Por Aluísio Azevedo (1897)
— Nom de Dieu! praguejou o empresário francês. Não se pode ter melhor voz do que a sua para o Alcazar!
Ali não queremos voz, queremos jeito! percebe? A questão é de savoir faire!
— Porém é que eu nunca representei em minha vida!...
— E quem lhe pede que represente? Quero é que se mostre! Com esse corpo e essa cara não há que recear do público!
Ambrosina sorriu.
— Além disso... insistiu o Arnaud, o palco lhe realçará o prestígio. Não há para uma mulher bonita melhor moldura que os bastidores e as gambiarras!...
— E a empresa, como vai?...
— Vai mal! Pois se não tenho ninguém!... Aquela meia dúzia de gatas magras que lá estão, desacreditamme o teatro! Faltamme boas pernas... Se a senhora me voltar o rosto, o Alcazar — morreu!
E o Arnaud acompanhou a sua última frase com um gesto trágico de profeta; que prevê um fim de mundo.
Ambrosina mostrouse compungida.
— Morre! é o que digo! A senhora não sei se o salvará, mas pelo menos há de susterlhe a queda por algum tempo, até que apareça alguém capaz de arriscar ali um par de contos de réis!... oh! exclamou o empresário com ar convicto — aquele teatrinho é uma mina, que se pode explorar com muito pouco dinheiro! A questão é de reformar o jardim e mandar buscar um tenor! Não, não temos absolutamente vislumbre de um tenor! Quando lhe falei à primeira vez, há cousa de sete meses, se a senhora tivesse querido, eu podia nessa ocasião darlhe um bom ordenado, mas, o diabo dos negócios foram tão mal de lá para cá, que agora só o que posso fazer é oferecerlhe sociedade na empresa...
— E você acha que com algum dinheiro se levanta aquilo?...
— Oh! oh! soprou o francês, por única resposta.
— Pois eu me associo com oito contos de réis, e trabalho; servelhe?
— Se serve! E afiançolhe que vai ganhar rios de dinheiro!
No dia seguinte, Ambrosina deu as suas providências para arranjar o capital; os oito contos de réis pingaram da algibeira dos seus admiradores, como o sumo de uma fruta espremida. Ficou a cousa afinal arranjada da seguinte forma: o então ministro da Fazenda um conto de réis; o comendador X. X., presidente de certa companhia garantida pelo Estado, dois contos de réis; o deputado Rocha Coelho, quinhentos milréis; mais três comendadores do comércio, a quatrocentos milréis por cabeça, um conto e duzentos milréis; um diretor de secretaria trezentos milréis; um banqueiro de roleta, quinhentos milréis; um fazendeiro, que a convidara para ficar só com ele, oitocentos milréis. E o que faltava ainda foi obtido em quantias pequenas de algibeiras de todos os tamanhos e jerarquias: de sorte que Ambrosina nem teve de tocar no seu fundo de reserva, como esperava, e talvez ainda guardasse algumas sobras na ocasião de reunir o produto das quotas.
Pouco depois, passaramse os documentos necessários, e era ela empresária do Alcazar.
Estreou com duas pífias cançonetas e um quadro vivo, mas por tal sorte apimentou os versos e os gestos, e tão à mostra apresentou as suas formas esculturais, que o público sentiu vibrarlhe no sangue uma faísca diabólica e levantouse entusiasmado, a lançar no palco chapéus, lenços, bengalas e ventarolas, possuído de verdadeiro delírio.
No dia seguinte, a sala da Condessa Vésper encheuse de homens de toda a idade e posição social, e os cartões, os ramalhetes, os oferecimentos, os pequeninos presentes de consideração, choveram de todos os lados.
No espetáculo imediato, subiram os bilhetes a um preço escandaloso, os cambistas encheramse a grande, e às sete horas da noite já se não podia passar pela rua da Vala. O teatrinho parecia vir abaixo! o nome da formosa estrela enchia o ar, pronunciado em todos os sotaques e diapasões. O público sentiase impaciente, a orquestra apressada.
Afinal, subiu o pano, e Ambrosina, quase nua, viuse calçada de flores até acima dos joelhos.
Não obstante, no meio daquela porção de rosas foi envolvido um novo espinho, e este agora bem agudo — era um cartão de Gustavo.
Em casa, no seu primeiro momento de independência, Ambrosina releu o tal cartão, dez, vinte vezes seguidas, e acabou por atirarse à cama, soluçando, dominada por uma violenta comoção, que não ficou bem averiguado se era produzida pela raiva, pela excitação da noite, ou por qualquer outra causa.
O cartão dizia o seguinte:
"Gustavo Mostella pode à festejada Condessa Vésper o obséquio de marcarlhe amanhã uma hora, na qual lhe possa ele falar, em confidência, a respeito de certa lavadeira por nome de Genoveva. Rua do Rezende..."
Era simplesmente isto o que dizia o cartão.
E a cousa explicase do seguinte modo: Gustavo morava num cômodo de sala e alcova, que lhe alugava a família Silva, proprietária e moradora de um sobrado da rua do Rezende. Pagava noventa milréis por mês, com direito, além da comida, ao arranjo dos quartos, ao banho e ao café pela manhã.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.