Por José de Alencar (1875)
Depois entrou o padre em copiosa argumentação para convencer ao capitão-mór que, no fim das contas, o Fragoso, bem longe de insultá-lo, ao contrário rendia-lhe preito, como êle próprio confessava em sua carta; e se o fervor com que o mancebo procurava êsse casamento era uma culpa, atenuava-se com a formosura de D. Flor, que lhe inspirara tão viva paixão.
Leandro Barbalho ouviu em silêncio as ponderações do capelão, e de algum modo aderiu a elas fazendo ao capitão-mór esta declaração:
— O senhor sabe, meu tio, que eu não sirvo de embaraço à sua resolução. Obedecí-lhe aceitando a mão de minha prima; da mesma sorte lhe obedecerei não pensando mais nisso.
O capitão-mór atravessou o aposento e chegando ao corredor, chamou a filha em voz alta:
— Flor!
A donzela acudiu logo. Nas condições em que se achava a fazenda, cada acidente devia sobressaltar, como núncio de novas complicações. A filha do capitão-mór, porém, sabia dominar-se, e quando entrou no camarim, foi com um olhar sereno que ela interrogou a fisionomia das pessoas alí presentes.
— Leia a carta, padre Teles, disse o capitão-mór, significando à filha com um gesto que atendesse.
O capelão reuniu as duas bandas de papel, e obedeceu à ordem do capitão-mór. Finda a leitura, o pai coltou-se para a filha:
— Ouça agora os conselhos do nosso capelão. Fale, padre Teles.
O sacerdote repetiu o que havia dito pouco antes, insistindo, porém, nas razões mais próprias para mover o ânimo da donzela.
— Ouviu Flor? Agora que responde a esta carta?
— Sua filha, meu pai, a filha do capitão-mór Campelo nunca seria espôsa do homem que uma vez a insultou, ainda quando êle não se atrevesse a ameaçar-nos como o faz.
Campelo cerrou a filha ao peito:
— Aquí tem a resposta desta carta insolente. Mas nós queremos dá-la de um modo que fique para memória.
O capitão-mór reassumira de repente o gesto imperioso que êle tinha habitualmente e era a expressão de sua índole soberba, mas que ficara como atônito, desde o momento em que reconhecera a impossibilidade de desafrontar-se.
— Êle marcou três dias; nãp careço de tanto. Amanhã Flor será mulher de Leandro Barbalho.
Arnaldo assomara à porta, ainda a tempo de ouvir estas palavras; uma palidez mortal derramou-se pelo semblante, que nenhum perigo turbava. Quando êle saíu da vertigem que o assaltara, seus olhos fitaram-se na donzela.
Flor abaixou as pálpebras para não ver êsse olhar, e respondeu ao pai com uma voz calma, ainda que tocada de leve aspereza:
— Amanhã ou neste momento, meu pai, quando m’o ordenar, receberei por espôso meu primo Leandro Barbalho.
O sertanejo levou a mão ao seio para suster o coração que lhe desfalecia, e fugiu dalí com a morte n’alma.
Entretanto êle vinha cheio de esperança trazer a paz e a alegria àquela casa, onde lhe estava guardada a dôr mais pungente que podiam inflingir à sua alma.
Quando o capitão-mór se recolhera ao camarim para ler a carta, Arnaldo fôra sentar-se embaixo da oiticica onde estavam o Manuel Abreu e alguns dos agregados.
À distância de quinhentos passos, avistava-se uma linha escura que cingia o centro da fazenda, como um arco do qual a serra de Santa Maria figurava a corda. Nessa faixa somrbia luziam, aquí e alí, pequenos fogos vermelhos, que derramavam pelo espaço um clarão intermitente.
Eram as redes, que movidas ao compassado balanço, ocultavam às vezes o foco da luz e logo o descobriam, fazendo correr pelo campo umas sombras vagas, trêmulas e esguias, que lembravam os fantasmas e espectros das lendas populares.
Manuel Abreu e seus companheiros observavam atentos a linha, que indicava o acampamento das bandeiras do Fragoso e o cêrco pôsto à casa da Oiticica. No prolongamento do arco e ligação dos postos entre si, ciam êles o empenho de impedir a comunicação com o exterior.
O dono da Oiticica não podia contar senão com seus próprios recursos, e devia abandonar a esperança de obter socorro de for; pois antes que êste chegasse, o inimigo teria levado de assalto a casa.
— Não ouve um tremor? perguntou Arnaldo de repente ao feitor. Talvez tenham esperado pela noite para atacar-nos.
— Mas se agora mesmo veio uma carta do homem! disse o Abreu.
— Que tem isso? acudiu o Nicácio. É manha o cabra. Então aquele Onofre que é da pelo do cão.
— Não há que fiar! observou João Coité!
A-pesar-de suas dúvidas, Manuel Abreu conhecia bem a perspicácia do sertanejo para desprezar o seu aviso. Adiantou-se até o parapeito do terreiro e os companheiros o seguiram para verificar, se com efeito alguma partida se aproximava.
Quando tornaram aos bancos, Arnaldo havia desaparecido. Os outros suspeitaram que êle havia-se divertido à custa do Abreu; e porisso afastara-se dalí, para outro ponto do terreiro.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.