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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

A viúva olhou­o de alto a baixo; tinha­lhe fugido dos lábios o sorriso carinhoso com que até aí mimoseara o hóspede Gaspar abaixou os olhos, sem compreender o que se passava.

— Beijar­me as mãos... disse ela por fim. Só se lembrou disso depois da transação comercial! E são assim todos os homens!... Enquanto se trata de cousas verdadeiramente raras e preciosas, porque dependem só do coração e da pureza dos sentimentos, não se abalam sequer! A meiguice, a ternura, a feminilidade, que uma pobre mulher desenvolve desinteressadamente para cumprir com eles o seu destino de amor e de sacrifício, nada mais obtém de seus lábios que algumas palavras banais de reconhecimento e cortesia. Mas logo que se trata de materializar o bem, logo que o sacrifício, que o obséquio, que a abnegação, se acham representados por um valor real, por uma quantia enfim... ah! então querem beijar­­nos as mãos e encontram facilmente exclamações de entusiasmo e de gratidão!... Não beijará! exclamou ela, fazendo um gesto de energia. Estou cada vez mais convencida de que os homens são todos os mesmos... Visionária e tola é a mulher, que espera encontrar entre eles um coração justo e perfeito. Se eu não fosse rica, se eu não pudesse oferecer­lhe agora uma quantia, de que aliás o senhor tem absoluta necessidade, é muito natural que o senhor não encontrasse uma palavra afetuosa para os meus desvelos, e é possível até que, uma vez que já não precisasse deles, chegasse a desprezar­me e fazer mau juízo da minha conduta, porque, no fim de contas, eu tinha cometido a imperdoável leveza de recolher em minha casa um homem quase morto, e de proporcionar­lhe todos os serviços que o seu mísero estado reclamava. E afinal os senhores acabam por ter razão! Toda nossa vida, toda nossa dedicação, toda nossa ternura, toda nossa paciência, não valem um obséquio praticado por um homem a outro homem! Tudo o que pode fazer o coração de uma mulher não vale um empréstimo de dinheiro, uma fiança, uma comenda, um elogio pela imprensa ou qualquer outra bagatela, que afague o amor próprio de algum parvo, ou salve a suposta honra de qualquer fátuo!

— Minha senhora, eu peço­lhe mil perdões, se...

— É melhor não dizer cousa alguma! Vamos, assine o vale, e depois há de preparar­se para jantar. Pode receber de minhas mãos o miserável serviço que me propus oferecer­lhe: em breve o senhor terá ocasião de prestar­me um outro muito maior.

Com todo o gosto! respondeu Gaspar, assinando o vale e entregando­o à sua salvadora.

Esta leu consigo a assinatura, e disse com sinais de satisfação: — Logo vi que me não tinha enganado! É justamente quem eu supunha!...

Em seguida, retirou­se, sem dar tempo ao hóspede para voltar a si da estranheza daquelas palavras.

Ele encostou­se a um móvel, e deixou­se arrastar por um cardume de raciocínios. — Quem seria aquela mulher tão extraordinária?... Que relação haveria entre ela e um pobre viajante, pouco conhecido em qualquer parte e inteiramente ignorado naquela cidade onde pisava pela primeira vez?

Estava a fazer tais considerações, quando a porta se abriu de novo, e apareceu um homem de uns sessenta anos, acompanhado por um rapaz que trazia uma caixa na cabeça.

O velho era limpo, discreto e sumamente cortês; via­se nele um desses bons servos do tempo da regência, que não sabiam aprumar­se como o criado inglês, nem sorrir maliciosamente como o francês. Foi a Gaspar e cortejou­o sem afetação e sem servilismo: fez o companheiro depor no chão a caixa que trazia, e principiou a tirar dela várias peças de roupa.

— Meu amo tenha a bondade de escolher daqui o que lhe convém, disse ele, como se estivesse de muito tempo a serviço de Gaspar.

Este tomou o expediente de deixar que as cousas corressem ao bel­prazer da fada que fazia girar a roda daquela fortuna, e escolheu a roupa de que podia precisar.

O criado tomou­lhe a medida do pescoço e da cintura, e encheu uma gaveta com o mais completo enxoval de roupa branca. Em seguida, voltou­se para o rapaz da caixa e disse­lhe que podia retirar­se. Gaspar olhava para tudo aquilo, completamente intrigado.

O sexagenário entregou­lhe uma carta com o dinheiro oferecido pela oriental e perguntou­lhe depois se já queria vestir­se. Passaram para a próxima saleta, que era um brinco de luxo e de bom gosto.

Pois senhor meu amo, dizia o velho, a pentear a bonita barba castanha de Gaspar; estimo bem ver afinal vossemecê à testa de sua casa... Só dessa forma a minha pobre patroazinha passará uma vida menos amarga! Ela coitada, vivia tão triste, que metia dó!...

Gaspar sentiu arrepios. Ia desembrulhar semelhante mistificação; mas, receoso de fazer alguma tolice, deliberou conter­se.

— Então, a senhora, vivia muito triste?... perguntou ele.

— É como lhe estou a dizer, meu rico amo, a pobrezinha só o que fazia era chorar e falar na próxima chegada do marido!

— E esta? disse Gaspar consigo. Pois eu era esperado já por aqui?

(continua...)

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