Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– Nunca, Celina.
A “Bela Órfã”, suspirou involuntariamente.
– Já suspiras, Celina?... quem sabe se eu não estive fazendo o teu retrato?... pois bem; sou tua tia... quase tua tutora, e portanto devo aconselhar-te; mas para bem fazê-lo preciso é antes ganhar uma confiança de que ainda não me julgaste merecedora, entrar no teu coração, ver o que nele se passa, para depois dizer o que convém.
Mariana, fingindo ignorar o segredo de amor de sua sobrinha, queria levá-la pouco a pouco a um fim que tinha no pensamento, e pelo qual promovera aquela conferência.
Porém Celina desconfiava de sua tia; guardou mais que nunca o seu segredo, e nada respondeu.
– Então ficas muda?... perguntou a viúva. Será possível que penses em fazer-me crer que ainda não sonhas belos sonhos de amor, tendo já dezesseis anos de idade?...
– Muito moça ainda, não é assim?
– Por certo que não és nenhuma velha; e contudo estás em idade de casar.
– Tão cedo?...
– Não no nosso país, Celina, onde tudo é rápido e precoce. Enfim, eu sou tua tia, meu pai é teu tutor, e por dever santo e respeitável devo procurar para ti um estado... uma posição.
– Obrigada, minha tia.
– Temos entendido que é tempo de te casar, não só para fazer a tua ventura, como para completar a nossa missão e conseguir o nosso sossego.
– Para o vosso sossego... eu creio, mas para minha ventura!...
– Para tua ventura também, sim; e graças a Deus, meu pai e eu não somos duas crianças como tu és, Celina.
– Por que, minha tia?
– Porque, na questão da escolha de um marido, tu cortarias todas as dificuldades com o coração, e nós decidiremos tudo com o juízo.
– Ah! sim!...
– Um marido é o homem que deve acompanhar-nos toda a vida...
– Provavelmente, minha tia.
– O homem de quem tomamos o nome, a posição e as amizades.
– Eu o pensava já.
– E portanto, quando se trata de uma escolha dessa natureza, toda a prudência se faz necessária.
– Sem dúvida.
– Nós queríamos para teu marido um moço bonito, de boas qualidades, de bom nome e de boa fortuna.
– Às vezes é difícil achar-se tanta coisa junta.
– Tivemos a felicidade de encontrar um que preenche nossos desejos...
– Ah! então já, minha tia?... sem que eu ao menos o suspeitasse?
– É verdade; um interessante mancebo veio pedir-nos a tua mão.
– Realmente foi um pouco apressado... nem ao menos procurou conhecer a minha opinião.
– Já sabes quem é?...
– Não, senhora.
– Vê se adivinhas.
– Não pretendo incomodar-me com isso.
– Por quê?... perguntou Mariana, que se ia impacienetando um pouco.
– Por nada, minha tia, respondeu secamente a “Bela Órfã”.
– Estás zombando comigo, Celina?...
– Não, minha tia.
– Queres que te diga o nome desse moço?...
– Se lhe parecer conveniente.
– É o sr. Salustiano.
– Ah!
– Tens que dizer alguma coisa?
– Nada... eu, nada. Minha tia é que um dia me disse que aborrecia o sr.
Salustiano como se aborrece um malvado.
Escapou aos olhos de Celina um movimento rápido de Mariana.
– Eu estava em erro, disse esta sem hesitar.
– Apesar disso, minha tia, e apesar de todas as grandes e nobres qualidades que ornam esse mancebo, sou obrigada a declarar, desde já, que não serei sua mulher
– Por quê?... perguntou a viúva.
– Porque amo a outro, respondeu sem hesitação nem temor a “Bela Órfã”.
Mariana ficou por alguns momentos olhando para aquela fraca e modesta menina, que pela primeira vez a surpreendia com um sinal de caráter decidido e forte.
– Amas, já?... perguntou enfim a viúva.
– Já o declarei, senhora.
– E a quem amas, minha pobre Celina?
– Ao sr. Cândido.
– E ele?...
– Ama-me também.
– Infeliz!... tu foste enganada!...
Celina não demonstrou nem surpresa, nem receio, nem desgosto. Desconfiava de tudo quanto lhe dizia Mariana; deixou-se ficar em silêncio, olhando e sorrindo para sua tia.
– Duvidas do que eu digo?...
– Muito, senhora.
– E se eu te der uma prova?...
Celina continuou a sorrir meigamente. Mariana lançou a mão ao bolso de seu vestido, tirou dele uma pequena carta, e entregou-a à “Bela Órfã”.
Celina abriu a carta e leu-a. Seu rosto cobriu-se de mortal palidez. Era a carta que a mulher de mantilha havia conseguido de Cândido.
– E agora?... perguntou cruelmente Mariana.
– Agora?... não sei... duvido ainda, respondeu a custo, e erguendo-se a “Bela Órfã”.
– Onde vai, Celina?
– Preciso recolher-me e ficar só, senhora.
Celina já estava na porta.
– E o sr. Salustiano?
A moça voltou-se e respondeu quase com altivez:
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.