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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

A família Silva, que se compunha de uma velha chamada Joana e duas filhas trintonas, era gente pobre, porém boa e honestamente laboriosa; e o hóspede, em troca dos graciosos desvelos que recebia dela, jamais negava os seus serviços, tinha ocasião de ser­lhe útil.

Uma vez disse­lhe a velha que desejava merecer­lhe favor, e, passando os óculos do nariz para o alto da cabeça, acrescentou com voz misteriosa:

— Nesse cortiço aí aos fundos da casa, há uma pobre mulher, bem apresentada ao que dizem, que há tempos lava para mim; ultimamente tem estado de cama, e mandou­me agora pedir que lhe fosse lá escrever uma carta, não sei para qual dos seus parentes. Como o senhor na ocasião não estivesse cá, desci eu próprio a ter com ela, acheia­a muito mal, coitada! e prometi à infeliz que, mal o senhor chegasse, lá iria a meu pedido prestar­lhe aquela caridade.

— Pois não, respondeu o rapaz; posso ir imediatamente, contanto que venha comigo alguém, para mostra­me a qual dessas centenas de portas tenho eu de bater.

E, enquanto D. Joana chamava pela negrinha que na casa representava o papel de copeiro, Gustavo, sem se desfazer do chapéu e da bengala, dizia de si para si, a recordar­se das muitas vezes em que da janela do seu quarto ficava a contemplar a labutação do cortiço:

— Deve ser aquela mulherança gorda e azafamada, que estava sempre a ralhar com as crianças, e de quem copiei o tipo da "Brigona" no meu romance "A Estalagem".

Daí a pouco esperava à porta da lavadeira que o mandassem entrar. A negrinha tinha já enfiado pelo quarto, a dar notícia da chegada "do moço que ia para escrever a carta".

O cortiço estava todo em movimento. Havia nele o alegre rumor do trabalho. Um grupo de mulheres, de vestido arregaçado e braços nus, lavava, conversando e rindo em volta de um tanque cheio. Um português, com jaqueta atirada sobre os ombros, tagarelava com uma negra, que entrara para vender hortaliças; duas crianças más, assentadas na grama raspada de um quase extinto canteiro, entretinham­se a enraivecer um cão. Um mascate, com uns restos de cachimbo ao canto da boca fumava ao lado de um tabuleiro de quinquilharias de vidro, e conversava em meia língua com uma velha ocupada a depenar um frango.

Gustavo observava tudo isto, e era igualmente observado. Seu tipo destacava­se ali, no meio daquela pobre gente, que o olhava com desconfiança.

Mas, afinal, a negrinha reapareceu, chamou por ele, e o rapaz entrou no quarto da lavadeira.

Era um cubículo estreito e oprimido pelo teto. Gustavo deu alguns passos e parou, afrontado pela escuridão e pela insalubridade do ar que respirava ali. A sua retina, que acabava de receber a luz de fora, ainda se não havia dilatado; só depois de alguns segundos foi que principiou ele a distinguir vagamente alguns vultos confusos.

— Venha para cá... disse uma voz fraca e arrastada.

O rapaz tomou a direção da voz, quase às apalpadelas.

A negrinha nessa ocasião voltava com uma cadeira, que fora pedir à vizinha, e Gustavo assentou­se ao lado da cama em que estava a enferma.

Pôde então com dificuldade reconhecer que a pobre mulher era justamente quem ele supunha.

Mas, que mudança!... pensava. Que transformação...

E declarou que D. Joana lhe pedira fosse ali escrever uma carta.

A senhora está doente?... perguntou ele depois.

Ao ouvir a última frase, a enferma pôs­se a gemer, como se só então se lembrasse dessa formalidade da moléstia.

E começou a queixar­se do que tinha, como se falasse ao médico.

— Estou muito mal, disse; o senhor não faz uma idéia! são pontadas no estômago, dores nas juntas, tonturas, cólicas, e a boca amarga, que é uma desgraça!

E como Gustavo fizesse um movimento de interesse:

Mas o que mais me consome é esta perna! acrescentou ela, esfregando a mão pela perna esquerda. — Olhe!

E, gemendo, cingiu o lençol à coxa para dar idéia da inchação.

— Porém aqui há de ser um pouco difícil escrever... arriscou Gustavo, a olhar em torno de si.

— Abre­se aquele postigo...

E gritou:

— Ó Bento!

— Eu abro! lembrou Gustavo.

E, depois de trepar­se na cadeira, abriu uma janelita de dois palmos, que ficava sobre a cabeceira da cama.

Entrou logo por aí um grande jato de luz, cortando o espesso ambiente com uma lâmina cor de aço.

Foi então que Gustavo viu distintamente a miséria repulsiva que o cercava.

(continua...)

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