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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

O sacristão-mor entregou então uma folha de papel ao governador, que, depois de examiná-la, e vendo que era uma subscrição em que ele era convidado a assinar em primeiro lugar, tomou logo a pena, escreveu o seu nome, e adiante a quantia de 400$000.

Da casa do governador, partiu o sacristão-mor com os dois órfãos a falar ao bispo D. Frei Antônio de Guadalupe, que prontamente assinou na subscrição uma quantia igual à que assinara o governador.

Depois do bispo, seguiram-se os negociantes e homens e senhoras ricas, que foram contribuindo com esmolas mais ou menos avultadas, de modo que, no fim de poucos dias, já se mostrava animadora a colheita para os órfãos de S. Pedro; e assim achou-se o sacristão-mor em circunstâncias de realizar a bela obra que tinha concebido, rezando ao senhor S. Pedro.

Mas onde, quando e como principiou esta instituição é o que não me é possível dizer, porque tanto não pude conseguir saber, apesar de todas as minhas investigações e de todos os tributos em que pus a paciência e a memória dos meus bons informantes.

É positivo que o bispo D. Frei Antônio de Guadalupe não só patrocinou a idéia do sacristão-mor da igreja de S. Pedro, mas ainda veio a merecer as honras de fundador do colégio dos órfãos de S. Pedro, porque, com a influência que lhe davam o seu merecimento, a sua posição e a sua autoridade, tomou a peito dar, e deu à obra da caridade um desenvolvimento que o sacristão-mor não podia realizar.

O zeloso e benemérito bispo comprou ao padre Manuel Marques Esteves o terreno contíguo à igreja de S. Pedro, e nele fundou o seminário que se dizia dos órfãos de S. Pedro (assim escreve Pizarro), por provisão de 8 de junho de 1739.

As palavras de que se serve Pizarro, que se dizia dos órfãos de S. Pedro, prestam-se a duas interpretações. Ou indicam que havia já um colégio com esse título, e eis aí o colégio fundado pelo sacristão-mor, ou Pizarro assim se exprimiu, porque quando escreveu, já o colégio tinha outro nome e se chamava de S. Joaquim.

Mas não resta dúvida a respeito da existência da instituição, um pelo menos, ou alguns anos antes de 1739, porquanto o mesmo Pizarro, dando conta da fundação do seminário de S. José, e dizendo que ela foi efetuada por provisão de 3 de fevereiro de 1739, acrescenta logo depois que: “ao mesmo tempo que se trabalhava naquela casa colegial, continuou a ultimar o zeloso bispo a primeira por ele fundada para educação e instrução da desgraçada e desvalida mocidade de meninos órfãos e pobres do bispado, a quem a falta de mestres, de protetores e de outros meios mais prontos negava a esperança de serem úteis a si mesmos, à pátria e às sociedades, tanto eclesiástica como civil. Com esse fim, comprou ao padre Manuel Marques Esteves, etc.”.

Portanto, quando se fundou o seminário de S. José, estava já fundado o colégio que se dizia dos órfãos de S. Pedro; e Pizarro atribui a fundação desta primeira casa colegial ao bispo e não ao sacristão-mor da igreja de S. Pedro, ou porque ninguém mais viu a sobrepeliz do sacristão, desde que aparecera a mitra do bispo, ou porque o modesto e humilde sacristão, em proveito da obra caridosa que concebera, imediatamente deixou o bispo tornar-se o fundador do colégio.

Nem seria esta a primeira vez em que um general recebesse exclusivamente os louvores e as honras de uma vitória, para alcançar a qual um simples soldado tivesse vencido alguma dificuldade antes dele.

Em todo o caso, bom foi que o Dispo D. Frei Antônio de Guadalupe abraçasse e desenvolvesse a idéia do sacristão-mor.

Como já notei, Pizarro nos diz que para fundar o colégio, o bispo comprou ao padre Esteves o terreno contíguo à igreja de S. Pedro. Creio, porém, que não foi somente comprado o terreno, mas também um sobradinho nele existente, que é o mesmo que ainda hoje ali se vê.

Esta minha persuasão nasce das próprias condições da casa. É inadmissível que o bispo Guadalupe fizesse construir para um colégio um sobradinho tão acanhado, tão mesquinho e tão impróprio para o fim que se tinha à vista. Se, porém, estou em erro, e aquela construção foi devida ao bispo, ruim gosto, nesse caso, teve S. Exa Reverendíssima.

Quem quiser pode ir ver e examinar a humilíssima casa de que se trata, e quem não se animar a fazê-lo conceba um sobradinho para o qual se sobe por uma escadinha, e que todo se resume em uma salinha e em alguns quartinhos, e com todos os seus cômodos acabados em inhos e em inhas, e terá feito uma idéia completa do colégio dos órfãos de S. Pedro, fundado pela provisão de 8 de junho de 1739.

Nesse colégio, que ficou desde logo isento da jurisdição paroquial, foram criadas uma aula de gramática latina, uma de música e uma de cantochão, sendo o seu primeiro reitor o padre Sebastião da Mota Leite.

(continua...)

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