Por Machado de Assis (1886)
Não durou, porém, isto mais do que quinze dias, ao cabo dos quais Vicente adoeceu. Foi o sinal da agitação naquela família, que tão sossegada e silenciosamente vivia. Emília, assustada ao princípio com os sintomas de uma grave enfermidade para seu pai, quis ir ela própria chamar o médico.
Vicente disse-lhe que chamasse antes o criado de Davi, e que por caridade este se prestaria a isso.
Com efeito, mal a filha do hortelão fez saber a Elói o serviço que exigiam dele, o criado apressou-se em ir à cata de um médico, e depois à compra dos medicamentos precisos. Esta solicitude, confessou depois o próprio Elói, era ordem expressa de Davi.
— Ah! dizia Vicente quando soube desta circunstância, e aquele amigo tão longe! Se eu morrer?...
— Morrer? Não fale nisso, meu pai...
— É muito possível, minha filha, eu nem sempre hei de viver, e bom é que nos acostumemos a este pensamento, de que, aliás, nunca nos devíamos esquecer. Emília chorava ouvindo estas palavras de seu pai. Vicente, para distraí-la, começava de afagá-la e passava a assuntos diferentes.
Entretanto, a moléstia de Vicente agravou-se, e o médico chegou a recear pelos dias do enfermo.
Quando Emília soube do estado grave de seu pai quase endoideceu. Não era só o arrimo que perdia; era a imagem viva da consolação e do conforto que ela tinha nele e que estava prestes a separar-se dela.
Redobraram os cuidados.
Elói durante algumas noites deixou a casa do amo para ir passá-las ao pé do enfermo. Emília por seu lado passava as noites em claro, e só cedia às instâncias do criado para que fosse descansar, quando já lhe era absolutamente impossível conservar-se acordada. Ainda assim pouco dormia. Passando da realidade dos fatos, Emília era dominada pelos mistérios da imaginação. Os sonhos mais lúgubres e assustadores atordoaram o seu espírito durante o sono.
Uma noite, em que Elói, sentado em um pequeno banco, fazia esforços incríveis contra o sono que o invadia, Vicente acordou de uma madorna de meia hora. Viu que o criado fugia embalde ao sono, e cuidou que a filha também estivesse repousando. Mas, desviando o olhar para o fundo do quarto, deu com os olhos em Emília, ajoelhada, apoiada em uma cadeira, implorando não sei que santo invisível pela saúde do pai. Este espetáculo comoveu o doente. As lágrimas vieram-lhe aos olhos. Lembrou-se então das horas longas e choradas que passara igualmente junto ao leito da filha, implorando ao Senhor pela saúde dela.
E não pôde deixar de dizer com voz fraca, mas suficiente para que ela ouvisse:
— Deus te ouça, minha filha.
— Meu pai!
E Emília dirigiu-se para o leito do enfermo, que lhe beijou as mãos de agradecido. Esta cena repetiu-se ainda algumas vezes durante as crises da enfermidade de Vicente. À força de cuidados e de remédios Vicente pôde melhorar, e tão a olhos vistos, que um dia de manhã Emília, ao levantar-se e ao ver a fisionomia do doente, julgou que se tivesse operado um milagre.
Vicente melhorou e ficou restabelecido. O médico proibiu-lhe expressamente que voltasse tão cedo ao trabalho.
— Mas como passaremos nós? perguntou Vicente a Emília quando esta lhe comunicou as determinações do médico.
— Trabalharei eu, e com o mais que há iremos passando...
— Mas tu, trabalhares sozinha? Isso não pode ser.
— Tanto pode, que há de ser...
— Mas... Enfim, lá diz o rifão que Deus dá o frio conforme a roupa. Podia ser pior, e eu ficava aí perdido de uma vez.
— Não podia ser pior, meu pai.
— Por quê?
— Porque eu pedi à minha madrinha...
A madrinha era a mãe de Deus. Esta devoção tão cândida e tão sincera fez sorrir de contentamento ao hortelão.
— Pedi-lhe a sua saúde, meu pai, e bem vê que ela me ouviu.
— Dize-me cá, Emília, se eu morresse que farias tu?
— Morria também... Não me seria possível sobreviver-lhe. Que me restava mais neste mundo? Não é meu pai o único fio que me prende à vida?
— Pobre filha!
Esta exclamação pintava toda a situação daquelas duas criaturas, situação dolorosa e admirável, em que a vida de uma dependia da de outra, sem outra solução possível, visto que a morte de uma tirava à outra toda a esperança de felicidade e de paz. E o que era esta moléstia de Vicente? Que resultado teria no futuro daquela família? A ruína. O pecúlio feito à custa de tantas economias, de tantos trabalhos, de tantas misérias, fora absorvido com a moléstia de Vicente. Dora em diante deviam começar de novo a ajuntar o patrimônio do futuro, que era a segurança da honra e da paz. E aqueles dois Sísifos olhavam-se rindo, contentes de si e de Deus, sem repararem nas atribulações e nas fadigas porque deviam passar de novo.
Já Vicente terminara a convalescença quando recebeu uma carta de Davi. Aproximava-se o tempo marcado para a volta do poeta, e a carta fez-lhe supor que o poeta não voltaria ainda.
— Para que me escreveria se voltasse já?
Abriu a carta e leu-a:
(continua...)
ASSIS, Machado de. O pai. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1866.