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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

— Melhor; não é preciso fazer pontaria. 

Tocou-me alarma na Oiticica e imediatamente começaram os preparativos para receber o inimigo. A posição da fazenda oferecia todas as condições favoráveis à defesa; e a construção do edifício principal fôra de algum modo copiada das casas fortes, fortes, em que então muitos fazendeiros ricos eram obrigados por segurança a ter sua moradia. 

Uma hora depois do aviso de Arnaldo, avistou-se uma grande nuvem de poeira. Era o Marcos Fragoso com sua bandeira. 

O Daniel Ferro chegara de Inhamuns naquela madrugada com sua gente; e o Fragoso, irritado com o malôgro da véspera, resolveu marchar para a Oiticica sem mais demora. Tinha êle então às suas ordens cêrca de quatrocentos homens, que dividiu em três bandeiras, tomando uma para si, e dando as outras ao Daniel Ferro e João Correia. 

Arnaldo, que seguira durante a noite o rasto da escolta do Onofre, lá pela madrugada encontrou-se com o Aleixo Vargas, que vinha adiante como explorador. Percebendo a presença do sertanejo, o Moirão escondeu-se; mas conhecendo que já estava descoberto, marchou direito ao rapaz. 

— Estimei encontrá-lo, amigo Arnaldo. 

— Também eu, Aleixo Vargas. lembra-se do que lhe disse vai para um mês? Que se o achasse a uma légua da Oiticica… 

— A que vem isso agora? 

— Pelo jeito parece que você está em caminho para lá; e então pergunto-lhe, se já encomendou sua alma a Deus? 

— A coisa não é como pensa, Arnaldo; sou eu quem lhe avisa, como seu amigo, que não torne mais à Oiticica, senão está perdido. Tome outro rumo, rapaz. 

— Mas então o que está para acontecer? 

O Moirão pôs o sertanejo ao corrente do que se havia passado, e da expedição que marchava naquele instante para a fazenda do capitão-mór. 

— Obrigado pelo aviso, amigo Aleixo Vargas. Eu não carecia dele, tornou Arnaldo, mostrando o vulto de Jó que aparecera entre a ramagem. Mas sempre lhe digo que veja o que faz; eu só tenho uma palavra. 

O vaqueiro dirigiu-se ao velho que lhe disse rapidamente em voz baixa: 

— Quatrocentos. 

O velho chegava naquele instante de uma excursão. Havia entre essas duas almas, a do solitário e a do sertanejo, tão íntima comunicação, que muitas vezes não careciam falar, para entenderem-se entre si e transmitirem-se os seus pensamentos. 

Leve mudança de fisionomia, rápido toque de gesto, ou relance d’olhos, eram sinais imperceptíveis para estranhos; mas para êles caracteres vivos, em que liam tão correntemente como em um livro aberto. 

O algarismo quatrocentos, que o velho acabava de murmurar não era senão a conclusão do diálogo quase instantâneo, que o seu olhar trocara com o de Arnaldo. O semblante do velho anunciara a chegada do inimigo, e o vaqueiro o interrogara sôbre a fôrça que ameaçava a Oiticica. 

Nesse momento recordou-se Arnaldo da viagem de Jó, sôbre a qual ainda não tivera ocasião de trocar uma palavra: 

— E Anhamum? perguntou Arnaldo. 

— Quando partí, êle convocava seus guerreiros. 

Foi então que Arnaldo, depois que deixou o velho Jó em segurança na caverna, correu à Oiticica para levar a notícia ao capitão-mór. 

As três bandeiras do Marcos Fragoso tomaram posição em volta as casarias da fazenda e estabeleceram um cêrco em regra, a fim de cortar toda a comunicação exterior, e evitar que o capitão-mór mandasse aviso à numerosa parentela de Russas, que logo acudiria em seu auxílio. 

Quando Campelo viu o poder de gente com que vinha o Marcos Fragoso, e reconheceu que não tinha fôrças para sair-lhe imediatamente ao encontro e castigar aquela ousadia, o seu orgulho rugiu-lhe n’alma como um tigre na jaula. 

Êle que nunca até êsse momento, em uma vida de cincoenta anos, sofrera um insulto em face, nem encontrara resistência à sua vontade, ser de repente assim afrontado, e não poder esmagar o insolente que o provocava! 

Nas circunstâncias em que achava-se, com sua bandeira reduzida pela expedição do Agrela à Barbalha, uma sortida seria um ato de desespêro, que sacrificaria o melhor de sua gente e entregaria a casa e os moradores aos assaltantes. 

Não tinha remédio, pois, senão recalcar o seu ímpeto, e aproveitar os recursos que lhe oferecia a Oiticica para uma defesa tenaz, enquanto podia mandar um emissário a seu cunhado Gameiro em Russas. 

Concentrou-se, porém, tão profundamente aquela soberba, que desde a chegada do Fragoso às terras da Oiticica não proferiu mais uma palavra e em pé no meio do terreiro esperou o ataque iminente. 

(continua...)

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