sido morador de Minas Gerais, fez também, pelo mesmo tempo e para o mesmo fim, doação de algumas braças de terra que possuía junto daquela ermida, e que deviam servir para se edificar ali um seminário.
Era então reitor do colégio o padre Jacinto Pereira da Costa, que recebeu as doações feitas e deu princípio às obras do seminário, que ativou tanto, que as entregou muito adiantadas ao seu sucessor o cônego Antônio Lopes Xavier
Este novo reitor concluiu a parte principal do seminário e teve a satisfação de ver no seu reitorado, em princípio de dezembro de 1766, mudarem-se os órfãos de S. Pedro para a sua nova casa
Entretanto, perderam os meninos nesse dia a denominação por que eram conhecidos, e os órfãos de S. Pedro ficaram desde então sendo chamados a princípio órfãos de S. Joaquim, e enfim, seminaristas de S. Joaquim.
O sobradinho contíguo à igreja de S. Pedro foi depois de algum tempo destinado a hospedar o sacristão-mor da competente igreja, e ainda hoje, creio eu, continua a ter este destino.
Debaixo das vistas e da proteção dos bispos, foram os diversos reitores do seminário de S. Joaquim ampliando este estabelecimento, e pouco a pouco fazendo construir a igreja de S. Joaquim, conforme eram mais ou menos animadores os recursos que oferecia aos órfãos a caridade pública.
Pouco a pouco também conseguiram eles ir preparando o pequeno patrimônio que teve depois o seminário e que constou de nove prédios, que se deveram a alguns legados pios, e às sobras das despesas do estabelecimento, sobras que a economia dos reitores pode muitas vezes fazer aparecer.
Mas o patrimônio dos órfãos de S. Pedro ou de S. Joaquim
começou logo sob maus auspícios, porque o primeiro ou um dos primeiros
benfeitores, que foi o padre Sebastião da Mota Leite, legou em proveito do
colégio e dos colegiais uma chácara que nunca pudesse ser vendida nem obrigada
a coisa alguma. Fez-se, porém, o contrário disso, ficando o seminário sem a
chácara, como depois ficaram os pobres órfãos privados de tudo quanto era
propriedade sua.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.