Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Ensaios#Literatura Brasileira

O subterrâneo do Morro do Castelo

Por Lima Barreto (1905)

Quem da rua contemplasse essa casa, nada encontraria de anormal. Tinha dois pavimentos. No superior se abriam três janelas com sacadas de grade de pau, em xadrez; e estava ocupado pelos donos. O térreo possuía duas largas portas e abrigava alguns escravos com a preciosa cadeirinha, que levava os senhores pelas martirizantes ruas da incipiente cidade.

Tal era a casa de Martim Gonçalves Albernaz, almoxarife do paiol da alfândega da cidade de S. Sebastião.

O seu serviço era luxuoso. Havia baixela de prata e porcelana da Índia; e os portadores de sua liteira tinha libré própria.

As más línguas diziam que nelas se cortava Fazenda Real... mas outros pretendiam que a senhora possuía bens e abundantes cabedais na terra do seu nascimento...

Logo que se sentou, à margem do bufete de jacarandá, na cadeira de alto espaldar e assento de couro lavrado e repregado com pregaria de cobre, o jesuíta disse:

— Dá-me de beber, Alda. Já faz frio.

D. Alda levantou-se e tirou do armário um pichel com vinho branco e dois copos.

De pé, ela era como um frágil caniço. Delgada, esguia, nem a elevação dos seios lhe quebrava a unidade da linha. Por todo o seu corpo, não havia interrupções ou soldagens de partes: era feira de um só traço. Vestia de branco; e as cânulas do cabeção em leque, erguido atrás da nuca, eram como pétalas de uma dália extravagante, sua cabeça de traços regulares figurava como um disforme pistilo imprevisto.

Movia-se lentamente, levemente, como uma cegonha nos banhados.

Quer na rua, quer em casa, vestia-se com rigor.

Era sempre branco o corpete e, aberto triangularmente no colo, permitia entrever a opala de sua pele. O resto do corpo ficava-lhe envolvido no abundante panejamento do vestuário da época.

Os cabelos negros, longe de trazê-los à moda do tempo, repartia-os ao meio da testa, e empastando-os à esquerda e à direita, deixava-os cair sobre as orelhas, unindo-os nas costas em novelo...

Correio da Manhã - quarta-feira, 10 de maio de 1905

OS SUBTERRÂNEOS DO RIO DE JANEIRO

O Tesouro dos Jesuítas

D. Garça

I

(Continuação)

O padre seguiu-a com os olhos. E logo que ela voltou, encheu os dois copos, provou o seu, dizendo:

— Esse miserável já veio?

— Não, respondeu Alda.

— Tem dado um imenso trabalho, esse tal teu marido...

Alda sorriu e baixou um tanto a cabela enigmaticamente.

— Como? indagou complacente.

— Há dias, o governador queixou-se dele ao reitor. Não guarda as conveniências; freqüentemente se embriaga; anda amancebado com negras. Disse o mesmo governador que a dignidade do serviço de S.M. não pode tolerar tais desmandos. Hoje, para a tarefa extraordinária da chegada da frota, foi preciso ir buscá-lo a um batuque, lá para as bandas do Valongo. Até agora têmo-lo salvo, mas não sei...

O padre calou-se, e depois de alguns instantes, perguntou, despedindo um olhar diabólico:

— E se tu enviuvasses?

— Oh! Não, Jean. Não! deixa-o viver...

— Não sei se sempre poderei fazer isso. Ele tem segredos que talvez não os guarde sempre. Amanhã, despedido do serviço real, errará na miséria, e o desespero...

Ajudá-lo não nos será possível... Todos saberão que auxiliamos um incontinente ímpio... Até aqui temos dito que é ímpio nos atos, mas nos sentimentos não. E eu não sei, Alda, até quando a nossa casuística lhe valerá.

— Deixa-o viver, Jean, deixa-o. É desgraçado, merece piedade.

— Quem sabe que não o amas? perguntou gracejando o clérigo.

— Eu! oh! fez com um muxoxo a moça.

O que sinto por ele, continuou, é dó, pena, unicamente; pena de o ver perseguido pelo mau fado. Sabes que ele começou alto. Dava grandes esperanças em Coimbra; mas, de uma hora para outra, transformou-se; e, esquecido dos livros, foi viver indignamente pelas sarjetas de Lisboa, até que...

— Eu sei, Alda, sei; mas a população murmura, e não tarda que os seus murmúrios cheguem aos ouvidos da Corte.

Os dois misturaram o francês e o italiano, e uma frase portuguesa que repontava, sonorizava mais o diálogo.

— Sabes que temos novas do Reino? perguntou o padre.

— Boas? inquiriu a moça.

— Boas e más.

— Quais são?

— El-Rei foi aclamado.

— É velho. E da guerra?

— Que guerra? espantou-se o religioso.

— A da coroa da Espanha, ora!

— Em que te interessa ela?

— Muito.

— Pretendes?

— Não pretendo, mas...

— Ouve, Alda. Tu me inquietas; enches-me de zelos.. Ah! Se algum dia... fez com raiva o clérigo, levantando-se da cadeira.

— Mas o que é, Jean? perguntou com meiguice a moça. Que é?

— Olha...

— Mas que olhar, Jean. Que coisa! Tu nem pareces o mesmo. Metes-me medo. Que é que tens?

— Eu te explico com vagar, disse o padre sentando-se. Olha, na frota que chegou hoje veio para nós um aviso. Sire, Luís XIV, vai proteger uma expedição que se arma contra esta cidade. Será forte e trará grande cópia de homens para o desembarque.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...910111213...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →