Por Machado de Assis (1869)
Quando chegou ao quarto atirou-se à cama e esteve alguns minutos sem movimento, mergulhado em reflexões. As palavras incoerentes da moça diziam-lhe que não havia naquela casa só um doido; tanta graça e beleza nada valiam; a infeliz estava nas condições do pai.
— Coitada! também é louca! Mas por que singular acordo de circunstâncias ambos eles estão de acordo nesta monomania celestial?
O doutor fazia esta e mil outras perguntas a si mesmo, sem achar resposta plausível. O que havia de certo é que o edifício da sua ventura acabava de esboroar-se. Só lhe restava um recurso; aproveitar a licença concedida pelo velho e sair daquela casa, que parecia encerrar uma história sombria.
Com efeito, ao jantar o dr. Antero declarou ao major que tinha intenção de ir à cidade ver uns papéis, no dia seguinte de manhã; voltaria de tarde.
No dia seguinte, logo depois do almoço, preparou-se o rapaz para ir embora, não sem ter prometido a Celestina que voltaria o mais cedo que pudesse. A moça pedia-lhe com alma; ele hesitou por um momento; mas que fazer? era melhor fugir dali quanto antes. Estava já pronto, quando sentiu bater-lhe à porta muito ao de leve; foi abrir; era a criada de Celestina.
IX
Esta criada, que se chamava Antônia, representava ter quarenta anos de idade. Não era feia nem bonita; tinha umas feições comuns e irregulares. Mas bastava olhá-la para ver nela o tipo da bondade e da dedicação.
Antônia entrou precipitadamente, e ajoelhou-se aos pés do doutor.
— Não vá! sr. doutor! não vá!
— Levante-se, Antônia, disse o rapaz.
Antônia levantou-se e repetiu as mesmas palavras.
— Que eu não vá? perguntou o doutor; mas por quê?
— Salve aquela menina!
— Pois quê! ela está em perigo?
— Não; mas é preciso salvá-la. Pensa que eu não adivinhei o seu pensamento? O senhor quer ir-se embora de uma vez.
— Não; prometo...
— Quer, e eu lhe peço que não vá... pelo menos até amanhã.
— Mas não me explicará...
— Agora, é impossível; pode vir gente; mas esta noite; olhe, à meia-noite, quando ela já estiver dormindo, eu virei aqui e lhe explicarei tudo. Mas promete que não vai? O rapaz respondeu maquinalmente.
— Prometo.
Antônia saiu precipitadamente.
No meio daquela constante alternativa de boas e más impressões, naquele desenrolar de emoções diversas, de mistérios diferentes, era de admirar que o espírito do rapaz não ficasse abalado, tão abalado como o do major. Parece que chegou a recear de si. Logo depois que saiu Antônia, sentou-se o doutor, e entrou a conjecturar que perigo seria aquele de que era preciso salvar a pequena. Mas não atinando com ele, resolveu ir ter com ela ou com o major, e já se preparava para isso, quando o futuro sogro lhe entrou pelo quarto.
Vinha alegre e lépido.
— Ora, guarde-o Deus, disse ele ao entrar; é a primeira vez que o visito no seu quarto.
— É verdade, respondeu o doutor. Queira sentar-se.
— Mas também o motivo que me traz aqui é importante, disse o velho assentando-se.
— Ah!
— Sabe quem morreu?
— Não.
— O diabo.
Dizendo isto deu uma gargalhada nervosa que fez estremecer o doutor; o velho continuou:
— Sim, senhor, morreu o diabo; o que é grande fortuna para mim, porque me dá a maior alegria da minha vida. Que lhe parece?
— Parece-me que é uma felicidade para nós todos, disse o dr. Antero; mas como soube da notícia?
— Soube por carta que recebi hoje do meu amigo Bernardo, também amigo de seu pai. Não vejo o Bernardo há doze anos; chegou agora do Norte, e apressou-se a escrever-me para dar esta agradável notícia.
O velho levantou-se, passeou pelo quarto sorrindo, murmurando algumas palavras sozinho, e parando de quando em quando para contemplar o hóspede.
— Não acha, disse ele numa das vezes que parou, não acha que esta notícia é a melhor festa que posso ter por ocasião de casar minha filha?
— Com efeito, assim é, respondeu o rapaz levantando-se; mas, visto que o inimigo da luz morreu, não falemos mais nele.
— Tem muita razão; não falemos mais nele.
O doutor dirigiu a conversa para assuntos diversos; falou de campanhas, de literatura, de plantações, de tudo quanto afastasse o major dos assuntos angélicos ou diabólicos. Finalmente saiu o major dizendo que esperava o coronel Bernardo, seu amigo, para jantar, e que teria sumo prazer em apresentar-lhe.
Mas a hora do jantar chegou sem que chegasse o coronel, de maneira que o doutor ficou convencido de que o coronel, a carta e o diabo não passavam de criações do major. Devia estar convencido desde princípio; e se estivesse convencido estaria em erro, porque o coronel Bernardo apresentou-se em casa às ave-marias.
(continua...)
ASSIS, Machado de. O anjo Rafael. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1869.