Por Lima Barreto (1915)
- Muito, minha filha. Imagina que medito grandes obras, uma reforma, a emancipação de um povo. Vicente fora com Dona Adelaide para o interior da casa e os dous conversavam a sós na sala dos livros. A afilhada notou que Quaresma tinha alguma cousa de mais. Falava agora com tanta segurança, ele que antigamente era tão modesto, hesitante mesmo no falar - que diabo! Não, não era possível... Mas, quem sabe? E que singular alegria havia nos seus olhos - uma alegria de matemático que resolveu um problema, de inventor feliz!
- Não se vá meter em alguma conspiração, disse a moça gracejando.
- Não te assustes por isso. A cousa vai naturalmente, não é preciso violências...
Nisto Ricardo Coração dos Outros entrou com o seu longo e rabudo fraque de sarja e o seu violão encapotado em camurça. O major fez as apresentações.
- Já o conhecia de nome, Senhor Ricardo, disse Olga.
Coração dos Outros encheu-se de um alvissareiro contentamento. A sua fisionomia minguada dilatou-se ao brilho do seu olhar satisfeito; e a sua cútis, que era ressecada e de tom de velho mármore, como que ficou macia e jovem. Aquela moça parecia rica, era fina e bonita, conhecia-o - que satisfação! Ele que era sempre um tanto parvo e atrapalhado, quando se encontrava diante das moças, fossem de que condição fossem, animava-se, soltava a língua, amaciava a voz e ficava numeroso e eloqüente.
- Leu então os meus versos, não é, minha senhora?
- Não tive esse prazer, mas li, há meses, uma apreciação sobre um trabalho seu. - No Tempo, não foi?
- Foi.
- Muito injusta! acrescentou Ricardo. Todos os críticos se atêm a essa questão de metrificação.
Dizem que os meus versos não são versos... São, sim; mas são versos para violão. Vossa
Excelência sabe que os versos para música têm alguma cousa de diferente dos comuns, não é? Não há, portanto, nada a admirar que os meus versos, feitos para violão, sigam outra métrica e outro sistema, não acha?
- Decerto, disse a moça. Mas parece-me que o Senhor faz versos para a música e não música para os versos.
E ela sorriu devagar, enigmaticamente, deixando parado o seu olhar luminoso, enquanto Ricardo, desconfiado, lhe sondava a intenção com os olhinhos vivos e miúdos de camundongo.
Quaresma, que até ali se conservava calado, interveio:
- O Ricardo, Olga, é um artista... Tenta e trabalha para levantar o violão.
- Eu sei, padrinho. Eu sei...
- Entre nós, minha senhora, falou Coração dos Outros, não se levam a sério essas tentativas nacionais, mas, na Europa, todos respeitam e auxiliam... Como é que se chama, major, aquele poeta que escreveu em francês popular?
- Mistral, acudiu Quaresma, mas não é francês popular; é o provençal, uma verdadeira língua. - Sim, é isso, confirmou Ricardo. Pois o Mistral não é considerado, respeitado? Eu, no tocante ao violão, estou fazendo o mesmo.
Olhou triunfante para um e outro circunstante; e Olga dirigindo-se a ele disse:
- Continue na tentativa, Senhor Ricardo, que é digno de louvor.
- Obrigado. Fique certa, minha senhora, que o violão é um belo instrumento e tem grandes dificuldades. Por exemplo...
- Qual! interrompeu Quaresma abruptamente. Há outros mais difíceis.
- O piano? perguntou Ricardo.
- Que piano! O maracá, a inúbia.
- Não conheço.
- Não conheces? É boa! Os instrumentos mais nacionais possíveis, os únicos que o são verdadeiramente; instrumentos dos nossos antepassados, daquela gente valente que se bateu e ainda se bate pela posse desta linda terra. Os caboclos!
- Instrumento de caboclo, ora! disse Ricardo.
- De caboclo! Que é que tem? O Léry diz que são muito sonoros e agradáveis de ouvir... Se é por ser de caboclo, o violão também não vale nada - é um instrumento de capadócio.
- De capadócio, major! Não diga isso...
E os dous ainda discutiram acaloradamente diante da moça, surpresa, espantada, sem atinar, sem explicação para aquela inopinada transformação de gênio do seu padrinho, até ali tão sossegado e tão calmo.
III
A Notícia do Genelício
- Então quando se casa, Dona Ismênia?
- Em Março. Cavalcanti já está formado e...
Afinal a filha do general pôde responder com segurança à pergunta que se lhe vinha fazendo há quase cinco anos. O noivo finalmente encontrara o fim do curso de dentista e marcara o casamento para daí a três meses. A alegria foi grande na família; e, como em tal caso, uma alegria não podia passar sem baile, uma festa foi anunciada para o sábado que se seguia ao pedido da pragmática. As irmãs da noiva, Quinota, Zizi, Lalá e Vivi, estavam mais contentes que a irmã nubente. Parecia que ela lhes ia deixar o caminho desembaraçado, e fora a irmã quem até ali tinha impedido que se casassem.
(continua...)
BARRETO, Lima. O triste fim de Policarpo Quaresma. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2028 . Acesso em: 8 maio 2026.