Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Mas o que tu pareces querer fazer-me pensar é uma injúria que eu não sofrerei que se faça a meu bom pai e a minha avó!...
— Meu Deus! D. Honorina, eu não te quero fazer pensar coisa alguma contra teu bom pai e tua avó! eu não fiz mais do que contar-te a história do meu casamento.
— Que tanto assemelhaste à minha, D. Lucrécia!
— Isso não partiu de mim: é filho do acaso.
— Mas eu te pedia conselhos... e tu me contaste uma história.
— Donde podias tirar bons conselhos, D. Honorina.
— Outra vez!...
— Eu não sei dizer às minhas amigas senão a verdade, embora cruel: eu vejo que te pretendem fazer vítima de uma intriga...
— D. Lucrécia!
— Não compreendo como se possa ser na praça um rico e feliz comerciante, e em casa um negociante falido!...
— Basta!... eu não devo, eu não quero ouvir o que a senhora diz!...
— Pois bem! eu cumpro meus deveres de amiga; tu, D. Honorina, sacrifica-te! escuta tudo o que te fazem ouvir detrás de uma porta... entrega-te ao homem que te indicarem... a esse Sr. Otávio, ou ao outro, que de longe te requesta, e te persegue sem te ver, sem te amar... e, no entanto, esquece aquele que tanto te idolatra...
— Oh! basta!... basta pelo amor de Deus!...
— Esquece aquele que por ti vive e vela sempre... aquele que te ama com um amor tão novo, tão singular e tão belo... que por ti expôs sua própria vida...
— D. Lucrécia... compaixão para mim!...
— Não! não!... compaixão para ele!... para ele, pobre moço, que tudo devia confiar de tua constância, e que em breve terá de marcar o teu nome, como ainda um novo exemplo da volubilidade do nosso sexo!...
— Mas quando eu digo que o amo, que o adoro!...
— E que amor é esse, D. Honorina, que não é capaz de nenhum extremo, de nenhum sacrifício pelo objeto amado?... que chama é essa que cede a tão fraco sopro?...
— Que cede a tão fraco sopro?... D. Lucrécia, sabes o que é ser ou foste o anjo querido de teu pai?...
— Nossos pais?... nós lhe devemos tudo certamente; mas talvez que, cegos por seu amor, temerosos por nosso futuro, todos eles nos julgam muito imbecis para escolhermos um esposo; e quase sempre supõem indigno de nós o objeto de nosso amor; queres exemplo?... aí tens a vida, o destino da totalidade das mulheres aqui me tens a mim; e, finalmente, aí te tens a ti.
Honorina viu o rosto de Lucrécia animado e cheio de fogo; e ingênua que era, não compreendeu que há também entusiasmo no crime.
E Lucrécia, hábil e astuta, soubera ferir a corda sensível do coração da moça que atraiçoava: tocando no seu amor, mostrando-se inflamada e viva na defesa do moço loiro, tinha roubado a atenção e prendido o espírito de Honorina. Com a eloqüência e finura que lhe haviam dado o trato e a vida cortesã, foi levando a inocente moça passo a passo até o ponto onde queria dar-lhe o último golpe; encheu até as bordas um copo de horrível veneno, que lhe deveria deixar para beber; só quando tinha esgotado os mais capciosos argumentos, os mais detestáveis e perigosos sofismas, foi que, fingindo-se fatigada, calou-se, e respirou arquejando.
— Mas em conclusão, perguntou Honorina, que devo eu fazer?... o que me aconselhas?... — E para que um conselho, se não estás disposta a segui-lo?... se ainda há pouco me mandaste calar?...
— Perdoa; porém eu não podia ouvir falar contra meu pai.
— Pois então obedece-lhe em tudo.
— Oh!... mas isso é uma impiedade!... quando eu te peço um auxílio de amizade.
— Pois bem... eu acho um meio.
— Dize-o.
— Ouve-o; das duas uma: ou tu és vítima de infernal trama, ou não; há um recurso, mercê do qual podes escapar à intriga, e não perder a estima pública.
— E qual?...
— O seio de Deus.
— Eu não compreendo...
— Julga-se sempre mal de uma mulher que foge de seu pai para entregar-se aos cuidados de outro homem; mas ninguém pode maldizer a que se arranca da casa de seus pais para abrigarse à sombra dos altares do Salvador do mundo.
— E então... eu tremo!...
— Cumpre fugir e entrar em um convento.
— Fugir de meu pai?...
— Deus está acima dos pais...
— Fugir de meu pai?...
— Sim; mas para entrar logo em um convento.
— O que tu me aconselhas, D. Lucrécia, se assemelha muito a um crime!...
— Crime, buscar a casa do Senhor?! D. Honorina, tu desarrazoas. Ouve-me: saindo da casa de teu pai, tu lhe deixas uma carta em que declaras a resolução que tomaste, e o lugar onde foste procurar um abrigo; aí, se foi uma cilada, que contra ti forjaram, e teu pai te ama, esperas o seu perdão e sais depois nobre, cândida e pura, como entraste, para ser esposa do teu interessante e misterioso amado; e se é uma realidade o que se passa aqui, tu ficas no convento, e nem te sacrificas, nem te tornas pesada a teu pai.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.