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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

Eis aqui o caixilho lutuoso em que enquadrava a agonia de Hermenegildo. Por pouco não descambava em orgia o tribunal de homens congregados para julgar a desonra de Ângela e salvar a dignidade do marido. Falavam todos a um tempo, alvitrando planos tendentes a evitar que a esposa infiel tivesse parte nos haveres do brasileiro. Para poder entrar nesta seção importante com energia, Fialho sopeteou duas bolachas americanas num cálix do de 1805, e pôs a mão instintivamente no bucho aquecido, e capaz de competir em calor com o coração vizinho. Os amigos, fazendo-o beber segundo cálix, aplaudiam o seu triunfo, e juravam que, ao terceiro, a honra do seu amigo ficaria lavada como as goelas.

Após longos debates, em que todos falavam à mistura, convieram em que Fialho, como comerciante que era, se obrigasse por escritura a dividas excedentes ao valor dos seus bens imóveis, e desde logo alienasse os títulos bancários, e se cozesse com o dinheiro. A soberana razão que pôs os cinco alvitristas neste acordo, deve-se a Atanásio, o qual raciocinara desta laia:

― Amigo e compadre Fialho, não há que duvidar: sua mulher tem um homem a quem deu do dinheiro. Este homem há de aconselhá-la a separar-se de você para se dividirem os bens, percebe você? Se você os tiver, que remédio há senão reparti-los? O maior logro e castigo que você pode pregar a ela e mais ao patife é não ter nada que repartir. Hem?

A resposta geral foi um brado uníssono. E logo, no afogo do entusiasmo, sacrificaram a Quarta garrafa e uma bandeja de pastéis de Santa Clara.

― Mas se ela não quiser sair de casa? – perguntou Barrosas, acalmado o barulho.

― Você já não tem casa. A sua casa está vendida. Um de nós, quando o compadre quiser, vai tomar posse, e sua mulher recebe intimação judicial para despejo, percebe você? – respondeu enfaticamente Atanásio.

― Diz você bem, compadre – obtemperou Fialho – que eu tenho procuração dela em branco. Faz-se escritura da venda da casa. E nesse caso é preciso avisá-la que se mude quanto antes. Vamos ver se ela sai ao bem.

― Duvido; - atalhou Joaquim Antônio Bernardo – aquilo é mulher finória e soberba. Sem ser por justiça, não a põe o amigo fora de casa.

Continuaram debatendo questões jurídicas ao propósito, em que as sandices se disputavam primazia, até que, chegada a hora de jantar, Hermenegildo foi hospedar-se em casa do compadre, reservando para a reunião do dia seguinte o plano definitivo.

VII REVELAÇÕES CÔMICAS

Às onze da noite daquele dia, Hermenegildo Fialho rebolava-se no enxergão de penas, e gemia uns gemidos que soavam como regougo de raposa. A comadre foi escutá-lo à porta, e veio dizer ao marido que o compadre estava a gemer de saudades da indigna mulher. Ajeitou-se à esposa escandalizada boa ocasião de cortar nas mulheres desleais; o marido, porém, que tinha, às vezes, conscienciosas brutalidades, tapou-lhe os respiradoiros da ira, murmurando:

― Cala-te, cala-te; e não me cantes tretas a mim...

A esposa encolheu-se; odiou mais do intimo o marido, e gozou o néctar dos deuses, o prazer da vingança antecipada, e a prelibação da vingança por vir. Ah! Atanásios, Atanásios!...

Ergueu-se o verdugo de caixeiros desonestos (Veja o cap. III) e foi ao quarto do hóspede.

― Que tem, compadre? – perguntou ele. – Não pode dormir? Estranha a cama, ou que é?

― É uma dor de barriga – respondeu o triste, apanhando nas mãos a parte dorida, e acocorando-se. – Fez-me mal o empadão das ostras. Dá-me você um bocado de Holanda, a ver se esmoo este diabo de marisco?

Fialho sugou na botija, e daí a pouco tinha esmoído o empadão, e rebentava-lhe tanta saúde pela cara fora que parecia desafiar todas as ostras do Sr. Bocage e perturbar-lhe o sono.

Mas o compadre, sentando-se-lhe na cama, perguntou:

― Quer você cavaco? Ainda agora deram as onze.

― Vá lá; vamos conversar, que eu estou espertinado.

― Você nunca desconfiou de sua mulher?

― Eu nunca.

― Não ia lá por casa ninguém...

― Nem alma viva, a não ser a costureira. Visitas foi coisa que nunca me entraram das portas p’ra dentro, afora você e mais a sua patroa.

― Mas no teatro...

― Teatro! tó carocha! Foi lugar onde nunca a levei...

― E na missa?

― Missa!... não era moda lá em minha casa... Você bem sabe que a gente lá no Brasil perde o pêlo. Logo que casei, disse-lhe que isto de missa era uma história. Ela ao princípio ficou estarrecida; mas foi-se afazendo. Compreilhe um oratório e dei-lho para que rezasse em casa, se quisesse. E o caso é que ela e mais a criada, aos domingos, fechavam-se no quarto duas horas a rezar ladainhas. Ora fiem-se lá nas mulheres rezadeiras!... Olhe você, compadre, se a religião não é uma patranha!

― Patranha! E que grande patranha!

― A sua mulher reza?

― Nem se sabe benzer, acho eu.

― Faz ela muito bem; mas vai à missa dos Congregados ao meio-dia, que eu já a tenho visto entrar na igreja.

(continua...)

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