Por José de Alencar (1857)
Não pareciam homens, e sim dez demônios, dez máquinas de guerra vomitando a morte de todos os lados; enquanto a sua mão direita imprimia à lamina da espada mil voltas, que eram outros tantos golpes terríveis, a esquerda jogava a adaga com destreza e segurança admiráveis. O escudeiro e seus homens tinham feito um semicírculo em roda de Álvaro e de Peri e apresentavam uma barreira de ferro e fogo às ondas de inimigos que bramiam, recuavam, e lançavam-se de novo quebrando-se de encontro a esse dique.
No curto instante que mediou entre a morte do cacique e o ataque dos aventureiros, Peri de braços cruzados olhava impassível para tudo o que se passava em torno dele. Compreendia então o gesto que sua senhora há pouco lhe fizera do alto da esplanada, e o raio de esperança e de alegria que ele julgara ver brilhar no seu semblante.
Com efeito no primeiro momento de aflição Cecília se lançara para ver o índio, chamá-lo ainda, e suplicar-lhe mesmo que não expusesse a sua vida inutilmente.
Não tendo mais visto Peri, a menina sentiu um desespero cruel; voltou-se para seu pai e com as faces orvalhadas de lágrimas, com o seio anelante, com a voz cheia de angústia, pediu-lhe que salvasse Peri.
D. Antônio de Mariz antes que sua filha lhe fizesse esse pedido, já tinha se lembrado de chamar os seus companheiros fiéis, e seguido por eles correr contra o inimigo, e livrar o índio da morte certa e inevitável que procurava.
Mas o fidalgo era um homem de uma lealdade e de uma generosidade a toda a prova; sabia que aquela empresa era de um risco imenso, e não queria obrigar os seus companheiros a partilhar um sacrifício que ele só, faria de bom grado à amizade que votava a Peri.
Os aventureiros que se haviam dedicado com tanta constância à salvação de sua família, não tinham as mesmas razões para se arriscarem por causa de um homem que não pertencia à sua religião, e que não tinha com eles o menor laço de comunidade.
D. Antônio de Mariz perplexo, irresoluto entre a amizade e o seu escrúpulo generoso, não soube o que responder a sua filha; procurou consolá-la, aflito por não poder satisfazer imediatamente a sua vontade.
Álvaro, que contemplava esta cena pungente a alguma distancia, no meio dos aventureiros fiéis e dedicados que tinha sob suas ordens tomou repentinamente uma resolução.
Seu coração partia-se vendo Cecília sofrer; e embora amasse Isabel, a sua alma nobre sentia ainda pela mulher a quem votara os seus primeiros sonhos, uma afeição pura, respeitosa, uma espécie de culto.
Era uma coisa singular na vida dessa menina; todas as paixões, todos os sentimentos que a envolviam sofriam a influência de sua inocência, e iam a pouco e pouco depurando-se e tomando um quer que seja de ideal, um cunho de adoração.
O mesmo amor ardente e sensual de Loredano, quando se tinha visto em face dela, adormecida na sua casta isenção, emudecera e hesitara um momento se devia manchar a santidade do seu pudor.
Álvaro trocou com os aventureiros algumas palavras; e dirigiu-se para o grupo que formavam D. Antônio de Mariz e sua filha.
— Consolai-vos, D. Cecília, disse o moço, e esperai!
A menina fitou nele os olhos azuis cheios de reconhecimento; aquela palavra era ao menos uma esperança.
— Que contais fazer? perguntou D. Antônio ao cavalheiro.
— Tirar Peri das mãos do inimigo!
— Vós!... exclamou Cecília.
— Sim, D. Cecília, disse o moço; aqueles homens dedicados vendo a vossa aflição sentiram-se comovidos e desejam poupar-vos uma justa mágoa.
Álvaro atribuía a generosa iniciativa aos seus companheiros, quando eles não tinham feito senão aceitá-la com entusiasmo.
Quanto a D. Antônio de Mariz sentira uma intima satisfação ouvindo as palavras do moço: seus escrúpulos cessavam desde que seus homens espontaneamente se ofereciam para realizar aquela difícil empresa.
— Me cedereis uma parte dos nossos homens; quatro ou cinco me bastam, continuou o moço, dirigindo-se ao fidalgo; ficareis com o resto para defender-vos no caso de algum ataque imprevisto.
— Não, respondeu D. Antônio; levai-os todos, já que se prestam a essa tão nobre ação, que não me animava a exigir de sua coragem. Para defender a minha família, basto eu, apesar de velho.
— Desculpai-me, Sr. D. Antônio, replicou Álvaro; mas é uma imprudência a que me oponho; pensai que a dois passos de vós existem homens perdidos, que nada respeitam e que espiam o momento de fazer-vos mal.
— Sabeis se prezo e estimo este tesouro cuja guarda me foi confiada por Deus. Julgais que haja neste mundo alguma coisa que me faça expô-lo a um novo perigo? Acreditai-me: D. Antônio de Mariz, só, defenderá sua família, enquanto vós salvareis um bom e nobre amigo. — Confiais demasiado em vossas forças!...
(continua...)
ALENCAR, José de. O Guarani. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.