Por Lima Barreto (1911)
Os outros repetiam a mesma coisa e eu estava diante daquilo tudo completamente besta. Não haveria um remédio, um meio de esclarecer aqueles tolos todos de que eu não tinha tais predicados. Os oradores acabaram e vivas foram erguidos.
— Viva o Dr. Manoel da Silva! Viva o nosso salvador! Viva!
Quando acabaram, o capitão intimou-me ferozmente:
— Fale!
Não tive outro remédio senão gaguejar qualquer coisa, que foi ouvida no maior silêncio. Não saí mais do hotel e, à noite, ouvi o espocar de fuzis, tropel na rua, uma bulha de grosso motim.
No dia seguinte, soube que haviam empastelado o jornal da jornal do governo, destroçado a polícia, atacado o palácio e o governador renunciara. O capitão não tardou a procurar-me prazenteiro:
— O patife do Bastos saiu. Agora o governo está com o Guedes que é nosso. A sua posse é depois de amanhã.
Recebia aquelas notícias cheio de terror, de medo que semelhante aventura não resultasse na minha morte. Se soubessem que eu não era o tal “salvador”, certamente matavam-me.
Aquilo me parecia um mero sonho, um pesadelo ou senão um capítulo de um romance jocoso. Onde iria parar, meu Deus?
O hoteleiro continuava com as suas zombarias e, durante a véspera da posse, não tive mãos a medir para atender às visitas. Dizia-me um: fui eu quem lançou a sua candidatura; dizia-me outro: fui eu quem o defendeu nos jornais. Os próprios situacionistas me procuravam, propunham acordos, “modus vivendi”. Não lhes respondia coisa com coisa e partiam fazendo uma triste idéia do seu “salvador”; entretanto continuavam a buzinar nos seus jornais que eu era um homem de raro talento, extraordinário.
Chegou o dia da posse e, quase arrastado pelo tal capitão, levaram-me ao Congresso e me dispus a acabar com a farsa. Um paquete entrava na baía despejando pelas chaminés grossas baforadas de fumaça.
Reuniram-se os congressistas e, quando eu ia prestar o compromisso, entra pela sala um sujeito pequeno e louro, que gritava:
— Não é este o Dr. Manoel da Silva; sou eu.
Os congressistas ficaram petrificados, ninguém sabia o que dizer e o tal sujeito continuou a gritar.
— Não é este, sou eu.
Na sala, logo se formaram dois partidos: um a meu favor, outro a favor do recém chegado.
Houve uma barafunda geral, gritos, palavrões, começo de discursos. Daqui se gritou:
— É ele! É!
Dali se berrou:
— Não é! Sai usurpador!
No meio daquela barulhada, daquele berreiro, fiquei mais morto do que vivo. A bulha continuou e cada vez mais feroz. Por fim veio a calma e pude dizer:
— Deve ser esse senhor, porque eu não sou.
Houve propostas de morte, mas a maioria me protegeu e eu pude sair. E foi assim que escapei de “salvar” o Estado de Carapicus.
CAPÍTULO III
DEI ALGUNS PLANOS E PINTEI A BATALHA DE SALAMINA
O que se passou comigo no Estado dos Carapicus pode parecer impossível a quem não estiver lembrado da situação de desmando por que passava àquela época a política brasileira. Se até então um resto de pudor faziam com que se disfarçassem as violências e as ilegalidades, apoiados pela força federal, ao serviço de ambiciosos saídos de seu seio ou fortemente protegidos por pessoas influentes nela, os sindicatos políticos faziam o que entendiam e não guardavam conveniências.
Havia exigências terríveis nas leis para as eleições de governadores, como fossem: um dilatado prazo de residência no Estado, não exercer algum tempo antes das eleições cargos de mando e outros; mas, quando se tratava de ajuntar Fulano ou Beltrano para usurparem as governanças regionais, não atendiam a isso e procuravam pessoas que dispusessem da dedicação do Presidente ou de homens que, por sua vez, dominassem o ânimo presidencial.
(continua...)
BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.