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#Romances#Literatura Brasileira

O Homem

Por Aluísio Azevedo (1887)

— Não! Alto lá! isso não! A histeria pode ter várias causas, nem sempre é produzida pela abstinência; seria asneira sustentar o contrário. Convenho mesmo com alguns médicos modernos em que ela nada mais seja do que uma nevrose do encéfalo e não estabeleça a sua sede nos órgãos genitais, como queriam os antigos; mas isso que tem a ver com o nosso caso? Aqui não se trata de curar uma histérica, trata-se de evitar a histeria. Ora, sua filha é uma delicadíssima sensibilidade nervosa; acaba de sofrer um formidável abalo com a morte de uma pessoa que ela estremecia muito; está, por conseguinte, sob o domínio de uma impressão violenta; pois o que convém agora é evitar que esta impressão permaneça, que avulte e degenere em histeria; compreende você? Para isso é preciso, antes de mais nada, que ela contente e traga em perfeito equilíbrio certos órgãos, cuja exacerbação iria alterar fatalmente o seu sistema psíquico; e, como o casamento é indispensável àquele equilíbrio, eu faço grande questão do casamento.

— De acordo, mas...

— Casamento é um modo de dizer, eu faço questão é do coito! — Ela precisa de homem! — Ora aí tem você!

O Conselheiro suspirou com força, coçou a cabeça. Os dois penetraram no gabinete, e se o doutor, depois de escrever a sua receita, acrescentou, como se não tivesse interrompido a conversa: — Noutras circunstâncias, sua filha não sofreria tanto... nada disso teria até conseqüências perigosas; mas, impressionável como é, com a educação religiosa que teve. E com aquele caraterzinho orgulhoso e cheio de intransigências, se não casar quanto antes, irá padecer muito; irá vive em luta aberta consigo mesma!

— Em luta? Como assim, doutor?

— Ora! A luta da matéria que impõe e da vontade que resiste; a luta que se trava sempre que o corpo reclama com direito a satisfação de qualquer necessidade, e a razão opõe-se a isso, porque não quer ir de encontro a certos preceitos sociais. Estupidez humana! Imagine que você tem uma fome de três dias e que, para comer, só dispões de um meio — roubar! Que faria neste caso?

— Não sei, mas com certeza não roubava...

— Então — morria de fome... Todavia um homem, de moral mais fácil que a sua não morreria, porque roubava... Compreende? _Pois aí tem!

V

Depois do ataque, Magdá sentiu um grande quebramento de corpo e pontadas na cabeça. O Conselheiro, quando a viu em estado de conversar, falou-lhe com delicadeza a respeito de casamento, apresentando-lhe as doutrinas do Dr. Lobão, vestidas agora de um modo mais conveniente.

— Mas eu estou de acordo! repontou ela, estou perfeitamente de acordo! A questão é haver um noivo! Eu não posso casar sem um noivo!

— Tens rejeitado tantos!

— Porque não me convinha nenhum dos que me apresentaram; hoje, porém, estou resolvida a ser mais fácil de contentar, e creio que me casarei.

— Ainda bem, minha filha, ainda bem!

E abriram-se de novo as salas do Sr. Conselheiro, e começaram de novo as festas, e de novo começou aquela canseira de arranjar um — marido.

E espalhem-se convites para todos os lados! E corre a gente à confeitaria e aos armazéns de bebidas! E contrate-se orquestra! E chama-se a costureira! E ature-se o cabeleireiro! — Que maçada! Que insuportável maçada!

Entre os novos arrebanhados, apareceu o Sr. Comendador José Furtado da Rocha, velhote bem disposto, orçando pelos cinqüenta, mas dando tinta ao cabelo e escanhoando-se com muita perfeição. Era português, e havia-se opulentado no comércio, onde principiara brunindo pesos e balanças. Magdá aceitou-lhe a corte quase por brincadeira, a rir; ou talvez para não contrariar o pai, que se mostrava muito afeiçoado por ele; ou, quem sabe? talvez ainda na esperança de ver surgir de um momento para outro novo pretendente.

O velho parecia adorá-la e falava, com meias palavras e sorrisos de misteriosa intenção, em arranjar títulos, deixar palácio, correr a Europa inteira e comprar objetos de arte.

Um ajo! Mas, quando o Conselheiro, em nome do amigo, perguntou à filha se estava resolvida a casar com ele, Magdá sorriu, espreguiçou-se e, afinal, para não deixar o pai sem resposta, tartamudeou:

— Não digo que não, mas... sabe?... é cedo para decidir... Havemos de ver! havemos de ver!...

Três meses depois, o Comendador, já desenganado, casava-se em São Paulo com uma viúva ainda moça, professora de piano.

Apresentou-se então, solicitando a mão de Magdá, p Dr. Tolentino. Não tinha a metade do dinheiro do outro, mas em compensação era muito mais novo. Muito mais! E com um belo prestígio de homem de talento e um futurão na advocacia, se os seus pulmões lho permitissem.

(continua...)

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