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#Romances#Literatura Brasileira

Garatuja

Por José de Alencar (1873)

— O caipora! bradou ela, e disparou pelo caminho fora. 

O Sebastião Freire, sarapatando e um tanto bambo das pernas, com os olhos gázeos a saltarem desta àquela banda do caminho, lá se foi de recuo, aos trancos, receoso de que lhe surgisse do mato algum mau companheiro, caipora ou bicho, com que se visse abarbado. 

A única pessoa da família em quem os guinchos não produziram grande susto foi em Marta. Apesar de seu modo bisonho e tímido, bispara ao passar o vulto do Ivo de espreita por trás da árvore; e atinou logo com a travessura, pela simples razão de que no lugar do rapaz, ela faria o mesmo. 

Quando pois o Garatuja arremedou o conhecido regougo do macaco, conheceu logo a pequena donde vinha a artimanha, e em vez de susto, o que teve foi vontade de rir; mas tolheu-a o respeito aos pais, e também o acanhamento de mostrar-se ao rapaz em correspondência de travessura com ele.  

Até as abas da cidade, cujo povoado começava na Rua da Ajuda, foram o tabelião e a sua metade em constante sobressalto por causa do maldito macaco, que os perseguia saltando de pau em pau. 

— Arrenegado bugio, gritava o Sebastião; vou deste passo encomendar-te ao almotacé, para te filar e torcer-te o gasnete. 

— E o senhor a teimar com o macaco! Quando lhe digo que é o caipora, legítimo de Braga! 

Se inda agorinha lhe bispei os chifres. Não vistes, Marta? 

— Creio que vi!... Agora me lembro, vi mui bem! 

— Não vistes nada!... berrou o tabelião perdendo a tramontana. É forte embirrância! Declaro eu, Sebastião Ferreira Freire, tabelião do público judicial e notas desta leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro por El-Rei, nosso senhor. 

Aqui o nosso homem desbarretou-se com as maiores mostras de reverência. 

Novo desbarretamento. 

— ... por muitos e dilatados anos, como todos havemos mister a bem do reino e da religião católica apostólica romana, única verdadeira... Tomou respiração e continuou: 

— Declaro que é macaco, do que dou testemunho e porto por fé, e em prova da verdade firmo com meu público sinal... 

Estacou de repente o Sebastião, e caindo em si, viu que não estava no cartório a ler o fecho de uma escritura, mas em caminho para a casa. Encapelou o feltro paulistano na cabeça, e deitou-se a pernadas pela Rua da Ajuda. 

Ao entrar em casa, Marta disfarçadamente volveu o rosto e viu de esguelha no canto, o Ivo, que a espreitava. 

 

VIII 

 

SUMIÇO QUE LEVOU UM CUPIDO ARMADO EM GUERRA, 

E ESTAMPADO EM PERGAMINHO 

 

Daquele encontro em diante, tornou-se o Ivo menos assíduo na tenda do pintor. 

Levava os dias agora a calcurriar a Rua do Aleixo, já atirando pedras aos passarinhos, já perseguindo os gafanhotos na relva, ou as rãs nas touças de bananeiras. Tudo lhe servia de pretexto para volver atrás, passar e repassar por diante das gelosias; e fincar-se horas e horas, como um mastro de Natal, em frente à porta do tabelião. 

Tornava a casa muito contente de si, quando lograva entrever pela rótula uma sombra que podia ser do talhe de abelha da menina Marta, como do cocó da Sr.ª Miquelina, ou mesmo do gato da casa. O que quer que fosse lhe dava uns repiques no coração; e aos olhos subia uma névoa rubra, que lhe escurecia a vista; mas nesse crepúsculo aparecia-lhe o rostinho de prata que ele vira com sua redoma de cabelos castanhos. 

Ao cabo de alguns dias gastos nessa vadiagem, sentiu Ivo o impulso irresistível de comunicar o querido objeto de seus pensamentos e inundá-lo com as abundâncias de seu coração. 

Ivo era mecânico, para falar a linguagem coeva, pois que artista naquele tempo servia para indicar os gramáticos e retóricos, ou os matreiros férteis em manhas; e nada disso tinha o nosso estudante, cujo pecado não passava de uma ponta de sarcasmo, ao demais original, pois lho dera a natureza, e não o podia negar. 

Mecânico e artífice, não por mister e necessidade de ganhar a vida, senão por veia, tinha n’alma as primaveras floridas, que os poetas chamam lirismos. 

O céu de uns olhos límpidos havia luzido naquela existência; e os raios que lhe infiltrava no seio, estavam abrolhando em flores e boninas, que por força haviam de romper-lhe do coração.  

O que havia ele de dizer a Marta e o como havia de falar-lhe, não o sabia. Poetas são como as brisas, que pelo espaço vão caladas e tristes, mas encontrando as franças das roseiras, logo desatam em suaves arpejos. 

Começou o rapaz a cismar e andou um par de dias zonzo até que tomou-se de uma rebentinha, que parecia corrupio o estouvado, a girar de uma banda para outra. 

(continua...)

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