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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

Em torno das mesinhas de mármore, homens e mulheres, aos magotes, vozeavam, numa estrepitosa concussão de línguas, em que a francesa era a mais atropelada. Fervia o champanha por toda a parte, e por todos os grupos faiscavam diamantes e jóias de alto preço. Havia toilettes das loureiras, um luxo de espetáculo d'ópera, e as carruagens, estacionadas na rua à espera delas, formavam serpentes que abrangiam quarteirões.

Sob a pobre e melancólica folhagem de bambus de que constava o jardinzinho do famoso caféconcerto e que atormentada pela luz mordente do gás, parecia minguar de nostalgia, saudosa da frescura dos seus campos, rolava todas as noites, na mesma onda, a inconsciente e barulhosa prodigalidade dos herdeiros ricos e a torturante pantomimice dos fingidos argentários. Viam­se os elegantes de chapéu de feltro claro e luvas de cor, empunhando inquietadores bengalórios encabeçados de ouro; viam­se rutilantes e agaloadas fardas da Marinha e do Exército, em contraste com as joviais casacas negras dos cançonetistas parisienses, que vinham cá fora, nos intervalos dos atos, escorrupichar, a barba longa e de camaradagem com o público, o seu gelado grogue à la américaine. Destacavam­se os sangüíneos e atochados tipos dos ricos fazendeiros do interior da província ou do fundo de Minas e São Paulo, sequiosos por atirar às goelas da pândega fluminense um bom punhado de contos de réis da sua última safra de café; alguns desses, mal chegados essa mesma noite, ainda conservavam as suas botas da viagem e o seu poncho à moda do Sul.

Dentre o cheiro das perfumarias e dos pós de toucador, tresandava uma sutil e femeal rescendência pituitária, que punha nas ventas masculinas irracionais palpitações de faro.

Era ali, naquele teatrinho da estreita rua da Vala, entalado entre casas de comércio a retalho, que todas as noites a gente folgazã da Corte, e os mais que dela dependiam, iam buscar de ponto em branco o seu quinhão de gozo para os sentidos esfalfados; mas era lá também que muito desgraçado ia pedir ao ruído do alheio prazer o esquecimento das próprias agonias, de surdas e inconfessáveis dores, ou ia cavar, com um sorriso mais triste que o esgar de um enforcado, os dois mil­réis para as primeiras compras da casa no dia seguinte. Á sombra daqueles amarelecidos bambus, se encontravam os infelizes de toda a espécie, os infelizes que choram para fora, e os infelizes que choram para dentro; ao lado do vagabundo lamuriento e pedinchão, lá estava, em boa aparência, o mísero chefe de família desonrado pelo luxo da mulher e das filhas, o falido e risonho financeiro, vivendo, a cliquot e havana, à custa das regalias do seu débito à Praça; lá estava o político vendido e garboso da sua venalidade, e artista sem ânimo, e jornalistas dispépticos, e cômicos notívagos, e jogadores profissionais, e lindos mancebos de lábios alugados ao amor das dissolutas.

E desse elemento vário se compunha a enorme roda, que nessa noite cercava ruidosamente no Alcazar a formosa Condessa Vésper.

Ambrosina havia já criado, em torno dos seus cruéis sorrisos de amor, uma grande e rubra auréola de escândalos. Contavam dela fatos extraordinários de petulância e originalidade orgíaca, atribuíam­lhe no gênero todas as anedotas sem dono que vagavam pelo Rio de Janeiro, diziam com assombro os milhões que a Condessa desbaratara, as ruínas que a seus pés abrira, e as vítimas de amor que até aí fizera.

Ali, dentre todas aquelas almas escravas dos sentidos e despojadas de ideal, era ela talvez a única verdadeiramente feliz. Sentia­se radiante no meio da sua corte de libertinos, cercada de olhares suplicantes e aduladores sorrisos, alvo de desejos, de elogios e de invejas.

Em torno da sua mesa agitava­se a multidão curiosa e fascinada; as suas palavras eram acolhidas pelos companheiros de roda, como geniais preceitos, que enobrecem os primeiros ouvidos que os escutam. Ao seu lado, o Lopes Filho, o Rocha Coelho, o Reguinho e aquele célebre cogumelo Costa Mendonça, atentos e cerimoniosos, desfaziam­se em galanterias.

A Condessa não obstante protestava que ia fugir para casa, porque estava domesticando um urso branco, que entraria na jaula à meia­noite.

— Não se vá ainda... pedia labioso o deputado pela Bahia. Deixe isso para outra vez... Vamos cear ao Paris... o urso não fugirá!...

Ela, porém, não atendeu, ergueu­se, fez um geral e gracioso cumprimento à roda, e saiu acompanhada de longe por um imenso grupo de táticos admiradores, e de perto por aqueles quatro embeiçados, que a conduziam até à carruagem, disputando entre si a suprema honra de lhe dar o braço..

Ao entrar no carro, notou que da porta do teatro um rapaz, ainda muito moço lhe acompanhava os movimentos com um ar satírico e desdenhoso.

(continua...)

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