Por José de Alencar (1875)
Tinha à mão, no ombro dos pagens, seus três famosos bacamartes. O primeiro, conhecido por Jacaré, nome tirado da enorme bôca; o segundo, chamado Trovão por causa de seu formidável ribombo; e o terceiro, Farol, porque ao disparar levantava um clarão medonho. Todos eram de grosso calibre, que mais parecia de canhão.
Leandro Barbalho ficava-lhe à direita, Arnaldo à esquerda, e toda a gente estava a postos. D. Genoveva com Flor e Alina, a-pesar-de transidas de susto, já tinham voltado da capela, onde foram pedir a proteção divina; e tomaram todas as providências para socorrer os combatentes e munições, e de pronto curativo no caso de serem feridos.
Depois de longa espera, em que o capitão-mór não via senão um ardil paramais tarde caírem de surpresa, apareceu uma pequena escolta, que vinha do campo inimigo, e dirigia-se à Oiticica, parando a trechos e agitando uma grande bandeira branca.
— É um parlamentário que nos enviam, disse Leandro Barbalho.
O capitão-mór sem quebrar o silêncio levantou o braço e apontou o bacamarte. Leandro mediu o alcance da ação, mas não se atreveu a opor-se. Foi Arnaldo, que sem hesitar, lançou a mão ao cano da arma a tempo de evitar o tiro.
Voltou-se Campelo com terrível expressão. O rapaz encostara ao peito a bôca do bacamarte:
— Atire em mim, sr. capitão-mór, porém não mate sua mulher e sua filha que estão lá dentro fiadas na prudência, ainda mais do que na coragem de vossa senhoria.
Sentiu o fazendeiro a justeza daquela observação, que fizera calar em seu espírito o rasgo do intrépido vaqueiro, expondo o seu peito à carga do bacamarte.
— Carecemos antes de tudo ganhar tempo, continuou o sertanejo. Nossa posição agora é má; porém esta noite, amanhã ou depois, a sorte pode mudar de repente.
O Manuel Abreu foi ao encontro do parlamentário. Êste não era outro senão o licenciado Ourém, que vinha pôr à prova a sua diplomacia em uma negociação cuja dificuldade e risco êle bem previa.
Não havia no campo do Fragoso pessoa mais apta para o delicado mister, e nestas circunstâncias entendeu o licenciado que faltaria a seu dever de cristão e de parente, se não oferecesse os seus serviços de medianeiro para evitar um rompimento funesto a ambas as partes.
Leandro Barbalho adiantou-se para receber no terreiro o parlamentário, e o levou à presença do capitão-mór na sala. Trocada a saudação, afável e insinuante da parte do Ourém, muda e arrogante da parte do capitão-mór; quando aquele dispunha-se a entrar no assunto, foi atalhado pelo fazendeiro:
— O senhor licenciado veio como parlamentário, e com esta segurança foi recebido. Mas veja como fala, porque, se faltar com o respeito que deve ao capitão-mór Gonçalo Pires Campelo, não respondemos por nós. Fique prevenido.
Ourém acudiu logo com pressurosa cortesia:
— Como posso eu faltar com o respeito devido ao sr. capitão-mór Gonçalo Pires Campelo, quando não trago outro encargo senão o de assegurar-lhe o grande acatamento em que o tem meu primo, o capitão Marcos Fragoso, e do seu vivo desejo de continuar as boas relações de vizinhança em que está com o dono da Oiticica?
— Foi para mostra dêsse desejo que êle armou toda essa ralé de bandoleiros, e veio pôr cêrco à fazenda? observou Leandro Barbalho em tom de chasco.
— O séquito numeroso que trouxe o capitão Marcos Fragoso não foi para ameaçar, e menos ainda para atacar o dono da Oiticica; mas, ao contrário, com êste alardo quis meu primo dar a conhecer as fôrças de que dispõe, e com que êle se empregará sempre e da melhor vontade no serviço de seua senhoria, se…
O Ourém rebuçou esta conjunção com um sorriso dos mais açucarados:
— Se o sr. capitão-mór, como espera, aceder ao pedido que me incumbiu de fazer em seu nome, e que é ainda uma prova, e a mais significativa, da veneração, que vota à sua pessoa.
O capitão-mór não pestanejou, e permaneceu impassível no aspecto, mas interiormente rugia uma cólera que ameaçava a cada instante fazer irrupção.
— Sabe vossa senhoria que outrora usavam os cavalheiros, quando iam a algum torneio, apresentar-se na côrte com uma grande comitiva, não por afrontar, mas só para merecer a atenção. A mesma bizarria teve meu primo Marcos Fragoso vindo pedir ao sr. capitão-mór, como agora o faz por meu intermédio, a mão de sua formosa filha D. Flor, que se o é no nome, excede-lhe nas prendas.
Campelo ficou mudo. O Ourém, tendo esperado debalde a resposta, insistiu:
— O sr. capitão-mór ouviu o pedido; que decisão devo eu levar a meu primo Marcos Fragoso, que a espera ansioso?
— A mesma que lhe dei a primeira vez, respondeu Campelo.
— As circunstâncias mudaram depois disso.
— Pode ser; mas não mudou a nossa vontade.
— Talvez que vossa senhoria deseje algum tempo para melhor refletir?
— Já decidimos.
— Então a resposta do sr. capitão-mór é?…
— Não!
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.