Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

— Pobre Raquel! disse Honorina; mãe Lúcia, é porque ela está na verdade doente.

— Mas, enfim, como promete vir à noite...

— Contudo, esperar até à noite é muito para quem se vê no meu estado!

— Eu pensei que a primeira carta da Sr.ª D. Raquel havia-lhe consolado um pouco...

— A primeira carta?...

— Sim; aquela que ontem lhe entreguei na saleta do terrado.

— Ah! sim... é verdade: a primeira carta... pois exatamente por causa dela precisava eu ter junto a mim uma amiga que me aconselhasse...

— Então... eu...

— Mãe Lúcia... tú és um pouco suspeita; quando em qualquer questão aparece o nome de meu primo...

— Paciência, Sr.ª D. Honorina.

— Oh! paciência?... de paciência careço eu, e de muita, porque, com efeito, é terrível a minha posição!... eu sinto andar-me a cabeça à roda... tenho no coração uma ansiedade inexplicável... eu preciso falar... dizer o que sofro a alguém que me estime, e que me aconselhe... oh!... como é bom ter uma amiga ao pé de si!... neste momento Raquel... uma amiga seria a meu lado como um anjo!...

— Mas eu creio que batem palmas na escada...

— Se fosse Raquel!... mãe Lúcia, vê quem é...

Uma escrava bateu de manso na porta do quarto de Honorina e anunciou a Sr.ª D.

Lucrécia.

— D. Lucrécia!... exclamou a moça.

— Que a vem visitar, disse Lúcia.

— Quando eu pedia ao céu uma amiga!...

— A senhora não quer ir recebê-la?...

— Não, mãe Lúcia, Lucrécia não é de cerimônia; faze-a entrar para aqui.

A bela viúva chegava a propósito: Brás-mimoso, que viera cumprimentar pouco antes as senhoras, voltara assustado com o aspecto melancólico de Ema, e para logo fora dar conta do que observara à sua interessante protetora.

Lucrécia correu imediatamente ao posto que lhe convinha: as lágrimas de uma rival agradam muito ao paladar da mulher ciumenta; e de mais, quem sabe se a despeitada viúva não poderá tirar partido da posição de Honorina?...

Lucrécia não hesita, e se apressa a descobrir campo.

Apenas entrada no quarto, ela aperta Honorina em seu braços e exclama:

— Meu Deus!... tu tens chorado, D. Honorina!

— Muito! muito, D. Lucrécia; porque eu sou bem desgraçada!

— Oh! mas tu me devias ter feito chamar para consolar-te... por ventura não te tenho eu pela minha melhor amiga?... aposto que mandaste buscar D. Raquel?...

— É verdade... mas perdoa.

— Perdôo-te de todo o meu coração, pois que sois amigas da infância: é tão doce uma amizade dos primeiros anos!... eu também amo muito a D. Raquel, porém onde está ela?...

— Não pôde vir... desgraçadamente se acha doente...

— Oh! jamais se está doente para acudir a uma amiga que chora!...

— D. Lucrécia, Raquel não mente!

— Esqueçamos isso, continuou a viúva; não veio ela, mas aqui estou eu; vamos, D. Honorina, que querem dizer essas lágrimas?

Honorina estremeceu; como sempre, apareceu no espírito da moça a desconfiança que lhe inspirava Lucrécia; havia no coração de Honorina talvez um pressentimento de que aquela mulher lhe seria falsa; mas ao mesmo tempo esse coração estava tão cheio de mágoas, esse espírito tão repleto de temores, de dúvidas, de amor e de piedade, que por força tinham ambos de esvaziar-se no seio de alguém.

Portanto, depois de muito tempo de hesitação e de vivas instâncias da viúva, Honorina, abaixando os olhos, disse:

— Antes de tudo, tu me deves perdoar uma falta, D. Lucrécia.

— Uma falta? perguntou a viúva fixando na moça vistas perscrutadoras, e qual é?... — Eu não te tenho dado toda a minha confiança... até agora te ocultei o meu único segredo.

— Eu o sabia... eu o adivinhava...

— D. Lucrécia... eu amo... há muito tempo...

— Sim... bem... e então?

Honorina derramou toda a relação de sua inocente paixão no seio da viúva, como um licor doce e cristalino, que gota a gota se deixa cair em um vaso impuro.

Lucrécia escutava atentamente a história daquele amor já tão adiantado, e tão terno, e que ela mal tinha suspeitado na noite do canto à sombra da mangueira e na seguinte tão tempestuosa e terrível. Oh! a vaidosa viúva teve inveja desse amor de homem misterioso e devotado, que se metamorfoseava em tantas figuras, que aparecia inopinado em tantos lugares, que velava tantas noites, que assoberbava a mesma morte por uma mulher; ela sentiu que esse homem valia mil vezes mais do que Otávio; e ouviu, com inveja ainda, essas doces e imutáveis palavras de seus singulares escritos; palavras que semelhavam um mote guerreiro inscrito no escudo de amoroso cavaleiro de prisca idade.

Honorina não esqueceu nada; tudo quanto com ela se passara e se estava passando confiou à falsa amiga: as pretensões de Otávio, a sua resposta, os desejos de sua avó, o propósito de seu pai, as cartas de seu primo, tudo foi revelado.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...107108109110111...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →