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#Romances#Literatura Brasileira

A Mortalha de Alzira

Por Aluísio Azevedo (1891)

— Era muito natural, continuou aquele; muitíssimo natural que, em meio de uma sociedade devassa, em meio da França da Pompadour, aquele verbo sincero, ingênuo, convicto e apaixonado, a todos fulminasse, como se fora ele raios de luz vingadora enviada diretamente por Deus. Paris, meio eletrizado de Champagne, havia adormecido embalado por uma canção de Bouflers, guinchada por qualquer espalier do teatro de Audinot, e acordou estremunhado no dia seguinte à voz cristalina e matinal de uma criança, que vinha repetir em linguagem bíblica o que há quase dezoito séculos apregoavam em Galiléla os discípulos de Cristo. É natural que se comovesse... e foi isso justamente o que sucedeu. Paris, que há tanto tempo só sabe fazer uma cousa bem feita e com graça,— a orgia,— ficou embasbacado defronte da casta e simples palavra de um pobre seminarista sem pretensões. Nada mais justo! Mas o que lhes afianço, meus amigos, é que, se o simplório do padreca visasse a qualquer efeito; se desconfiasse, ao menos, da impressão que ia produzir no público, a ninguém teria comovido. Se ele conhecesse a sociedade que hoje o aclama; se ele tivesse tido a menor aspiração de glória; se ele não fosse, enfim, coitado! mais inocente e mais puro do que a menina mais inocente de Paris, juro-lhe que não conseguiria o triunfo que obteve. O choque foi grande, porque foi inesperado. Os parisienses morrem pelo imprevisto e pela novidade; e ninguém, hoje em dia, lhes poderia proporcionar melhor novidade, do que o singularíssimo caso de um rapaz de vinte anos perfeitamente imaculado e puro!

— Mas, doutor, ele será com efeito tão puro como se diz por aí?... perguntou Gabriela em ar de riso. Não creio!

— O que há de mais puro, confirmou o médico.

— Um homem virgem em pleno século dezoito! ... Qual! disse Sofia Verrière, soltando uma risada. Também não acredito!

— Nem eu! reforçou Margarida, sem rir.

— O Dr. Cobalt exagera com certeza... observou Gabriela.

— Não exagero, tornou o materialista; e digo mais, que ele nenhum mérito revela com semelhante raridade, porque tal pureza não é obra sua, mas sim de frei Ozéas.

— Mas, afinal, perguntou Alzira, saindo da sua abstração e encaminhando-se para o doutor; afinal, qual dessas mil e uma lendas, que correm por aí a respeito de Ângelo, é a verdadeira?

— Quais sejam as mil e uma, não sei... disse o médico, sentando-se no meio do grupo; mas a verdadeira é esta que vou contar:

— Pois venha a lenda!

— Venha a lenda!

— Atenção!

CAPÍTULO VII

Frágil como uma lágrima!

O Dr. Cobalt. com o espírito alegre de que era dotado e com a sua pitoresca e original maneira de contar as cousas, narrou às damas e cavalheiros que se achavam no palpitante salão da condessa Alzira, a curiosa e singela história de Ângelo.

Foi escutado com o máximo interesse. A formosa e fria dona da casa, essa mulher que diziam de coração surdo a todas as ternuras e de olhos secos e fechados para todas as dores, era todavia a que se mostrava presa dos lábios do narrador, e a que mais avidamente lhe bebia as palavras.

— Ozéas, disse o médico, concluindo, queria enfim fazer um padre perfeito, para poder dar alguém por si, quando, despido da traiçoeira carne, tivesse, como sacerdote, de prestar contas do que praticara nesta vida. Queria fazer um grande coração, muito forte e muito amoroso; amoroso para Deus, forte para o mundo. Queria que o seu discípulo amado fosse uma torre de cristal, invulnerável e incorruptível, mas tão alta e tão sólida que ligasse a terra ao céu e o homem a Deus! Dito isto, calou-se por um instante; depois sorriu para o atento grupo que o cercava silencioso, e acrescentou, pondo-se de pé e abrindo os braços, na galante reverência de uma quase mesura:

— Ora aí tem, meus adoráveis amigos, tudo o que sei de fonte pura a respeito do singular moço, que tão formidável impressão deixou sobre Paris na quinta-feira santa.

Alzira quebrou o seu silencio para perguntar, com os olhos fitos no médico:

— E ele, antes de quinta-feira, nunca então havia saído à rua?...

— Nunca, afirmou aquele. Fez todos os seus estudos e recebeu as ordens sem arredar pé do convento, ao qual o seminário é anexo. Seus dias, desde a mais tenra idade, foram todos, dedicados de corpo e alma aos livros santos e aos misteres da igreja.

— Então é um ente perfeitamente puro? interrogou ela.

— Puro como um anjo.

— É extraordinário! exclamou Margarida, sem poder conter o seu entusiasmo.

— É inacreditável! disse Sofia, meneando a cabeça com um gesto de incredulidade.

Gabriela Vanguyon soltou um suspiro e deixou escapar esta frase, que fez rir a sociedade:

— Um homem puro em Paris! A dois passas de nós!...

E o Dr. Cobalt, que saboreava o efeito da notícia da castidade de Ângelo sobre aquelas mulheres, cujo olfato já de há muito se tinha esquecido do delicioso perfume da flor de laranjeira, acrescentou, para alfinetar-lhes as fibras da admiração:

— Um homem puríssimo, virginal! Imaculado como a Virgem Santíssima! Um homem completamente inocente, sem a menor idéia do que seja sociedade, nem paixões mundanas, nem sexos, nem...

— Nem sexos?! inquiriu Gabriela, escancarando os olhos, sinceramente pasmada.

— Nem nada! nada! nada! respondeu o médico, sorrindo e apertando os lábios. Nada, minhas adoráveis pecadoras! Mas o que se chama "nada"!

— Estudava e lia muito, não é verdade, Dr. Cobalt?... quis saber Margarida Duclos.

(continua...)

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