Por Lima Barreto (1911)
— Admira-me que V. Exa. tenha patrocinado a candidatura de pessoa que ninguém conhece no Estado.
— Eu! Isto está tudo de patas para o ar...
Depois, como se quisesse apagar o efeito daquele desabafo, ajuntou:
— Não patrocino coisa alguma. Disseram-me que era o povo, o Bonifácio o quer e eu também o quero.Menino, no nosso regime, não há patrocínio; há escolha da soberania popular. Este é que é o seu “status quo”.
Não deixei e admirar as conseqüências de tal teoria, dando em resultado o advento de um desconhecido ao tal povo e também aquele emprego engraçado de “status quo”, mas evitei fazer qualquer comentário e falei-lhe na minha reintegração:
— Compreende V. Exa. que nem tive tempo de dar começo ás minhas experiências. Sinto até remorsos de Ter recebido do governo tanto dinheiro e nada ter feito. Desejava muito poder voltar para mostrar de que forma os meus projetos são excelentes.
Sofônias acendeu o cigarro, ergueu-se, pôs uma das mãos à cintura e, agitando a direita com um jeito sacerdotal, aconselhou-me:
— É preciso ter muito cuidado com os pequenos fatos. São os grãos de areia que mudam a sorte dos impérios. Não me posso meter no teu, porque o autor da demissão é o Bonifácio, um rapaz orientado, verdadeiro republicano, respeitador fetíchico do regimen... Deves procurá-lo e, antes, explicar como foi a coisa pelos jornais.
Sentou-se, quando acabou, e eu lhe objetei:
— Mas, Senador, V. Exa. há de anuir que eu não posso confessar que me obrigaram à força a ir ao palácio.
— É verdade, menino. mas tens um bom “desgarro”.
— Qual é?
— Afirmas que foi a multidão. Procura por aí um rapazola hábil nessas coisas de escrever e pode ser que arranjes a coisa.
Senti bem que a minha entrevista estava terminado e despedi-me. Segui o alvitre do Senador e imediatamente redigi a explicação que ia dar ao público e aos meus amigos. Publiquei-a nos “a pedidos” do Jornal do Comércio e, nela, eu dizia que, tendo tomado aquele nome ao acaso, para, mais em sossego e segurança, inspecionar os serviços do Ministério, sem me lembrar que era o do eminente político eleito governador dos Carapicus, a multidão, sem verificar identidades, mas apaixonada pelo nome que representava o seu ídolo, que resumia uma sua esperança de farta prosperidade, obrigou-me a ir tomar posse do alto cargo. Quem conhece a psicologia das multidões, dizia eu, sabe perfeitamente como essas coisas se passam e diante delas qualquer de nós tem e se curvar às suas vontades, como nos curvamos diante das manifestações das forças da natureza. Elas são o raio, o vento, a chuva, ao mesmo tempo; elas são verdadeiros cataclismos. Apontava testemunhas, citava episódios, e fiquei mesmo contente com o meu escrito.
No dia seguinte, resolvi-me a procurar o Bonifácio, no palácio governamental. Havia, na sua antecâmara, mais de cinqüenta pessoas, metade das quais eram mulheres, moças bem postas e galantes.
A ansiedade se estampava naquelas caras e, em muitas, havia também o vexame.
O Estado é o mais forte desmoralizador do caráter. Mais que os vícios, o álcool, o jogo, a morfina, a cocaína, o tabaco, ele nos tira toda a nossa dignidade, todo o nosso amor-próprio, todo o sentimento de realeza de nós mesmos.
Muitas daquelas eram pessoas de cultura, de educação; entretanto, para obter isso ou aquilo, se tinham que agachar, que adular um tal Bonifácio que, no fim de contas, não passava de um criado do Sr. Presidente.
Depois disso, que sensação delas mesmas poderiam ter? Fossem servidas ou não, sairiam degradadas.
Bonifácio passou por nós e entrou no seu gabinete. Todos nós nos desfizemos em sorrisos e cumprimentos e, quase sem nos corresponder, como se fosse um imperador, foi atravessando aquela chusma de súditos necessitados.
(continua...)
BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.