Por Aluísio Azevedo (1897)
— É um excelente rapaz. Tem talento e tem caráter...
— Não me parece boa...
— Enganase...
— Muito antipático!...
— Não acho...
E Ambrosina ficou a olhar longamente para a fotografia; depois, atirou com esta para junto do prato de Gaspar e disse, espreguiçandose:.
— Ai! ai! Tenho um pouco de preguiça...
— Quer que me retire?
— Não. Que lembrança!... Quero ao contrário, que me deixes encostar ao teu colo...
E, sem esperar pela resposta, estendeuse no colo do médico.
Este vialhe os olhos cerrados a meio, vialhe a boca entreaberta, a mostrar a pérola dos dentes, vialhe a carnação deliciosa da garganta, a transparência da pele, o corderosa das narinas, e sentialhe o aroma dos cabelos; mas sua fisionomia não denunciou o menor abalo interior. A máscara do rosto conservouse inalterável.
— Estou meio tonta... segredou Ambrosina. Levame para a alcova, sim? Conversaremos lá...
Mas, com uma idéia súbita, exclamou despertando:
— Ah! É verdade! Fechaste a porta da rua?
— Não decerto...
— Espera então um instante... Dispensei os criados... Vou eu mesmo fechála, para ficarmos mais à vontade.
— Não é preciso tomar esse incômodo... eu me encarrego disso agora ao sair. Adeus.
E Gaspar ergueuse, decidido irrevogavelmente a retirarse, mas a rapariga não lhe deu tempo para fugir: com um gesto profissional e certeiro, passoulhe os hábeis braços em volta do pescoço, grudandose toda a ele e prendendolhe os lábios com os dentes.
O Médico Misterioso ia arrojála de si, quando de súbito se arredou o reposteiro da entrada, deixando ver o vulto transformado de Gabriel, que, trêmulo e arquejante, olhos em fogo, os observava mas pálido que um cadáver.
Um só grito se ouviu, feito da exclamação dos outros dois.
Ambrosina, temendose em risco de uma agressão do examante, fugiu para o interior da casa, e Gaspar precipitouse no encalço de Gabriel, que observada a cena, deixara de novo cair sobre ela o reposteiro, e aos esbarrões se afastava pelo corredor.
O médico quis amparálo nos braços, o rapaz, porém o repeliu com ímpeto, balbuciando entredentes cerrados pela cólera:
— Desculpeme ter vindo interrompêlo nos seus íntimos prazeres... Não pude evitar a mim mesmo esta nova beixeza! Doulhe todavia a minha palavra de honra que não a cometi por aquela desgraçada, mas só pelo senhor, a quem eu supunha meu amigo e incapaz de tamanha infâmia!
Não te iludas com o que viste! Eu tudo te explicarei, meu filho!
— Proíbolhe que me dê esse tratamento! o senhor nunca foi meu pai, felizmente! E de hoje em diante nada mais há de comum entre nós! Afastese de mim!
— Gabriel!
— Não me toque, ou eu o esbofetearei!
E Gabriel, ganhando a porta do corredor, desgalgou a escada.
— Ouve, meu filho! ouveme por amor de Deus! exclamava o médico já na rua.
Mas o outro havia de carreira alcançado o carro que o esperava na praça, e mandava ao acaso tocar para a frente a toda força.
XL
A POBRE LAVADEIRA
No dia seguinte, Gaspar, verificando que o enteado havia fugido do Rio de Janeiro, sem deixar rastos, sem a ninguém comunicar o destino que levava, meteuse, ardendo em febre, a bordo do transatlântico em que contava seguir com ele para a Europa, e por sua vez desaparecia da Corte, levando o coração tão despedaçado, quanto é natural que a essas horas acontecesse igualmente com o pobre Gabriel.
Semanas depois desse triste rompimento, que arrojava os dois amigos para longe um do outro, quase toda linfática população fluminense de novo se agitava num delírio de entusiasmo.
É que na véspera Ambrosina estreara no Alcazar. Não se falava em outra cousa; os jornais vinham pejados de elogios à deslumbrante Condessa Vésper, meteramse em circulação os mais pomposos adjetivos, para dar idéia dos encantos da debutante, e, nas rodas dos habitués do teatrinho francês e dos flanadores da rua do Ouvidor, descreviamlhe com assombro a perfeição maravilhosa do corpo.
Foi um estrondoso triunfo! Uma das folhas mais lidas, dizia nas suas publicações gerais, que a nova artista era uma glória nacional, e que os brasileiros se enchiam de orgulho ao lembrarse de que aquele primor de estatuária viva era carioca da gema.
Entretanto, a própria Ambrosina estava bem longe de esperar semelhante fortuna.
Um dia o empresário do Alcazar, o Arnaud, que lhe havia já franqueado o teatro, apareceulhe de novo a falar mais insistentemente sobre isso, e, tão bonitos pintou os resultados da estréia, que conseguiu afinal abalar o espírito da loureira.
Mas olhe que eu não sei cantar, homem de Deus!... objetou ela.
— E alguma das que lá tenho o saberá porventura...
— Mas terão boa voz, ao menos!...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.