Por Bernardo Guimarães (1883)
A preta tomou a benção e retirou-se. Dahi a pouco chegou o senhor Moraes, que fatigado dos passeios tratou immediatamente de deitar-se, e em breve adormeceo profundamente, Adelaide porém com o espirito superexcitado pelo singular e estranho acontecimento que acabava de lhe ser revelado, não podia conciliar o somno. Por tres vezes levantou-se c tomando a lampada, que ardia sobre um bufete, emquanto todos dormião, dirigia-se pé ante pé para o quarto de Rozaura, e alli sentando-se de mansinho á beira da cama da menina adormecida ficava por longo tempo a contemplar-lhe o rosto angelico que lhe despertava n'alma recordações a um tempo tão triste e tão suaves. Da terceira vez, que lá foi, o semblante da gentil escrava appresentava um aspecto ainda mais risonho e encantador; um sonho celestial parecia illuminar-lhe a physionomia.
Adelaide a contemplava absorta e enlevada, e a muito custo continha-se para não estreitala nos braços e cobril-a de beijos. Dir-se-ia que a filha, apezar de ter os olhos cerrados, estava vendo com os olhos d'alma o rosto da mãe, que a contemplava, procurava sorrir-lhe e se esforçava por lançar-lhe ao collo os braços entorpecidos peio somno. De feito passados alguns instantes os braços de Rozaura fizerão um pequeno movimento para se erguerem, e a rosada boquinha entreabrio-se mostrando os alvos dentes n'um sorriso cheio de caricias e meiguice. Adelaide não poude conter—se; abaixou o rosto sobre o de Rozaura, e a mãe em um assomo de ineffavel ternura encostou sua bocca á da filha, o colheo nos labios della aquelle angelico sorriso, como o colibri colhe a gotta de mel no calis de uma rosa.
Rozaura accordou e abrio os olhos; mas já Adelaide, medrosa como o amante que tivesse furtado um beijo á amada adormecida, tinha apagado a lampada rapidamente e se esgueirado para sua alcova.
CAPITULO VI
Um sonho realidade.
A descoberta que Lucinda acabava de fazer, havia collocado Adelaide na mais singular e complicada situação. O vivo prazer que experimentava vendo sua filha como que resuscitada, e além disso crescida, vigorosa e bella como um anjo, era contrabalançado por considerações que o leitor bem póde avaliar. Tinha sua filha em casa, é verdade, mas como escrava, como propriedade, como um movel. Era-lhe possivel talvez libertal-a á força de instancias e supplicas para com seu pae e seu marido e depois conservava por tempo indefinido cm casa junto a si, mas como liberta, e não como filha, não como irmã dc seus outros filhinhos. Bern sc vê que isto só poderia suavisar um pouco a sorte da infeliz engeitada, mas seria dolorosissimo para um coração materno. Era mistério menos que se verificasse que Rozaura, — embora não se declarasse ser filha de Adelaide, não nascera captiva, e que só um cruel e inexplicavel destino a fizera passar por tal, e como tal ser vendida de mão em mão. Demais, esse facto de que somente Adelaide e Lucinda se achavão intimamente convencidas, não estava comprovado, sináD pelos indicios, aliás robustissimos, em que se firmara a velha escrava.
Essas provas porém não erão ainda peremptorias, e não constituião sinão presumpções muito fortes em favor da supposição de Lucinda. Sem algum documento escripto, sem alguma justificação irrefragavel, essa supposicão podia cahir por terra, como mero embuste de ne ora velha, e a condição de escrava da pobre Rozaura, não tendo nenhum fundamento solido para ser contestada, nem ao menos poderia ser posta em litigio.
Não erão porém só esses os maiores embaraços, com que luctava o espirito atribulado da pobre senhora. Mesmo que Rozaura fosse reconhecida livre e nascida de paes livres, jamais poderia ser reconhecida como sua filha, sem que Te revelasse a nodoa do seu passado, e sem incorrer no desprezo e talvez no odio de um e outro. Poderia ella confessar a um ou a outro a sua falta com esperança de obtér indulgencia e perdão ? . . . Era principalmente para com o esposo que a posição de Adelaide se tinha tornado uma das mais difficeis e angustiosas, que se póde imaginar. Confessar ao marido uma falta, que ha mais de doze annos lhe havia occultado, era um passo arriscadissimo, a que jamais se abalançaria. Tinha vergonha, e tambem muito medo da colera do marido. Quando se ama uma mulher, que se julga pura, o ciume não perdoa nem mesmo as frequezas do passado.
Luctando com estas angustias do coração e perplexidades do espirito, Adelaide, que nem um momento adormecera, esperou anciosa o alvorecer do dia. Rozaura com um semblante risonho e tranquillo foi a primeira que lhe veio pedir a benção. Adelaide olhou para ella com enternecimento e alegrou o coração da pobre menina.
Adelaide esperava com impaciencia uma occasião opportuna, em que achando-se a sós com Lucinda, se aconselhasse com ella a fim de combinar os meios de salvar Rozaura das garras do captiveiro e fazel-a reconhecer como livre de nascimento sem comprometter a honra de Adelaide ; sem revelar o triste acontecimento, que até alli felizmente havia dormido na sombra do mais profundo mysterio.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.