Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Levar-vos-ei hoje ao Imperial Colégio de Pedro II. Mas em vez de seguirmos já para a Rua Larga de S. Joaquim, onde existe o externato, ou para o Engenho Velho, onde se acha o internato deste importante estabelecimento, voltaremos ainda à Rua de S. Pedro e pararemos defronte do sobradinho antigo e humilde que é contíguo à igreja de S. Pedro, e dela uma dependência.
Assim como há grandes e caudalosos rios que em sua nascente são apenas tênues arroios, assim também se vêem belas e consideráveis instituições, cujo berço modesto e pobre mal deixara adivinhar o seu futuro brilhantismo.
O Imperial Colégio de Pedro II está neste caso.
Diz-se e pode ler-se, pois está escrito, que este colégio foi fundado no dia 2 de dezembro de 1837. Certo é, porém, que a sua verdadeira origem data de um ano que não me é possível bem determinar e que, no entanto, foi positivamente anterior ao de 1739 e posterior ao de 1733.
E mais ainda, a sua origem primitiva seria tudo quanto quiserem, menos fidalga.
Essa bela instituição, de que hoje tanto nos ufanamos, é filha de humildes pais. Porque há um século e vinte e alguns anos deram-lhe o ser a caridade, que nunca foi altiva, e um simples sacristão-mor, que provavelmente não era de nobre estirpe.
E o brilhante colégio que não se lembre de protestar contra estas verdades, negando esta sua procedência e sustentando que nunca teve parentesco com o seminário de S. Joaquim. Porque é público e está provado que ele lhe herdou os bens sem que os recebesse por legado expresso em testamento, e por conseqüência, herdou-os por ser parente legítimo, e é incontestavelmente da família.
Vou resumir em duas palavras o capítulo da nossa história do outro tempo, capítulo que trata deste assunto, e que infelizmente não se encontra nem nos livros nem nos arquivos, mas cuja veracidade julgo poder assegurar, porque pude lê-lo escrito na lembrança de três velhos muito respeitáveis, sendo um deles sacerdote, e todos absolutamente concordes na relação do que tinham ouvido de seus pais e de seus maiores.
Logo que se inaugurou a igreja de S. Pedro, foi escolhido para sacristão-mor desse templo um homem cujo nome ficou esquecido, talvez um padre e, em todo o caso, homem de costumes sãos e de reconhecida virtude.
O sacristão-mor não tinha fortuna, e o pouco que podia ganhar dividia com os pobres. Era um pobre a dar esmolas, partindo pelo meio o pão que apenas para ele chegava.
Doía-lhe, sobretudo, a sorte dos meninos órfãos, que, perdendo seus pais, ficavam na miséria, em dúplice miséria, sem pais e sem pão.
O sacristão-mor conhecia e socorria um homem pobre, viúvo, doente e com dois filhos ainda muito pequenos. E meninos de doze e treze anos de idade. Um dia, foi ver o seu protegido e encontrou-o morto. Os dois órfãos choravam e mal pensavam quanto deviam chorar!
O caridoso sacristão levou consigo os dois meninos e durante a noite gastou horas inteiras a refletir sobre a vida que os esperava. Ele não tinha meios para educá-los. Que faria dos dois órfãos? Pensando nestes, pensou também que muitos outros estariam nas mesmas circunstâncias.
Tanto pensou, que o anjo da caridade veio inspirar-lhe uma idéia feliz, embora um pouco difícil, e cujo resultado se mostrava muito problemático.
Mas, apesar de todas as dúvidas que a enublavam, a idéia, a inspiração fez sorrir ao homem caridoso, que dormiu tranqüilamente, resolvido a executar o projeto que concebera.
Dias depois, viu-se o sacristão-mor sair de casa, em pleno dia, conduzindo os dois meninos órfãos, a quem vestira de hábito e murça de baeta branca, pondo-lhes ainda no lado esquerdo do peito uma cruz de baeta encarnada.
Ninguém se riu, ninguém se lembrou de deixar ouvir o mais leve epigrama, vendo passar aquele grupo singular. Apenas levados por um explicável impulso de curiosidade, alguns curiosos foram seguindo de perto, e em respeitoso silêncio, o ancião e os dois meninos.
O sacristão-mor, comovido e um pouco receoso do bom êxito do seu projeto, dirigiu-se em primeiro lugar à casa do governador, e apresentando-lhe os seus dois filhos adotivos, disse-lhe com uma simplicidade que as lágrimas que derramava enchiam de eloquência:
– Senhor, estes dois meninos são pobres órfãos a quem a
morte privou dos pais. Precisam do pão que alimenta o corpo e do pão que
alimenta o espírito. Acolhi-os eu, que sou quase tão pobre como eles. Posso,
graças a Deus, repartir com eles o prato da minha mesa. Faltam-me, porém, os
recursos necessários para educá-los. Muitos outros infelizes estarão em
circunstâncias idênticas. E veio-me a idéia de sair com estes a pedir esmolas
para fundar um pequeno hospício, onde recebam alguma instrução e educação religiosa
os órfãos, que bem podem vir a chamar-se de S. Pedro. Porque foi rezando ao senhor S.
Pedro que este pensamento nasceu na minha alma.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.