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#Contos#Literatura Brasileira

O Esqueleto

Por Aluísio Azevedo (1890)

A Sociedade Tenebrosa do Apostolado, que então funcionava no quartel da Guarda Velha e da qual era o príncipe o Archonte Rei, incitara-o a precipitar os acontecimentos. Demais, as últimas notícias de Lisboa eram as mais inquietadoras possíveis: os deputados brasileiros, insultados nas cortes, tinham reagido escandalosamente com uma nobre energia: perseguidos, tinham sido forçados a embarcar para Falmouth e daí~ara o Brasil.

De modo que o príncipe não podia mais hesitar.

Mas, em Santos, não foi a política que lhe preocupou o exaltado coração.

Lá mesmo, o Satanás teve de reassumir as funções de medianeiro fiel. Porque, cheio, durante o dia, de preocupações políticas, o príncipe passava as noites a correr a velha cidade, à cata de aventuras.

As ruas sujas de Santos, eternamente cobertas de lama, quer a chuva caísse, quer o sol abrasasse, impregnadas de um cheiro repugnante de maresia, não tiveram mais segredos para os dous. E Satanás descobriu uma rapariga deliciosa, que casara com um velho fidalgo português e que não hesitou em abrir o seio à honra dos beijos do jovem príncipe.

A primeira entrevista realizou-se na Barra, em casa de uma velha algarvia, conhecida na cidade pela perícia inexcedível com que preparava as peixadas suculentas para as funçanatas de então. E fui por uma bela noite de luar que O príncipe, acompanhado do Satanás, partiu para a Barra, onde o esperavam uma farta peixada de escabeche e um farto colo de mulher morena.

A casa abria as janelas para o mar, onde o luar entornava a sua prata líquida, naquela noite serena. Eram a perder de vista, desde a praia curva, de areias claríssimas, até o limite apartado do horizonte, águas e águas que tremiam ao luar, encrespadas e franjadas de espuma.

À porta d. Pedro parou. A sua alma ardente de ambicioso agradava aquele infinito sereno, aquela vastidão de águas calmas, ilimitadas como os seus sonhos de poder e de glória.

O Satanás, ao lado, olhava também o mar: e aquilo trazia-lhe à lembrança o infinito do seu desespero e a soledade da sua vida, sem filha, sem amigos, cão rafeiro de um fidalgo...

Mas d. Pedro foi o primeiro a arrancar-se das suas meditações:

- Entremos. Nunca se deve fazer esperar uma mulher.

- Nem uma peixada, acrescentou o escultor.

Entraram. Uma sala baixa, toda furada de janelas, por onde o luar entrava, cintilando. Ao centro, a mesa estava posta, aceiada, com a grande terrina de louça azul, descoberta, deixando ver o molho louro do escabeche, cujo aroma fazia a água crescer na boca.

Maria, ao ver entrar o príncipe, levantou-se do banco em que estava sentada, a uma das janelas, contemplando o luar. Era uma mulher opulenta, de amplas formas sensualmente arredondadas, olhos profundos e negros, circulados de olheiras roxas. No lábio superior, carnudo e vermelho, sombreava-se-lhe um buço delicioso.

O príncipe beijou-lhe a mão, fidalgamente. E, enlaçando-lhe a cintura, foi com ela para a janela. Daí a pouco, a sala encheu-se de um sussurro de vozes cochichadas nomezinhos ternos, risadinhas brejeiras, beijinhos marotos. O Satanás meditava a um canto, taciturno.

A velha Marta do Peixe entrou muito gorda, muito suada com dous seios formidáveis, trêmulos como dous grandes bolos de gelatina, trazendo os canjirões do Ribatejo.

Que viessem para a mesa, que viessem para a mesa! estava a cousa de empanturrar o bandulho e soluçar por mais! haviam de lamber os beiços.. Não! que para coser as anchovas tenrinhas não havia com'a ela!

Abancaram todos. E a Marta, de mangas arregaçadas, deixando ver dous braços que pareciam duas pernas, pôs-se a encher pratarrazes de peixe.

- Olhem que foi pescado ali assim p'lo meu home! E é quê ele foi feliz, o raio do dianho, que as pescarias têm andado nada boas, p'la Senhora da Boa Morte!

O príncipe interessou-se pelo homem da Marta.

- Então? rendia o negócio?

- Qual nada, senhor! É uma azáfama do tinhoso a sol e chuva, e nada de fazer p'r'ó pão! E indaé bom quando não se morre por lá, por essas aiaguas de Cristo! Inda tresantonte lá se ficou o Chico da Burra, mais a canoa e a rede... Agora é verdade que ninguém mandou o desinfeliz ir pescar por riba da catedral!

- Que catedral, mulher? interrogou o Satanás, curioso.

A Marta contou então a lenda, muito conhecida, naqueles tempos e ainda hoje, em Santos. Dizia-se que uma parte da cidade, construída pelos primeiros portugueses, fora submergida. Era nessa parte que fora edificada a primeira igreja de Santos: e tanto que, por noites assim, de luar, quem chegava à beira da praia, ouvia no seio das águas um barulho de sinos, dobrando a finados. E ai! do pescador atrevido que ousasse pescar naquele ponto!... vinham os padres à tona d'água e carregavam com ele para o fundo do mar.

- Crendices tolas! - disse d. Pedro.

(continua...)

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