Por José de Alencar (1875)
Quando Arnaldo conduziu Flor à casa, alí acabava de chegar o Leandro Barbalho.
Foi o tropel de seus animais que assustara o Onofre. À primeira notícia, êle arrependeu-se de ter salvado a virgem de sua adoração para vê-la noiva de outro. Não seria melhor morrer com ela vingando-a?
O sobrinho do capitão-mór, encontrando a casa em desordem, ouvia do Padre Teles a narração dos estranhos sucessos, quando soube da volta de D. Flor.
Pareceu-lhe inconveniente falar à prima na ausência dos pais e porisso limitou-se a mandar por Alina recado, do pesar que tivera com o desacato feito à sua pessoa.
XVII – A intimação
Depois dos acontecimentos que na véspera à tarde haviam perturbado o sossêgo da Oiticica, era natural que seus moradores prolongassem um tanto pela manhã o repouso da noite.
Arnaldo apenas restituira Flor à casa, partiu no Corisco em seguimento do capitão-mór, que só encontrou a três léguas de distância, já de volta.
A notícia que levava-lhe o seu vaqueiro o encheu de tamanha alegria, que êle esqueceu-se a ponto de abraçar a mulher diante de toda a gente, e fez o mesmo ao rapaz.
Chegando à casa, depois das efusões do contentamento de ver a filha, entrou com o sobrinho e o capelão em conferência acêrca das ocorrências extraordinárias que se acabavam de passar; na ausência do Agrela, foi o padre Teles incumbido de escrever duas cartas aos parentes de Russas e Aracatí, chamando-os a toda pressa com a gente que pudessem juntar.Leandro Barbalho partiria no dia seguinte para reunir uma bandeira no ouricurí; enquanto o Arnaldo seria incumbido de avisar todos os moradores espalhados pelos campos de Quixeramobim até à serra do Baturité.
O Campelo tinha jurado por suas barbas que havia de castigar o Fragoso ainda que fosse preciso arrasar todo o Inhamuns.
— Hei de trazê-lo à Oiticica amarrado como um negro fugido; e depois de bem surrado, o padre Teles o casará com a negra mais cambaia da fazenda.
Depois da conferência recolheu-se o fazendeiro, mas a-pesar-das fadigas e comoção da véspera, ao romper do dia já estava de pé e saíu fora ao terreiro. Ainda todos dormiam; pela primeira vez deixara-se de ouvir na fazenda o toque de alvorada à hora costumada.
Viu o capitão-mór esvoaçar um bando de urubús à beira da mata e pousar no campo. Embora seja êsse um acidente muito comum nas fazendas de criar, desperta sempre a atenção do dono e de seus vaqueiros.
Caminhou Campelo até o fim do terreiro; e daí pôde confusamente avistar os pedaços de carniça, espalhados pelo chão, e que atraíam os abutres. Atinou que eram os corpos dos dois sequazes mortos na véspera pelo tiro de seu bacamarte, e despedaçados pelas patas dos cavalos, quando corriam atrás de Corrimboque.
O capitão-mór não era sanguinário; mas nessa ocasião experimentou um esquisito prazer com aquele espetáculo, e sentiu que não estivessem estendidos no campo todos os sequazes do Fragoso, para que êle os esmagasse sob as patas de seu ruço.
Com pouco apareceu Leandro Barbalho, que j-á vinha em hábitos de viagem, e só esperava para pôr-se a caminho, que o pagem lhe trouxesse a cavalgadura.
O sobrinho do capitão-mór, filho dos Carirís, onde residiam seus pais antes de mudarem-se para o outro lado da serra do Araripe, era mancebo de trinta anos, de baixa estatura, mas robusto, com ombros largos e a cabeça chata, tipo mais comum do sertanejo cearense e que o distingue de seus vizinhos das províncias limítrofes. Tinha o parecer franco e jovial.
— Pronto, sobrinho? disse Campelo ao avistá-lo.
Barbalho beijou a mão do capitão-mór com respeito filial e respondeu:
— Já podia estar em caminho, se não fosse a demora do pagem.
— Assim foi bom, porque ontem não tivemos tempo de falar sôbre um particular. Sabe por que o mandámos chamar, sobrinho?
— O senhor dirá, meu tio.
— Nós o escolhemos para marido de nossa filha D. Flor.
— Como for de sua vontade, senhor meu tio.
— Vá buscar a gente para ensinarmos ao atrevido do Fragoso, e na volta cuidaremos do noivado.
Ouvindo o galope de um cavalo, o capitão-mór voltou-se, e viu Arnaldo que subia o tombador a toda a carreira do Corisco. Chegando ao terreiro, sem dar-se ao trabalho de parar o animal, o rapaz saltou da sela e caminhou para o fazendeiro.
Depois dos últimos acontecimentos, a súbita vinda do sertanejo àquela hora, sua brusca parada e a inquietação de seu gesto, eram de natureza a dar rebate de novos perigos.
Não obstante, o capitão-mór esperou sem nenhuma alteração a notícia, que lhe trazia o rapaz.
— O Fragoso aí vem, sr. capitão-mór.
— Pois atreveu-se?
— E traz muita gente.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.