Por Euclides da Cunha (1909)
A altura em que se vê não lhe basta a desapertar os horizontes, ou a atalaiar as distâncias. É inapreciável. Não há abrangê-la com a escala mais favorável dos mapas. E sem dúvida jamais compreenderia tão indeciso divortium aquarum a tão opulentas artérias, se ao buscar aqueles rincões, varando, ao arrepio das itaipavas, por dentro das calhas reprofundadas do Cujar, do Cavaljane e do Pucani, o observador se não habituasse a contemplar, longos dias, os mais enérgicos efeitos da dinâmica poderosa das águas que transmudaram a paragem outrora mais em relevo e dominante. Não lhe importa a inópia de conhecimentos paleontológicos ou a carência de fósseis norteadores. Está, evidentemente, sobre a ruinaria de uma sublevação quase extinta, cujo sinclinal ele pôde reconstruir, prolongando as linhas dos estratos que afloram nos sulcos onde se encaixam aqueles últimos tributários, denunciando todos na tranqüilidade relativa, quase remansados nos intervalos de suas corredeiras (restos de velhíssimas catadupas destruídas), a derradeira fase de uma luta em que o Purus, para alongar a sua seção de estabilidade, teve que derruir montanhas. Pelo menos a atividade erosiva e o volume de materiais arrebatados de todos aqueles pendores, foram incalculáveis, para que as linhas de drenagem se abatessem até aos substrato rochoso e declinasse, como vimos, aos graus apropriados aos cursos navegáveis.
Apesar disto, a transição para o trecho seguinte ainda é repentina. Passa-se da declividade quilométrica de 4,60m, para a de 0,22m.
Mas é o único salto. Daí por diante, como o revela o quadro anterior, até ao último segmento extremado pela foz, onde para descer-se um metro se tem de caminhar 66,700, a atenuação dos declives prossegue com uma regularidade perfeita, incluindo o Purus entre as caudais de todo regularizadas, cujo "ciclo vital" progressivo vai cerrando-se.
Não aprofunda mais o leito. Os próprios afloramentos de grés (Parasandstein) aparecendo nas vazantes, dispersos entre Huitanaã e a embocadura do Acre, e dali para cima ainda mais raros até pouco além do Iaco, reforçam a afirmativa, bem que na aparência a invalidem. Restos de antigas corredeiras desmanteladas surgem como testemunhos das erosões primitivas e não provocam, em geral, o mínimo desnivelamento. O pequeno povoado da Cachoeira, que se erige defrontando um trecho tranqüilo do rio, tem o mais impróprio dos nomes, expressivo apenas no recordar um acidente perdido em remoto passado geológico e do qual perduram apenas alguns blocos desordenadamente acumulados em minúsculos recifes, e breves "travessões". Ali, como nos outros trechos, o mesmo quadro da terra estirando-se, complanada, pelos quadrantes, ou docemente ondulada denunciando a mais completa molduragem, associa-se aos demais caracteres no sugerir a derradeira fase do processo evolutivo do vale.
Um elemento apenas falta: a regularidade na sucessão das curvas de nível das vertentes imediatas às margens, que se fronteiam. Qualquer seção transversal do Purus representa as mais das vezes uma praia deprimida que mal se alteia vagarosamente até ao rebordo longínquo da planície pouco elevada, contraposta a uma barranca despenhada, como a da margem oposta à boca do Chandless, ou caindo às vezes a prumo, feito uma muralha, como na situação admirável do Catai.
É que à imutabilidade daquele perfil de equilíbrio se antepões a variabilidade da sua planta, em escala capaz de justificar os que o incluem entre os rios "cujos leitos e margens não estão sequer delineados em seus perfis de estrutura definida a assente".
Realmente, o Purus, um dos mais tortuosos cursos d’água que se registram, é também dos que mais variam de leito. Divaga, consoante o dizer dos modernos geógrafos. A própria velocidade diminuta, que adquiriu e vai decrescendo sempre até ao quase rebalsamento, nas cercanias da foz, aliada à inconsistência dos terrenos aluvianos, formados por ele mesmo com os materiais conduzidos das nascentes, determina-lhe este caráter volúvel. Às suas águas, derivando em correntezas fracas, falta a quantidade de movimento necessária às direções intorcíveis. O mínimo obstáculo desloca-as. Um tronco de samaúma que tombe de uma das margens, abarreirando-se ligeiramente, desvia o empuxo da massa líqüida contra a outra, onde de pronto se exercita, menos em virtude da força viva da corrente que da incoerência das terras, intensíssima erosão de efeitos precipitados.
(continua...)
CUNHA, Euclides da. À Margem da História. 1909. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16624. Acesso em: 17 jun. 2026.