Por Lima Barreto (1911)
O genro, graças à previdência do velho negociante, não pudera desbaratar os haveres da mulher; ele mesmo não precisava disto. Médico, novamente formado, só necessitava de representação para ganhar fortuna na clínica; não teve tempo porém de o fazer, porque, antes de cinco anos de casado, proclamara-se a República e a política ofereceu-lhe campo mais vasto e menos trabalhoso para a vida abundante,
Lembrou-se de que era republicano, e seu tio, o Coronel Fortuna, amigo íntimo de Deodoro, tomou conta do seu Estado natal e ele foi feito deputado, enquanto os seus primos, concunhados, sobrinhos, aderentes e afins ocuparam outros cargos no Estado, implantaram nele o domínio dos Cogominhos de que ele se fez chefe por morte do venerando Fortuna.
A mulher não lhe viu a ascensão na política; morrera pouco depois de proclamada a República, deixando-lhe uma filha de dois ou três anos que foi criada por uma velha tia do pai.
Cogominho não abandonou o casarão de Botafogo e só o deixou de habitar continuamente quando casou a filha. Assim mesmo tinha nela aposentos, mas dera para ficar em Petrópolis, onde antigamente costumava passar só três ou quatro meses.
Seu genro, em começo, custou muito se habituar à velha casa. Achava-se deslocado, julgava-a grande em demasia; era como se tivesse vestido a roupa de um gigante. Aquelas amplas salas, grandes quartos e longos corredores, quase sem habitantes, só com móveis, as mais das vezes fechados, pareciam-lhe povoados de duendes. Habituado às pequenas casas, órfãs de trastes e outros adereços, Numa esforçava-se por entrar na significação e necessidades daqueles consolos, reposteiros e divãs. Achava os sofás estufados baixos demais e as cadeiras frágeis; o que o aborrecia muito era a falta de escarradeiras.
O cunhado estava na Europa e grande parte da casa vivia fechada, só vindo a conhecer algumas dependências quando a velha tia de Cogominho, D. Romana, voltou de Sepotuba. A velha fazia abrir, varrer e espanar tudo aquilo diariamente e movia-se dentro do casarão com a liberdade de quem conheceu daqueles como centro de léguas quadradas de uma fazenda.
Era de supor que Numa esperasse por tudo isso, mas não pedia tanto a sua ambição de posição e dinheiro. Nela, não havia necessidade interna de grandeza, de luxo, de comodidade, de magnificência; havia tão somente preguiça, preguiça física preguiça mental, vontade de ficar a coberto dos vaivens da sorte, das “rebordosas”, o pavor nacional do dia de amanhã. Ficou estranho à casa, às alfaias e continuou com os seus hábitos medíocres.
Após a café e a leitura dos jornais, viera o deputado até a sala de visitas espairecer um pouco. Vinha ver pelas janelas a rua que lhe ficava em frente da casa. Antes de espiar o movimento matinal do bairro, quis o acaso que examinasse um pouco os adornos da sala. Aí, parou um pouco, convidado por esse ou aquele móvel. Julgou uns antipáticos, gostou dos antigos, pesados e amplos; examinou os bibelôs e demorou-se a considerar uma estatueta de bronze. Sentada em êxedra, de marfim, uma mulher tinha os braços abertos sobre os ramos da cadeira. O busto estava nu, a parte inferior coberta, e, aos pés, uma coroa de louros. Viu-lhe o olhar perscrutador, a expressão do rosto de serena imaterialidade, a atitude geral de suspensão. Olhou-a ainda demoradamente e descobriu qualquer coisa naquele pedaço de bronze que até ali não tinha sentido nunca. Afastou-se um pouco, examinou um biscuit, um outro bronze; mas, sempre aquela mulher em expectativa, à espera não sei de que atraía o seu exame.
Teve medo de apanhá-la; afinal, o fez. Leu alguma coisa na base; não decifrou bem ou não teve confiança na leitura. Apesar da manhã muito clara, devido às cortinas, a luz entrava escassamente e a sala estava em uma meia penumbra. Trouxe-a bem junto à janela e leu claramente: Histoire — História!
Numa não precisou bem a relação entre a estatueta e a legenda, mas ainda assim olhou o bronze, o modo natural de seus braços abertos, a sua serenidade total, quando lhe avisaram que havia uma pessoa que queria falar-lhe. Leu o cartão e mandou que fizesse entrar para a saleta o Sr. Fuas Bandeira, diretor do Diário Mercantil.
Apurou melhor a “toilette” matinal e foi ao encontro do jornalista, depois de ter ao acaso lançado o olhar sobre o retrato do avô de sua mulher, enquadrado em uma grande moldura dourada.
(continua...)
BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.