Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Em 1839, achando-se vaga a vigararia de Itaboraí, tornou o padre Manuel de Freitas Magalhães a apresentar-se em concurso, e conseguiu o que ele dizia mais desejar no mundo: ser vigário dessa paróquia, à qual tinha sempre conservado o mais decidido amor.

Lembra-me que no dia de sua posse da igreja dessa freguesia, em 1839, o conselheiro José Clemente Pereira, ouvindo-o, no meio de um banquete, manifestar esses sentimentos, exclamara, sorrindo:

– Meu vigário, acuso-o de adultério. Porque, estando casado com a freguesia de S. Gonçalo, entreteve amores ocultos com a de S.

João de Itaboraí.

Durante os poucos e saudosos anos que o cônego Manuel de Freitas Magalhães foi vigário de Itaboraí, o seu pensamento e empenho dominantes foram a harmonia e união de todos os habitantes de sua freguesia. Guardando consigo os seus princípios políticos, nas épocas de lutas eleitorais ninguém trabalhava mais do que ele. O seu único trabalho, porém, era com o fim de manter a ordem, de destruir intrigas e de impedir inimizades, e às vezes conseguiu restabelecer amigáveis relações perturbadas pelo antagonismo político.

A sua casa e a sua mesa estavam francas a todos. Não há neste ponto a menor exageração. Tornou-se por vezes curiosa e objeto de gracejo de amigos o fato de chegar-se o vigário Freitas a alguns desses para procurar saber quem eram algumas pessoas que acabavam de jantar à sua mesa, e uma vez, quem era um homem que dormira em sua casa!

Também os habitantes da freguesia de Itaboraí pagavam com o mais decidido amor a dedicação do seu vigário. E quando chegavam as grandes festas do ano, e mesmo durante o correr dos meses, os presentes obsequiosos eram em tão grande número, que ele dizia que já não tinha onde guardá-los; e nos jantares que sempre costumava dar nos dias de festas, o bom vigário exclamava, falando à numerosíssima companhia que cercava a mesa:

– Aqui o convidado sou eu. Porque este lauto banquete foram os senhores que me ofereceram.

Estou narrando fatos de que ainda há testemunhas presenciais que se podem contar por dezenas, e das quais não haverá uma única que não abone a minha verdade.

Em 1842, o cônego Manuel de Freitas Magalhães, instado por alguns comprovincianos, parentes e amigos seus, partiu para sua província natal, e pretendendo a honra de representá-la na assembléia geral, teve de sustentar uma luta porfiada e calorosíssima com o presidente da província, que também se apresentara candidato. A câmara dos deputados anulou essa eleição. O cônego Freitas já se achava no Rio de Janeiro. O presidente da província do Espírito Santo já era também outro, e na nova eleição a que se procedeu, em 1843, o cônego Manuel de Freitas Magalhães obteve todos os votos do eleitorado, à exceção de um só! – eloqüente e brilhante manifestação do voto livre dos seus comprovincianos.

O combate eleitoral de 1842 tinha, no entanto, afetado profundamente o cônego Freitas, que voltou da sua província triste e doente. Os habitantes da freguesia de Itaboraí foram em grande número recebê-lo no porto da Vila Nova de S. José d’El-Rei, e ele, desfazendo-se em lágrimas, atirou-se nos braços destes seus amigos.

Desde esse tempo, começou o cônego Freitas a prever e anunciar a sua morte próxima, e deu-se então um fato que não me animaria a referir, se não pudesse prová-lo com o testemunho de pessoas muito respeitáveis.

Em 1843, pouco antes de partir para a corte, onde devia tomar assento na Câmara dos Deputados, o cônego Freitas acordou uma manhã pensativo e melancólico. Alguns amigos instaram com ele para que dissesse o motivo da sua tristeza e, enfim, o obrigaram a falar.

– Esta noite – disse ele – no meio de um sonho, ouvi perfeita-mente uma voz que me bradou: “O mês de outubro te há de ser fatal.”

Como bem se pode pensar, zombou-se da causa da melancolia do vigário cônego Freitas, e procurou-se por todos os modos distraí-lo. Ele, porem, não se esqueceu mais do sinistro anúncio da voz misteriosa do seu sonho.

Indo para a corte, hospedou-se na casa de seu íntimo amigo o Exmo Sr. Conselheiro Dr. Tomás Gomes dos Santos, a quem por vezes referiu o seu triste sonho.

Chegou, enfim, o mês de outubro, e no dia 15 desse mesmo mês, um ataque repentino pôs termo aos dias do cônego Manuel de Freitas Magalhães, cujas últimas palavras, dirigidas ao seu muito prezado amigo, foram as seguintes:

– Então, Tomás, morro ou não?

E em poucos minutos morreu, com efeito, nos braços do Sr.

Conselheiro Dr. Tomás Gomes dos Santos.

Termina aqui o nosso último passeio à igreja de S. Pedro.

SEGUNDO VOLUME 

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

O Imperial Colégio de Pedro II

I

AINDA temos conventos e muitas igrejas que visitar. É, porem, indispensável que a variedade dos assuntos venha em meu socorro, para que eu tenha ainda companheiros e não me ache só nos meus passeios.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...106107108109110...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →