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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

— Ah! eu vejo, pois, que me enganei; ouvi a Sr.ª D. Ema repetir-me o conteúdo da carta que ontem se recebeu do meu querido filho, e vinha alegrar-me com a outra minha filha... é que eu tinha para mim que a maior felicidade que me podia ainda vir no mundo, era ver unidos os dois entes que alimentei com meu leite...

— Também tu, mãe Lúcia! exclamou a moça chorando amargamente.

— Mas eu não entendo por que a senhora está chorando assim...

— Ainda bem!... ainda bem que o não entendes!...

— Devo crer que é por não desejar casar-se com seu primo; pois por ele respondo eu: o senhor Lauro não é capaz de abusar de sua posição...

— Mãe Lúcia!

— Parece-me, porém, que, se a senhora chegar a vê-lo, há de mudar de opinião... olhe, menina, não se parece nada com o outro...

— Com o outro?... que outro?... perguntou estremecendo Honorina, que tinha sempre o pensamento no moço loiro.

— O outro que cá veio, há poucos dias, pedi-la em casamento, que foi pela senhora malaceito, e que, apesar disso, não sei por que teima em voltar ainda...

— Pois ele tem voltado?...

— Está aí agora a praticar com o Sr. Hugo de Mendonça e com a senhora sua avó.

— Mãe Lúcia, disse Honorina levantando-se e enxugando os olhos, eu quero ouvi-los.

— Nada é mais fácil: a porta, que dá para o gabinete de seu pai, está aberta.

— Pois vem comigo.

Um momento depois Honorina e Lúcia, apertadas contra a porta do gabinete de Hugo de Mendonça, ouviam tudo o que se passava na sala.

Ainda uma vez tratava-se de Honorina.

Estavam aí três pessoas: Ema, Hugo de Mendonça e Otávio.

Otávio não tinha tido a paciência precisa para esperar pelo dia do vencimento da primeira letra; com toda a sofreguidão de um homem apaixonado, sob o pretexto de vir antecipar a Hugo de Mendonça aquilo mesmo de que nenhum negociante honrado se pode esquecer, apresentou-se na casa dele.

Travou-se em breve entre os três uma polêmica forte e animada. Otávio mostrou-se sabido do estado dos negócios de Hugo, e imprudente, sem dúvida, ofereceu-se para salvá-lo à custa da mão de Honorina, aceitando como dote da moça a dívida de Hugo de Mendonça: em suma, Otávio impôs.

Ema, que já tinha defendido as pretensões de Otávio, e que agora temia ver sua neta casada com o moço que detestava, sustentou na presença daquele a conveniência do casamento que lhes vinha propor; e, exasperada pela oposição de seu filho, declarou a Otávio que contasse com a sua aprovação.

Hugo de Mendonça, enfim, em quem a desgraça parecia haver criado resolução e força, respondeu com dignidade à imposição de Otávio e ao empenho de sua mãe.

— Senhor, exclamou o negociante olhando para Otávio, não chegou ainda nenhum dos dias em que se vencem as letras, que lhe devo pagar e lhe pagarei; só então, se eu faltar aos meus deveres, lhe será lícito vir impor-me condições!

— Senhora, continuou dirigindo-se à sua mãe, eu me espanto da parte animada que minha mãe toma em favor das pretensões do Sr. Otávio; mas minha mãe sabe que primeiro arrastarei a miséria, do que consentirei que minha filha sacrifique seu coração à minha fortuna!

— Senhor! disse ele ainda uma vez a Otávio: dentro em dois dias eu conto que estarão terminados todos os negócios que entre nós se acham pendentes; no entanto, espero que se convença, de uma vez para sempre, que eu não considero minha filha uma letra de câmbio, nem uma mercadoria com que possa negociar; que eu não vendo minha filha por nenhum preço; que jamais consentirei em vê-la sacrificada ao homem que não pode amar!

Escutando semelhante conclusão, Otávio despediu-se vivamente agitado; e foi com acento de concentrado despeito que ele disse sem apertar a mão de Hugo:

— Até depois de amanhã!

— Sem dúvida, respondeu o negociante vendo-o sair; até depois de amanhã!

Honorina apenas viu a sós seu pai e sua avó, ia de novo recolher-se à sua câmara, quando se suspendeu a voz de Hugo que se dirigia a Ema.

— Minha mãe, disse o filho; parece que me não deve ser oculta a razão por que tanto se mostra empenhada a favor do homem que acaba de sair daqui.

— Há duas razões, disse a velha com rispidez.

— Posso eu sabê-las?...

— Sim; eu vejo prestes a cair a casa que tanto trabalhamos para levantar; essa queda trará a vergonha de todos nós; e o casamento que se propõe é um meio de preveni-la tão fácil como decoroso.

— Mas minha mãe devia lembrar-se que Honorina já disse uma vez que não são iguais as proposições deste mesmo homem.

— Honorina há de dizer que sim, quando pensar que é esse o único meio de salvar sua família.

— Mas o pai de Honorina não há de consentir semelhante sacrifício! eu sei que, se ela ouvir a minha mãe, responderá chorando — sim; fique, porém, minha mãe sabendo que o pai de Honorina dirá por sua vez — não!

A velha fez um movimento de cólera, que não escapou aos olhos de Hugo de Mendonça. — Sossegue, minha mãe; bem vê que se está tratando de minha filha. Vamos à segunda razão.

(continua...)

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