Por Martins Pena (1846)
PEDESTRE, no mesmo – Seu pai!
ROBERTO – Onde está ela? Quero abraçá-la.
PEDESTRE, no mesmo – Abraçá-la, abraçá-la!
ROBERTO – Sim, apertá-la contra o meu peito, fazê-la feliz... E a vós também, a vós que a tendes amparado. Oh, conduzi-me, conduzi-me para junto dela!
PEDESTRE, com a fisionomia desfigurada e tomando Roberto pelo braço – Vossa filha... está morta!
ROBERTO – Morta!
PEDESTRE – Sim, e fui eu, eu mesmo que a matei!
ROBERTO – Oh, grande Deus, que tenho ouvido? (Neste tempo Anacleta tem saído do buraco da porta.)
PEDESTRE, louco – Ela me traiu... seu amante... matei-os, fiz muito bem! Portas fechadas... nada valeram... Enganou-me... matei-a... Está morta! Palácios, equipagens, ouro, muito ouro, tudo ela me fez perder... Por sua causa viverei na miséria!
ROBERTO, como aniquilado – Meu Deus!
PEDESTRE – Oh, se ela não se deixasse matar, hoje tinha três navios, três! Diabos que me tentaram! Estava rico, rico, muito rico... Ah, mulher, o que me fizeste perder!
ROBERTO, com energia – Ah, sois o seu assassino? O assassino de minha filha? Ah, não saireis de minhas mãos!
PEDESTRE, sem dar atenção a Roberto – Mulher que me perdeste na vida e na morte, mulher que me danaste em vida e me arruínas na morte, mulher que me persegues ainda defunta, os diabos te levem!
ROBERTO – Ah, chamarei pela justiça, clamarei vingança!
PEDESTRE, como em confidência – Escutai, escutai... em segredo... que ninguém nos ouça...
ROBERTO – Assassino!
PEDESTRE, no mesmo – Escutai... eu vos darei um dos meus três navios para que lhe dês vida e eu possa assim ficar com os outros dois... Vinde, que ela ali está...
ROBERTO – Ali!
PEDESTRE – Sim, sim, está morta... Mas vós lhe dareis vida por um navio...
vinde... silêncio... Dar-vos-ei um dos navios que ela me fez perder...
ROBERTO, deixando-se conduzir pelo Pedestre – Oh!
PAULINO, à parte, do buraco – Atenção, agora é que são elas... (Logo que o Pedestre e Roberto estão a dois passos da porta, esta abre-se repentinamente e
Anacleta, que por ela saí, abraça-se com Roberto.)
ANACLETA, abraçando Roberto – Meu pai, meu pai!
ROBERTO, surpreendido – Ah!
PEDESTRE, vendo Anacleta, recua espavorido até a extremidade esquerda e vem encontrar-se à porta em cujo buraco está Paulino – Fantasma, fantasma!
ANACLETA, nos braços de Roberto – Sou eu, meu pai, sou sua filha, eis aqui a cruz... (Mostrando a cruz ao pai.)
ROBERTO, abraçando-a – Sim, sim, és minha filha! Filha, querida filha! Meu Deus!
ANACLETA, ao mesmo tempo – Meu pai, meu pai! (Enquanto Roberto abraça a filha e continua em uma cena muda de reconhecimento e expansão, o Pedestre está aterrorizado, encostado à porta, tremendo.)
[PEDESTRE] – É ela, é a sua alma! Deixai-me, deixai-me! (Diz isto ao mesmo tempo que Roberto fala com Anacleta.)
PAULINO, do buraco da porta para o Pedestre – Olá, não tenha medo... Não trema tanto...
PEDESTRE, ouvindo falar sobre a sua cabeça, olha, e vendo a cara de Paulino, diz com grande terror – Oh, também o outro fantasma! (Precipita-se para a porta do fundo, a fim de fugir.)
PAULINO, do buraco – Espere... (Continua a cena muda entre Roberto e Anacleta. Pedestre caminha para o fundo, e quando vai a sair, encontra-se com Alexandre, que trazendo ainda às costas Balbina, dentro [do] saco, vem preso por uma patrulha. A esta inesperada visita, dá um grito e recua para a extremidade direita do proscênio, e aí caindo de joelhos treme espavorido.)
CABO, entrando acompanhado dos soldados e Alexandre – Quem é o dono desta casa?
PAULINO, do buraco – Bravo, estamos todos reunidos!
ROBERTO – Soldados! O que é isto?
CABO – Quem é o dono desta casa?
ANACLETA, para o Cabo, apontando para o Pedestre – Ali está. Mas, sr. oficial...
CABO, indo para o Pedestre – Senhor, levantai-vos. (O Pedestre levanta-se.) Aquele negro foi encontrado na rua com um saco às costas, dentro do qual está um cadáver...
ROBERTO – Um cadáver!
ANACLETA, ao mesmo tempo – Um cadáver!
CABO – Sim, que daqui saiu. E do mesmo modo o trouxe para se proceder ao corpo de delito.
ROBERTO – Um cadáver!
PEDESTRE, levantando-se – Sim, um cadáver... (Apontando para Paulino, que se conserva no buraco da porta:) ... e ali está a sua alma!
PAULINO – Ah, ah, ah!
TODOS – Sua alma!
PEDESTRE – Fui eu que o matei! Abram e verão... Fui eu que o matei, assim como matei esta mulher...
ANACLETA – Eu estou viva, graças a Deus!
PAULINO, do buraco – E eu também...
ALEXANDRE, que a este tempo tem posto o saco em pé no chão e desatado a boca e descoberto a cara de Balbina – E esta também...
CABO – Oh!
ROBERTO, ao mesmo tempo – Oh!
ANACLETA – Balbina!
(continua...)
PENA, Martins. Os ciúmes de um pedestre ou o terrível capitão do mato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2155 . Acesso em: 29 jan. 2026.