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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

O seu tipo físico não lhe dava majestade, mas arrogância. Era baixo, com o pescoço enterrado nos ombros; a roupa assentava-lhe mal, embora fosse cara de preço e de alfaiate. No seu rosto acobreado com malares salientes, os seus olhos pardos e pequenos morriam sem brilho. Donde lhe vinha aquele poder de Charles Martell? Donde lhe vinha aquela dominação extraordinária? Ninguém sabia. O certo, porém, é que ele se pusera acima de tudo e não havia objeção legal que detivesse os seus caprichos.

Tardei muito em ir à sua presença, pois fui um dos últimos. Quando atravessava a porta do seu gabinete, veio-me ao espírito uma pequena dificuldade. Como devia tratá-lo? Sabia que tinha uma patente da guarda nacional, mas de que posto ignorava. Seria melhor tratá-lo de Doutor e, logo que me pus na sua frente, fui dizendo, sem reflexão:

— Doutor...

Estava quase a arrepender-me, mas notei que ele não se aborrecera. Ao contrário; a sua má fisionomia tomara uma rápida expressão de satisfação. Continuei:

— Doutor, eu sou o Dr. Gregory Bogoloff que...

Bonifácio adiantou-se e interrompeu-me:

— Sei. Li sua explicação. Sente-se, pois preciso falar-lhe demoradamente.

Animei-me com acolhimento tão lisonjeiro e eu mesmo me disputei em baixeza e adulação:

— Vi logo que o esclarecido espírito de V. Exa. Ficaria satisfeito com as minhas palavras.

— Não digo que não, mas há um ponto que não está bem explicado.

— Qual é, Doutor?

— Por que você (gostei da mudança) não fugiu?

— Não havia meios. Temi que na estrada de ferro me reconhecessem e...

— Mas podia fugir de canoa para o Estado das Abóboras, que fica perto.

— Perto! São duzentos quilômetros!

— Tanto? No mapa ficam tão juntos!

— Ah! Isto é no mapa.

— Bem. São coisas de astronomia que não entendo. A minha preocupação é não deixar o Simplício ser embrulhado, por isso meto-me nessas coisas... Só quero amigos no governo dos Estados.

— V. Exa. faz muito bem, porque não faltam aí traidores. Aprovo “in totum” o procedimento de V. Exa. O governo e as leis são feitos... — Leis! Bacharelices! Espoliações!

Expliquei-lhe que desejava a minha reintegração, tanto mais que eu era inocente, como se havia verificado.

— Não posso fazer isso que você pede. O lugar já foi preenchido, mas não faltará ocasião para servir ao amigo. Conte comigo.

Deu-me uma amigável palmada no ombro e eu sai certo de que ele não me arranjaria coisa alguma. Vendo-me nessa situação, tratei de liquidar a minha casa, apurar o dinheiro que pudesse e viver o mais economicamente possível.

Vivi assim cerca de seis meses folgadamente, mas ao fim desse tempo, começou o dinheiro a escassear e eu passava os dias a arquitetar planos que me fizessem sair do embaraço.

Tinha ainda bastante roupa branca e ternos bons; mas, as botinas e o chapéu começavam a ficar velhos. Influi muito no nosso destino um chapéu ensebado ou umas botinas cambaias e, como eu não desanimava de encontrar uma posição oficial, era-me necessário tê-los novos, para que os políticos não fugissem de mim.

A principal função dos políticos é dar empregos, mas eles não gostam de ser atormentados com pedidos e detestam que os maltrapilhos o façam.

De modo que, para eles, quem precisa de emprego, para viver, deve estar cheio de dinheiro com que pague bons vestuários.

Sabendo muito bem desse ponto de psicologia política, assisti com pesar à ruína dos meus chapéus e o acalcanhamento das minhas botas. Tinha uma cartola que, por pouco uso, estava nova em folha e dei em usá-la comumente.

Sem querer aumentei minha consideração e muita gente que me supunha na miséria, passou-me a tratar de forma mais atenciosa possível. Resolvi, por esse tempo, dar um plano que me trouxesse um chapéu novo, porquanto aquela cartola usada todo dia podia dar a entender que eu não tinha outro chapéu. Não convém usar muito repetidamente a cartola. No começo, faz sucesso; mas, com o correr dos dias, denuncia a miséria em que estamos.

A questão do chapéu era para mim importante e decidi-me a resolvê-la quanto antes.



(continua...)

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