Por Machado de Assis (1871)
Marques estava no sofá; Clarinha, sentada em um banquinho a seus pés, olhava para ele com uma expressão tão suave de afeição e respeito, que o moço curvou insensivelmente a cabeça. Mas foi então que, pela primeira vez, a serpente do ciúme lhe mordeu no coração.
— Entre, disse o médico, vendo que o primo parara à porta; não se assuste: são duas criaturas felizes, e felizes um pouco por sua causa.
Clarinha olhou para o marido.
— Admiras-te? disse Marques à mulher; foi ele quem me animou quando eu apenas ousava querer-te em silêncio. A idéia de escrever a primeira carta, à qual não deste resposta, foi do nosso amigo Jorge.
— Ah! disse a moça.
E estendendo a mão ao primo, acrescentou:
— Obrigada!
A expressão de felicidade com que ela fez este gesto e disse esta palavra, encheu de júbilo o marido; enquanto Jorge, despeitado e picado de ciúme, mal tocara os dedos da moça.
Esta, porém, ficara pensativa.
— Não sabia então nada naquele tempo, dizia ela consigo; mas quem lhe confiara o meu coração? O padre... Impossível!... E contudo ninguém mais o sabia; foi ele, foi. Com que fim?
VIII
DE MAL A PIOR
Não é bom brincar com fogo. Jorge conheceu dentro de pouco tempo esta verdade comezinha; ardeu na chama de que tão pouco caso fizera.
Mas esse fogo, bom é que se saiba, não era o que purifica; o amor de Jorge não fora aceso no céu. Era fogo da terra ou do inferno; paixão ardente, voluptuosa, insensata — mistura de capricho, sensualidade e loucura..
A situação, porém, tinha mudado. Jorge percebeu que o médico o tratava com extrema frieza.
— Ela contou-lhe tudo, disse ele consigo.
Procurou indagar a verdade, mas como? Podia arrancá-la à própria moça, mas ela não lhe dava ocasião para isso. Não o recebia, quando estava só; falava-lhe em presença do marido.
Jorge indagava um meio de resolver a crise em que se achava o seu espírito. A intolerância das paixões criminosas revelou-se nele com toda a força; exprobrava a prima, odiava o primo; odiaria o mundo inteiro, se o mundo inteiro lhe opusesse um veto à sua lastimável ambição.
Um domingo, estando no seu quarto a revolver estas idéias no espírito, apareceu-lhe à porta o padre Barroso. Levantou-se para ir falar-lhe. O padre encaminhou-se para uma cadeira. Franziu o rosto severo e os olhos torvos.
Jorge quis gracejar do aspecto do padre; mas este o interrompeu dizendo:
— Jorge, não venho para rir, mas para exortar, e, se preciso for, castigar. Não se admire; eu posso castigá-lo referindo tudo a seu pai, que é um homem honesto. A mansidão é apenas a crosta do meu caráter; no âmago, está a justa indignação contra tudo o que ofende a moral e a virtude.
— Mas eu já sou outro...
— Não, disse o padre, está pior do que estava. Antes nunca se emendasse. Jorge compreendeu que o padre aludia à sua atual paixão, e no fundo da consciência confessou que realmente a emenda, naquele caso, era pior que o soneto. O padre esteve alguns instantes silencioso.
— Sei tudo, disse ele.
— Tudo, o quê?
— Sei que o senhor ousou levantar olhos para uma pessoa que devia merecer-lhe todo o respeito. Receio ter sido eu a causa involuntária disto, mas o seu ato não se purifica ainda assim: fica sempre infame! Ela contou-me tudo, e pediu-me conselho. Disse-lhe que referisse tudo ao seu marido. Não quis; era envergonhá-lo sem necessidade, disse ela. Curvei-me à sua opinião; mas eu tinha a minha, e ouvia a consciência; contei-lhe tudo.
— O senhor! exclamou Jorge, levantando-se de súbito.
— Eu, sim; pois que tem? redargüiu o velho com placidez. Entendi que era o meu dever; escutei a minha consciência.
Jorge mordia os beiços, cheio de cólera.
O padre Barroso continuou:
— Ao mesmo tempo, pedi-lhe que não fizesse escândalo; primeiramente, por si e por ela; depois, por seus pais que são duas honradas criaturas. A sua pessoa não pesou nada neste pedido. Prometeu e cumpriu; limitou-se a desprezá-lo.
— Mas, enfim? disse Jorge com um gesto de impaciência.
— Ela não aprovou o meu passo, a princípio; receou que o conhecimento da verdade perturbasse a sua paz doméstica e a felicidade de seus tios. Mas quando eu lhe afiancei, e ela via, que nada disso acontecia, agradeceu-me a iniciativa. Bem vejo que isso o mortifica; mas tenha paciência. Clarinha é uma pessoa digna de ser adorada como um anjo; reúne todas as virtudes de uma senhora. Perdeu o senhor aquele tesouro... sim, posso dizê-lo agora, já que o sabe; perdeu-o, porque ela o amava em silêncio e o senhor nada viu, tão cego andava aí por esse mundo de amores comprados, e fúteis prazeres. Isto era revolver o punhal na ferida. Jorge estava humilhado e irritado. Quis falar, mas o padre não lho consentiu.
— Venho, pois, pedir-lhe, disse ele, ou melhor, venho intimá-lo para que não volte à casa de sua prima, e que a esqueça. Há de fazer isto quer queira quer não queira. Afirmo-lhe que estou disposto a tudo para defendê-la.
(continua...)
ASSIS, Machado de. O caminho de Damasco. Jornal das Famílias, 1871.