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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

— Olha, respondeu Isabel; ali está a tua rola esperando que a chames, e o teu veadinho que te olha com os seus olhos doces; só falta o outro animal selvagem. 

— Peri! exclamou Cecília rindo-se da idéia de sua prima. 

— Ele mesmo! Só tens dois cativos para fazeres as tuas travessuras; e como não vês o mais feio, e o mais desengraçado, estás aborrecida. 

— Mas agora me lembro, disse Cecília tu já o viste hoje? 

— Não; nem sei o que é feito dele. 

— Saiu antes de ontem à tarde; não vá ter-lhe sucedido alguma desgraça! disse a moça estremecendo. 

— Que desgraça queres tu que lhe possa suceder? Não anda ele todo dia batendo o mato, e correndo como uma fera bravia? 

— Sim; mas nunca lhe sucedeu ficar tanto tempo fora, sem voltar à casa. 

— O mais que pode acontecer, é terem-lhe apertado as saudades da sua vida antiga e livre. 

— Não! exclamou a moça com vivacidade; não é possível que nos abandonasse assim! 

— Mas então que pensas que andará fazendo por esse sertão? 

— E verdade!... disse a moça preocupada. 

Cecília ficou um momento com a cabeça baixa, quase triste; nesta posição, a vista caiu sobre o veado, que fitava nela a sua pupila negra com toda a languidez e suavidade, que a natureza pusera em seus olhos. 

A moça estendeu a mão e deu com a ponta dos dedos um estalinho, que fez o lindo animal saltar de alegria e vir pousar a cabeça no seu regaço. 

— Tu não abandonarás tua senhora, não é? disse ela passando a mão sobre o seu pêlo acetinado. 

— Não faças caso, Cecília, replicou Isabel reparando na melancolia da moca; pedirás a meu tio para caçar-te outro que farás domesticar, e ficará mais manso do que o teu Peri. 

— Prima, disse a moça com um ligeiro tom de repreensão, tratas muito injustamente esse pobre índio que não te fez mal algum. 

— Ora, Cecília, como queres que se trate um selvagem que tem a pele escura e o sangue vermelho? Tua mãe não diz que um índio é um animal como um cavalo ou um cão? 

Estas últimas palavras foram ditas com uma ironia amarga, que a filha de Antônio de Mariz compreendeu perfeitamente. 

— Isabel!... exclamou ela ressentida. 

— Sei que tu não pensas assim, Cecília; e que o teu bom coração não olha a cor do rosto para conhecer a alma. Mas os outros?... Cuidas que não percebo o desdém com que me tratam?

— Já te disse por vezes que é uma desconfiança tua; todos te querem, e te respeitam como devem. 

Isabel abanou tristemente a cabeça. 

— Vai-te bem o consolar-me; mas tu mesma tens visto se eu tenho razão. 

— Ora, um momento de zanga de minha mãe... 

— E um momento bem longo, Cecília! respondeu a moça com um sorriso amargo. 

— Mas escuta, disse Cecília passando o braço pela cintura de sua prima e chamando-a a si, tu bem sabes que minha mãe é uma senhora muito severa mesmo para comigo. 

— Não te canses, prima; isto só serve para provar-me ainda mais o que já te confessei: nesta casa só tu me amas, os mais me desprezam. 

— Pois bem, replicou Cecília, eu te amarei por todos; não te pedi já que me tratasses como irmã? 

— Sim! e isto me causou um prazer, que tu não imaginas. Se eu fosse tua irmã!...

— E por que não hás de sê-lo? Quero que o sejas! 

— Para ti, que para ele...  

Este ele foi murmurado dentro dalma. 

— Mas olha que exijo uma coisa. 

— O que é? perguntou Isabel. 

— É que eu serei a irmã mais velha. 

— Apesar de seres mais moça?... 

— Não importa! Como irmão mais velha, tu me deves obedecer? 

— Decerto, respondeu a prima sem poder deixar de sorrir. 

— Pois bem! exclamou Cecília beijando-a na face, não te quero ver triste, ouviste? Senão fico zangada. 

— E tu não estavas triste há pouco? 

— Oh! já passou! disse a moça saltando ligeiramente da rede. 

Com efeito, aquela doce languidez com que se embalançava há pouco, cismando em mil coisas, tinha desaparecido completamente: seu gênio de menina alegre e feiticeira havia cedido um momento ao enlevo, mas voltava de novo. 

Era agora como sempre uma moça risonha e faceira, respirando toda a graciosa gentileza, misturada de inocência e estouvamento, que dão o ar livre e a vida passada no campo. Erguendo-se, apinhou em botão de rosa os lábios vermelhos e imitou com uma graça encantadora os arrulhos doces da juriti; imediatamente a rola saltou dos galhos da acácia, e veio aninhar-se no seu seio, estremencendo de prazer ao contato da mãozinha que alisava a sua penugem macia. 

(continua...)

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