Por José de Alencar (1857)
A menina que fora incumbida de servir ao prisioneiro, e o acompanhara ao lugar do sacrifício, conservava-se a alguma distancia e olhava tristemente todos esses preparativos; pela primeira vez seu instinto natural parecia revelar-lhe a atrocidade desse costume tradicional de seus pais, a que ela tantas vezes assistira com prazer.
Agora que ia representar como heroína no drama terrível, e como esposa do prisioneiro devia acompanhá-lo até o momento supremo, insultando-lhe a dor e a desgraça, o seu coração confrangia-se porque realmente amava Peri, tanto quanto era possível a uma natureza como a sua amar.
Chegados ao campo, os selvagens que conduziam o prisioneiro passaram as pontas da corda ao tronco de duas árvores, e esticando o laço o obrigaram a ficar imóvel no meio do terreiro. Os guerreiros desfilaram em roda entoando o canto da vingança; as inúbias retroaram de novo; os gritos confundiram-se com o som dos maracás, e tudo isso formou um concerto horrível.
À medida que se animavam, a cadência apressava-se: de modo que a marcha triunfal dos guerreiros se tornava uma dança macabra, uma corrida veloz, uma valsa fantástica, em que todos esses vultos horrendos, cobertos de penas que brilhavam à luz do sol, passavam como espíritos satânicos envoltos na chama eterna.
A cada volta que fazia esse sabbat um dos guerreiros destacava-se do circulo, e adiantando-se para o prisioneiro o desafiava ao combate, e conjurava-o a que desse provas de sua coragem, de sua força e de seu valor.
Peri, sereno e altivo, recebia com um soberbo desdém a ameaça e o insulto, e sentia um certo orgulho pensando que no meio de todos aqueles guerreiros fortes e armados, ele, o prisioneiro, o inimigo que ia ser sacrificado, era o verdadeiro, o único vencedor.
Talvez pareça isso incompreensível; mas o fato é que Peri o pensava, e que só o segredo que ele guardava no fundo de sua alma podia explicar a razão desse pensamento e a tranqüilidade com que esperava o suplício.
A dança continuava no meio dos cantos, dos alaridos e das constantes libações, quando de repente tudo emudeceu, e o mais profundo silêncio reinou no campo dos Aimorés.
Todos os olhos se voltaram para uma cortina de folhas que ocultava uma espécie de cabana selvagem, construída a um lado do campo em face do prisioneiro.
Os guerreiros se afastaram, as folhas se abriram, e entre aquelas franjas de verdura assomou o vulto gigantesco do velho cacique. Duas peles de tapir ligadas sobre os ombros cobriam seu corpo como uma túnica; um grande cocar de penas escarlates ondeava sobre a sua cabeça e realçava-lhe a grande estatura.
Tinha o rosto pintado de uma cor esverdeada e oleosa, e o pescoço cingido de uma coleira feita com as penas brilhantes do tucano; no meio desse aspecto horrendo os seus olhos brilhavam como dois fogos vulcânicos no seio das trevas. Trazia na mão esquerda a tangapema coberta de plumas resplandecentes, e amarrada ao punho direito uma espécie de buzina formada de um osso enorme da canela de algum inimigo morto em combate.
Chegando à entrada do campo o velho selvagem levou à boca o seu instrumento bárbaro, e tirou dele um som estrondoso: os Aimorés saudaram com gritos de alegria e de entusiasmo o aparecimento do vencedor.
Ao cacique cabia a honra de ser o algoz da vitima, o matador do prisioneiro; seu braço devia consumar a grande obra da vingança, esse sentimento que constituía para aqueles povos fanáticos a verdadeira glória.
Apenas cessaram as aclamações com que foi acolhida a entrada do vencedor, um dos guerreiros que o acompanhavam adiantou-se e fincou na extrema do campo uma estaca destinada a receber a cabeça do inimigo, logo que ela fosse decepada do corpo.
Ao mesmo tempo a jovem índia que servia de esposa ao prisioneiro, tirou o tacape que pendia do ombro de seu pai, e caminhando para Peri desligou-lhe os braços e ofereceu-lhe a arma, fitando nele um olhar triste, ardente e cheio de amarga exprobração.
Nesse olhar dizia-lhe que se tivesse aceitado o amor que lhe oferecera, e com o amor a vida e a liberdade, ela não seria obrigada pelo costume tradicional de sua nação a escarnecer assim da sua morte.
Com efeito esse oferecimento que os selvagens faziam ao prisioneiro, de uma arma para se defender, era uma ironia cruel: ligado pelo laço que o prendia, imóvel pela tensão da corda, de que lhe servia vibrar o tacape no ar, se não podia atingir os inimigos?
Peri aceitou a arma que a menina lhe trazia; calcando-a aos pés cruzou os braços e esperou o cacique que avançava lentamente, terrível e ameaçador.
Chegando em face do prisioneiro, a fisionomia do velho esclareceu-se com um sorriso feroz, reflexo dessa embriaguez do sangue, que dilata as narinas do jaguar prestes a saltar sobre a presa.
— Sou teu matador! disse em guarani.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Guarani. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.