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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Na tarde seguinte, os músicos reuniram-se outra vez. Antes, porém, de começarem a tocar, inesperadamente receberam um maço de papéis de música que de presente lhes mandava o padre José Maurício. Examinando os papéis, encontraram uma coleção de sonatas ou de divertimentos, como os chamou o seu autor. No primeiro momento, apenas por civilidade começaram os músicos a ensaiar os divertimentos. Em breve, porém, a curiosidade os excitava, logo depois uma espécie de encanto se apoderava deles e, enfim, o mais vivo entusiasmo os arrebatava a todos.

Esses divertimentos não se conhecem no Brasil. Os músicos alemães os levaram consigo, e o original que ficou em poder do padre José Maurício perdeu-se muitos anos depois. Informam-me, porém, que uma cópia deles existe no repertório ou arquivo musical do conde de Farrobo, em Portugal.

O padre José Maurício morreu a 18 de abril de 1830, pelas 6 horas da tarde, na casa nº 18 da Rua do Núncio, onde então morava. O grande compositor de músicas sacras expirou cantando o hino de Nossa Senhora.

O padre Luís Gonçalves dos Santos apenas soube do falecimento do seu antigo mestre, correu a oferecer-se para amortalhá-lo por suas mãos. Já achou, porém este piedoso dever cumprido pelo Sr. Dr.

José Maurício Nunes Garcia, digno filho daquele homem ilustre.

Existe um retrato muito fiel do padre José Maurício Nunes

Garcia, devido ao amor filial e à habilidade daquele mesmo Sr. Dr. José Maurício, a chamado do qual o Sr. Manuel de Araújo Porto Alegre, no dia do falecimento do abalizado mestre, fez também tirar uma máscara em gesso das suas feições, máscara que se acha no Museu Nacional, fazendo boa companhia às de Dante, Tasso, José Bonifácio, Antônio Carlos e Januário Arvelos.

No dia 1º de dezembro de 1844, faleceu, e no seguinte foi sepultado na igreja de S. Pedro o cônego Luís Gonçalves dos Santos, que quarenta e cinco anos antes havia entrado para a irmandade do príncipe dos apóstolos.

Era ele natural da cidade do Rio de Janeiro, onde também fora educado, e desde os seus primeiros anos mostrou a mais decidida aptidão para a carreira das letras, em que, aliás, teve de vencer não pequenos embaraços em conseqüência de desarranjos de fortuna experimentados por sua família.

De estatura muito menos que ordinária, extremamente magro, sofrendo quase constantemente ataques de asma, e apesar disso escrevendo e estudando sem cessar, o padre Luís Gonçalves dos Santos era um argumentador infatigável e ardente, falava com facilidade e exaltação, e talvez por tudo isso, lhe deram a desagradável alcunha de padre Perereca, pelo qual era de todos conhecido.

A ele se deve uma obra importante, as Memórias para servir à História do Brasil, trabalho minucioso que dá conta de todos os fatos passados desde a chegada da família real portuguesa ao Brasil até o ano de 1821.

Além desta obra, foi o cônego Luís Gonçalves um dos primeiros a escrever defendendo os direitos do Brasil na época que precedeu imediatamente a independência, abundando muito em outros escritos e notavelmente em um opúsculo combatendo a maçonaria, e esses outros em que, com ardor e talvez violência, arcou com o benemérito padre Diogo Antônio Feijó, quando este atacava o celibato clerical.

Não quero estender mais a lista dos mortos cujas recordações encontro no obituário da irmandade de S. Pedro. Não posso, porém, esquecer, e lembrarei por último o cônego Manuel de Freitas Magalhães, a quem devo, além de um tributo ao seu merecimento real, uma dívida que não importa coisa alguma para os meus companheiros de passeio, mas que para mim importa muito, porque o cônego Manuel de Freitas Magalhães foi o meu primeiro mestre, e mestre somente por amizade e dedicação a meu pai. Dir-me-ão que o público nada tem que ver com isso. Convenho. Creio, porém, que um homem, depois de escrever doze páginas para o respeitável público, pode muito razoavelmente ter o direito de escrever duas ainda para o mesmo público, e principalmente para o seu coração.

Em uma palavra: ufano-me de saber pagar minhas dívidas.

O padre Manuel de Freitas Magalhães era natural da vila do Espírito Santo, na província do mesmo nome, e filho legítimo de João de Freitas Magalhães e de Ana da Encarnação. Foi batizado no dia 17 de fevereiro de 1787, tendo nascido no mesmo ano.

Veio para o Rio de Janeiro em abril de 1822, na época ardente e entusiástica da independência, e fez-se notável, pronunciando-se manifesta e vivamente pela causa da pátria e ligando-se desde logo ao Partido Liberal, a que prestou serviços durante o reinado do Sr. D. Pedro I.

Deixando a capital do império, estabeleceu-se, em 1825, na vila de Itaboraí, onde permaneceu até o ano de 1835, em que, depois de um brilhante concurso, foi escolhido para vigário da freguesia de S. Gonçalo.

Desde a primeira legislatura provincial até à sua morte, foi sempre eleito membro da assembléia provincial do Rio de Janeiro, e por alguns anos presidiu a esta câmara.

(continua...)

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