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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

— Confio em Deus, e no poder que ele colocou em minha mão: poder terrível que quando chegar o momento fulminará todos os nossos inimigos com a rapidez do raio. 

A voz do velho fidalgo pronunciando estas palavras tinha-se revestido de uma solenidade imponente; o seu rosto iluminou-se com uma expressão de heroísmo e de majestade que realçou a beleza severa do seu busto venerável. 

Álvaro olhou com uma admiração respeitosa o velho cavalheiro enquanto Cecília, pálida e palpitante das emoções que sentira, esperava com ansiedade a decisão que iam tomar. 

O moço não insistiu e sujeitou-se à vontade de D. Antônio de Mariz: 

— Obedeço-vos; iremos todos e voltaremos mais pronto. 

O fidalgo apertou-lhe a mão: 

— Salvai-o! 

— Oh! sim, exclamou Cecília, salvai-o, Sr. Álvaro. 

— Juro-vos, D. Cecília, que só a vontade do céu fará que eu não cumpra a vossa ordem. 

A menina não achou uma palavra para agradecer essa generosa promessa; toda a sua alma partiu-se num sorriso divino. 

Álvaro inclinou-se diante dela; foi juntar-se aos aventureiros; e deu-lhes ordem de se prepararem para partir. Quando o moço entrou na sala então deserta para tomar as suas armas, Isabel, que já sabia do seu projeto, correu a ele pálida e assustada. 

— Ides bater-vos? disse ela com a voz trêmula. 

— Em que isso vos admira? Não nos batemos todos os dias com o inimigo

— De longe!... Defendidos pela posição! Mas agora é diferente! 

— Não vos assusteis, Isabel! Daqui a uma hora estarei de volta. 

O moço passou a clavina a tiracolo e quis sair. 

Isabel tomou-lhe as mãos com um movimento arrebatado; seus olhos cintilavam com um fogo estranho; suas faces estavam incendiadas de vivo rubor. 

O moço procurou tirar as mãos daquela pressão ardente e apaixonada:

— Isabel, disse ele com uma doce exprobração; quereis que falte à minha palavra, que recue diante de um perigo?

— Não! Nunca eu vos pediria semelhante coisa. Era preciso que não vos conhecesse, e que não... vos amasse!... 

— Mas então deixai-me partir. 

— Tenho uma graça a suplicar-vos. 

— De mim?... Neste momento? 

— Sim! Neste momento!... Apesar do que me dizíeis há pouco, apesar do vosso heroísmo, sei que caminhais a uma morte certa, inevitável. 

A voz de Isabel tornou-se balbuciante: 

— Quem sabe... se nos veremos mais neste mundo?! 

— Isabel!... disse o moço querendo fugir para evitar a comoção que se apoderava dele. 

— Prometestes fazer-me a graça que vos pedi. 

— Qual? 

— Antes de partir, antes de me dizer adeus para sempre... 

A moça fitou no cavalheiro um olhar que fascinava. 

— Falai!... Falai!... 

— Antes de nos separarmos, eu vos suplico, deixai-me uma lembrança vossa!... Mas uma lembrança que fique dentro de minha alma! 

E a menina caiu de joelhos aos pés de Álvaro, ocultando seu rosto que o pudor revoltado em luta com a paixão cobria de um brilhante carmim. 

Álvaro ergueu-a confusa e vergonhosa do que tinha feito, e chegando seus lábios ao ouvido proferiu, ou antes, murmurou uma frase. 

O semblante de Isabel expandiu-se; uma auréola de ventura cingiu a sua fronte; seu seio dilatou-se e respirou com a embriaguez do coração feliz. 

— Eu te amo! 

Era a frase que Álvaro deixara cair na sua alma, e que a enchia toda como um eflúvio celeste, como um canto divino que ressoava nos seus ouvidos e fazia palpitar todas as suas fibras. Quando ela saiu deste êxtase, o moço tinha saído da sala, e unia-se aos seus companheiros prontos a marchar. 

Foi nessa ocasião que Cecília, chegando imprudentemente à paliçada, fez a Peri um aceno que lhe dizia esperasse. 

A pequena coluna partiu comandada por Álvaro e por Aires Gomes, que depois de três dias não deixava o seu posto dentro do gabinete do fidalgo. 

Quando os bravos combatentes desapareceram na floresta, D. Antônio de Mariz recolheu-se com sua família para a sala, e sentando-se na sua poltrona esperou tranqüilamente. Não mostrava o menor temor de ser atacado pelos aventureiros revoltados, que estavam a alguns passos de distancia apenas, e que não deixariam de aproveitar um ensejo tão favorável. 

D. Antônio tinha a este respeito uma completa segurança; tendo fechado as portas e examinado a escorva de suas pistolas, recomendou silêncio a fim de que nenhum rumor lhe escapasse. 

Vigilante e atento, o fidalgo refletia ao mesmo tempo sobre o fato que se acabava de passar, e que o tinha profundamente impressionado. 

(continua...)

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