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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

Ambrosina fingiu não dar por isso, mas a impressão daquele olhar, tão contrária a de todos os outros que ela essa noite recebera, lhe ficou doendo por dentro como imperceptível espinho cravado no seu melindroso orgulho de mulher formosa. Um simples olhar, talvez involuntário, e vindo distraidamente de olhos desconhecidos, bastou para toldar com uma pontinha de fel o triunfante humor, em que a leviana palpitava de vaidade no efêmero predomínio das suas graças.

Foi já nervosa que ela, ao chegar à casa, disse à criada, arremessando leque, luvas e chapéu:

— Sirva­me um banho tépido com bastante vinagre de Lubin, e tire um peignoir daqueles que estão

na caixa de seda cor­de­rosa; a ceia que lhe encomendei traga­a para a saleta da alcova, não precisa deixá­la à mostra, ponha­a sobre a mesa de charão por detrás do biombo dourado; depois feche as portas da sala de jantar, e pode recolher­se; se o John ainda estiver acordado, diga­lhe que também o dispenso; deixe a porta da rua aberta... Mas avie­se, que espero por alguém, e são horas!

E daí a pouco, Ambrosina, mergulhando o mármore do seu corpo no cheiroso e opalino banho, murmurava sozinha:

— Maldito sujeito que me olhou daquele modo! Desejo­lhe a morte! E Deus que me ouça!

Esse sujeito, contra cuja vida lançava tão feia praga a formosa criatura, era o nosso altaneiro Gustavo, que naturalmente nem sequer suspeitaria ocupar naquele momento o endiabrado espírito da mulher mais espaventosa do alto coquetismo fluminense.

Entretanto, a torre de São Francisco começava a derramar lugubremente no silêncio das ruas as doze badaladas da meia­noite, e por esse tempo o sombrio vulto do Médico Misterioso, cabeça baixa e passos tardios, tomava a direção da casa da Condessa Vésper, sem desconfiar que era por alguém observado e seguido a distância.

Encontrou a porta da rua aberta e o corredor às escuras, entrou e subiu as escadas, sem olhar para trás!

Lá em cima foi recebido pela própria Ambrosina, que, como acabamos de ver, se havia preparado intencionalmente para aquela entrevista.

Vestia ela um amplo penteador de rendas transparentes, que deixavam adivinhar meia verdade do mistério das suas formas, calçava meia de seda listrada e chinela turca. Tinha os cabelos submetidos a uma trança única, que lhe caía nas costas como uma serpente viva, e os braços libertavam­se das fartas mangas do roupão e apareciam dominadores na sua pecaminosa nudez, apenas algemados por um par de pulseiras circassianas.

Quando Gaspar penetrou na voluptuosa câmara, dubiamente iluminada por uma lâmpada cor de lírio, sentiu­se abalado por uma doce e estranha saudade, que o transportava suavemente às cenas da sua juventude. A memória de Violante assistiu­lhe ao coração de um modo doloroso e lúcido, e ele parou, comovido, a contemplar Ambrosina estendida no divã.

A tentadora sorria, a fumar um cigarro de tabaco oriental, e, com um gesto delicioso, disse­lhe que corresse o reposteiro da porta e fosse assentar­se ao lado dela.

O médico obedeceu, quase sem consciência do que fazia.

— Estamos em completa liberdade, acrescentou Ambrosina, beijando­lhe as mãos. Podemos conversar de coração aberto...

— Aqui me tem, balbuciou Gaspar. Vamos a saber o que me ordena...

— Que não me fales desse modo... eis o que te ordeno antes de tudo... Quero­te mais camarada, mais íntimo, mais chegado a mim...

E arrastou­se toda ela para ele, puxando para o seu colo a cabeça do médico.

— Vamos... disse este, desviando­se; falemos do que importa... Deste modo não chegaremos a nenhuma conclusão!...

— Há tempo!... contrapôs Ambrosina, quase ressentida. Façamos primeiro uma ceiazita à la bohême. Estou com apetite, e temos aqui mesmo o que trincar, sem precisarmos de ninguém.

E, tapando com as mãos os ouvidos para não escutar os protestos da visita, correu a buscar a mesinha de laca, e ela mesma serviu ostras frescas, pão, espargos, morangos e champanha.

Em seguida, fez Gaspar assentar­se à mesa e, pondo­se de novo ao lado dele, pediu­lhe que abrisse a garrafa, e ia já atacando as ostras, muito lambareira e sensual, a lamber com língua de gata a rósea ponta dos dedos e a dar estalinhos com a língua contra o céu da boca.

O médico mal tocava no prato por comprazer; dizia­se indisposto e começava, contrariado, a franzir as sobrancelhas; Ambrosina, porém, não desanimava e, enquanto comia e bebia, fazia­lhe infantis carícias e conversava alegremente.

Palraram sobre a viagem no dia seguinte, veio a pêlo a famosa carta por ela dirigida a Gabriel, e Ambrosina a reclamou logo; queria queimá­la, para que não permanecesse vestígio do seu primitivo amor.

Gaspar concordou e apressou­se a sacar a carta do bolso. Veio com ela de envolto uma fotografia.

— E de alguma mulher?!... Deixa­ma ver! pediu Ambrosina, com grande empenho.

— Qual mulher! É de um sobrinho meu... Aí a tem veja!

Ambrosina ficou séria. o retrato era do rapaz que tão insolitamente a fitara à saída do Alcazar.

— Quem é este sujeito?...

— Um sobrinho meu, acabo de dizer.

— Chama­se?...

— Gustavo Mostella.

— Ah!

(continua...)

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