Por José de Alencar (1875)
Nascia tal resguardo do nobre estímulo de manter o estado que lhe havia criado a fortuna. Campelo provinha de sangue limpo, mas plebeu; e almejando um pergaminho de nobreza, que enfim alcançara, êle queria merecê-lo por seus dotes e ser primeiro fidalgo na pessoa, do que no brasão.
Assentava bem esse temperamento do gôsto no porte avantajado do capitão-mór e imprimia-lhe ao aspecto muita dignidade.
Sua compleição robusta ostentava-se na plenitude do vigor aos toques dessa moderação inabalável; e a fisionomia cheia, plácida e séria, impunha a quantos lhe falavam um irresistível acatamento.
Enquanto o capitão-mór comprazia-se em contemplar a filha, D. Genoveva referia ao marido o perigo a que havia por milagre escapado a donzela; e no meio da sua narrativa não deixou de insinuar uma doce exprobação à fleuma que o marido conservara quando ela lhe comunicara seus terrores.
— Eu tinha fé em Deus que nos havia de conservar nossa filha, D. Genoveva; respondeu serenamente Campelo.
Já de todo caíra a tarde; e as sombras da noite se desdobravam pelas encostas da serra.
Os viajantes recolheram aos seus aposentos enquanto não chegava a hora do terço de Nossa Senhora, que antes da ceia se devia rezar na capela, em louvor e graça pela chegada dos donos da casa.
A campa tangida vivamente soltava os repiques argentinos, sombreados pela surdina dos longos pios das aves noturnas e dos ulos da brisa nas grotas da serra.
V – Jó
Retirando-se da sala ao despertar da donzela, Arnaldo saíra fora no pátio.
Aí encontrou ao lado de seu cavalo o baio, que o acompanhara; prendeu este amarrando as rédeas a um dos pilares da varanda, e meteu-se pelo arvoredo para não ser visto da gente da casa.
Ao atravessar por detrás da habitação, lançou de passagem, do alto da eminência, um olhar para o terreiro, e percebeu o que lá se estava passando com a chegada de D. Genoveva.
Bem desejava ficar-se aí, nessa posição, assistindo de longe àquela cena e tomando nela a sua parte, ao menos com os olhos e o pensamento. Mas chamava-o além outro cuidado, que mais o dominava naquele instante.
Quem o observasse nesse momento notaria a expressão de ternura com que seu olhar envolvia a pessoa de Justa, como que acariciando-a.
Era sua mãe, a quem abraçava de longe, enquanto o segredo que o trazia arredado da casa lhe não permitia receber sua bênção.
Nessa ocasião sentiu que lhe puxavam pela aba do gibão; sem nenhuma surpresa voltou-se.
Encontrou, como esperava, uma cabra rajada, cujos chifres indicavam ser já bem idosa; levantou-a pelas mãos, e reclinando-se, abraçou-a com efusão. Depois essa carícia afastou o animal e com o gesto impediu que o seguisse.
Deu soga ao cavalo e desceu rápido a encosta rodeando para sair em uma várzea que demorava cerca de meia légua de casa, ao longo de uma das vertentes da serra e cabeceiras do Sitiá.
De um relance d’olhos investigou o descampado. Apeando-se, endireitou a um ponto onde notara vestígios de palhas recentemente queimadas. Era precisamente o que ele buscava; alí tinha começado o fogo que se comunicara ao arvoredo próximo, e depois se propagara pelas matas da fazenda.
Junto às cinzas, havia no chão uns sinais que não eram de pègadas humanas, nem rasto de qualquer animal conhecido. Esteve observando-os o sertanejo por algum tempo, e seguiu-lhes o traço, que alí perto ia perder-se no mato.
Acompanhou Arnaldo por algum tempo aquela pista por entre o arvoredo, a-pesar-do escuro que já aí reinava. Afinal parou descobrindo entre o lastro das folhas secas uma pègada, que não fora de todo apagada.
Reclinou-se então quase de-bruços e esteve a estudar os traços indistintos e quase imperceptíveis daquele vestígio deixado por um pé humano, que aí passara de fresco.
A profunda investigação do antiquário que se obstina em decifrar nas linhas confusas do hieróglifo o sentido ignoto, não exige de-certo mais forte contensão do espírito, nem tão poderosa reminiscência.
Entretanto pouco demorou-se no exame o sertanejo, que ergueu-se com a feição de quem acabava de confirmar-se em uma suspeita:
— Não me enganei!
Deliberou então voltar; mas depois de haver gravado na memória a lembrança do sítio, com essa energia de percepção que o hábito da observação dá ao olhar do homem educado nas brenhas para a luta incessante do deserto.
Tornando ao mesmo lugar, o sertanejo contornou a mancha negra que deixara a labareda no chão e que fôra como a cabeceira da ígnea torrente, cujo sulco rompia a selva.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.