Por Coelho Neto (1898)
Como o centurião tirasse pelo baraço fazendo caminhar o condemnado, a misera lançou-se allucinadamente por entre os homens, passou por elles sem notar nos soldados que cruzavam as lanças para contê-la, deixando no ferro de uma farrapos da túnica. E entrou no cerco doloroso.
Chegou a Jesus e, inclinando-se, tomou-lhe o rosto nas mãos, poz-se a beijá-lo com ânsia, lavando-o em lagrimas. E chamava-o em voz surda e meiga :
— Ó Filho meu! Meu Filho !
Mas a turba rosnava, vozes protestaram:
— Afastai-a d'ahi! Faz-se tarde. Cumpra-se a ordem de Pilatos. Morra o sedicioso !
E o centurião poz-se a caminho, levando a victima quasi de rastos.
As buzinas troavam tirando echos melancólicos dos valles e o som ia tão longe que se via, nos resequidos barrancos, por entre as rochas áridas, fugirem corpos brancos, corno pedras que rolassem, que eram ovelhas que o susto dispersava.
O caminho pedrento, recavado em sulcos, queimava como rescaldo.
Junto a uma velha, desmantelada cisterna repousavam recoveiros, com as lanças altas fincadas na terra secca e os jumentos presos a toros de figueiras mortas e, mais apartado, num inatto de tojo, negro e pútrido, um leproso acocorava-se arrepanhando os andrajos, não por vexame da sua quasi nudez, mas para occultar as chagas que lhe apodreciam o corpo.
Satisfeitos do que haviam visto, muitos curiosos regressavam lentamente conversando sobre o supplicio ou sobre a festa da Paschoa ; voltavam-se, por vezes, acenando para o Golgotha escalvado, onde o sol ardia em fogo vivo reluzindo nas pedras, avermelhando os cardos.
Os legionarios abochornados seguiam a passo, alguns levando os capacetes espetados nas lanças. A marcha remorava á medida que o caminho tortuoso ia alcançando o monte.
Um dos ladrões parou, pediu agua. A sua voz era rouca e áspera. Riram-lhe em rosto. O condemnado irritou-se e respondeu com uma affronta, ameaçando ferozmente o grupo de onde partira a gargalhada. Foi. então, uma rinchavelhada de troça, vaiaram-no, atiraramlhe pedras e estéreo.
Maria não parava, caminhando ás tontas, com uma ansia que lhe tomava todo o ar, suffocando-a em soffrimento. Ia para o centurião de mãos postas, pedia-lhe : falava aos legionarios, voltava-se angustiosamente para a turba e, como reconhecesse algumas das mulheres, chamava-as pelos nomes.
Retrocedia a correr, pisando na fimbria dos vestidos rotos, ás topadas nas pedras que resaltavam e tomava; a mãos ambas, a cauda da cruz esforçando-se para que todo o peso do madeiro lhe coubesse; mas os soldados repelliam-na brutalmente, ameaçando-a.
— Vós não sabeis, de certo, que elle é meu Filho ... Meu Filho ! Deixai que o ajude a levar a cruz, tenho força para carregá-la e ainda que os braços m'a negassem, pedi-la-ia ao coração,
O seu peso é mais suave do que a minha agonia e eu caminho, bem vedes. Não é possível que vossos olhos não vejam o meu soffrimento. Eu devo estar transfigurada.
Que fez elle ? Porque assim o maltratam ? Porque o levam á morte ? Quando me foram dizer que o haviam condemnado eu, que ardia em febre; eu que, ha mais de quinze dias, não me podia arrastar até á porta da minha casa, senti-me outra e tive forças para correr a vós o para clamar tão alto que os proprios abutres que passam nas nuvens ouviram os meus gritos e apressaram o vôo. Aqui estou, sou mãi, sua mãi. Elle é meu Filho. Trouxe-o pequenino ao collo, deixai que agora o ajude a carregar o seu patibulo. Elle é tão fraco, tão doente... Se soubesseis!... Foi sempre assim fraco. Por César! Por vossa mãi! Por vossos filhos!
Ajoelhou-se de mãos postas, pedindo com os olhos amarados, mas o povo não se commoveu com as suas palavras, com as suas lagrimas e te-la-ia pisado se um homem mais caridoso não a houvesse levantado fazendo-a sahir.
— Corações frios! Ainda que elle fosse um assassino, vós devieis ter pena. Que fez elle ?
Jesus não levantava os olhos, receioso de encontrar os de Maria, e caminhava extenuado, esforçando-se; sentia-se-lhe o desejo de apressar a marcha para acabar aquella agonia, chegar á morte mas depressa.
A cruz, de rasto, a deixando pela terra um sulco sinuoso e o povo para abreviar o espectaculo, empurrava-a a rir, ajudando o Martyr.
Mas as forças abandonaram-no. Parou, ergueu os olhos ao céu ; os braços cahiram-mo flaccidos ao longo do corpo e, oscíllando, tombou de joelhos sobre as pedras agudas, sem um gemido, e ficou immovel, com o rosto na terra, a coroa de junco a arranhar-lhe a fronte.
Foi nesse momento que o centurião, impaciente, vendo na turba um homem robusto, conhecido pelo nome do Simão de Cyrene, chamou-o intimando-o a levantar a cruz e auxiliar o condemnado. O homem adiantouse e, com facilidade, executou a ordem. Ergueu-se Jesus e, como o centurião tirasse pela corda com violência, Maria, que se debatia na multidão, desmaiou e deixaram-na sobre hervas, como morta.
Mulheres cercaram-na e lenta, silenciosa, começou a subida do Golgotha por sobre ossos brancos dispersos e cardos que repontavam por entre as pedras.
V
A morte de Jesus
(continua...)
COELHO NETO, Henrique. As Sete Dores de Nossa Senhora. Rio de Janeiro: E. Bevilacqua & Cia., 1907. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43241 . Acesso em: 30 abr. 2026.